Você já ouviu falar em acretismo placentário? Esta é uma condição grave que pode atingir gestantes durante o parto, caracterizada pela fixação anormal e profunda da placenta na parede do útero. Registrado com cada vez mais frequência nas maternidades e nos hospitais de todo o país, o quadro exige atenção, pois é a 2ª principal causa da morte materna no Brasil e pode provocar hemorragias graves e choque hipovolêmico, conforme alertam especialistas.
A condição ocorre quando, após o nascimento do bebê, a placenta não se desprende naturalmente da parede uterina, conforme explica a ginecologista e obstetra Dra. Vanessa Chaves. Quanto mais profunda a aderência, maior o risco de sangramento durante a tentativa de retirada do órgão. Dependendo da gravidade, também pode ser necessária a histerectomia, cirurgia para retirada do útero.
A anestesista Helena Berriel Tanus acrescenta que, quanto mais aderida está a placenta, maior é o sangramento. A perda de sangue pode chegar a 750 ml por minuto, ou seja, em questão de quatro, cinco minutos, a paciente pode desestabilizar, entrar em choque hipovolêmico e vir a óbito. “Por isso é feito todo um checklist pré-operatório, a punção de diferentes acessos para repor o volume com rapidez, além, claro, do monitoramento da hemodinâmica, do pulso, da pressão, da respiração, entre outros”, pontua.
O acretismo placentário é classificado em três tipos, conforme a profundidade da invasão: acreta, quando a placenta fica aderida de forma mais superficial; increta, quando atinge a musculatura do útero; e percreta, quando atravessa toda a musculatura e alcança outros órgãos, como a bexiga.
Como funciona o parto da paciente diagnosticada
A anestesista Helena Berriel Tanus explica que o parto cesáreo de uma paciente diagnosticada com acretismo placentário é uma cirurgia complexa, extensa e pode durar até seis horas. Em alguns casos, o procedimento pode ser dividido em duas partes, sendo a primeira a do nascimento do bebê, por meio do uso de acessos e medicamentos específicos para aliviar a dor da mãe.
“Geralmente, utilizamos raquianestesia e peridural, que mantêm a mãe acordada e consciente para ter ali o primeiro contato com o bebê, mas sem o risco dessa medicação passar para o bebê, o que causaria desconforto respiratório e outras complicações no recém-nascido”, relata Helena.
Após o nascimento do bebê, a paciente é submetida à anestesia geral para a retirada da parte doente da placenta e a preservação da região saudável do útero. A estratégia busca reduzir o risco de hemorragia e, quando possível, preservar a fertilidade da mulher, permitindo futuras gestações. “A hemorragia é atualmente a 2ª principal causa de morte materna no Brasil e a 1ª no mundo. Sendo que a morte materna por hemorragia é 100% evitável”, pontua a profissional.
A importância do pré-natal
Conforme alerta a ginecologista e obstetra Dra. Vanessa Chaves, existe uma subnotificação alta dos casos de acretismo, por não ser uma condição muito conhecida, nem entre as mulheres nem entre os profissionais da saúde. Por isso, para garantir que tudo ocorra bem durante a gravidez e o parto, é indispensável que as gestantes façam acompanhamento pré-natal.
A investigação é feita por meio de ultrassonografia com Doppler e ressonância da pelve, com atenção à placenta, para identificar o acretismo. O histórico obstétrico também é muito importante, porque cesáreas prévias e alterações placentárias são fatores de risco para o desenvolvimento do acretismo. “Sem um pré-natal bem-feito, descobre-se a condição só na hora do parto, que geralmente é de urgência. Na maioria das vezes, a solução é realmente retirar o útero para resolver a hemorragia e tentar salvar a vida da mãe.”
A farmacêutica Andressa Nunes Ferreira Faustino, de 34 anos, foi diagnosticada com o tipo mais grave da doença durante a 28ª semana de gestação. Por causa da condição, o nascimento de Bento Emanuel, em 1º de junho de 2026, exigiu uma estrutura cirúrgica especializada, com equipe multidisciplinar. Também foram reservadas vagas nas UTIs adulta e neonatal.
Como Andressa realizou o pré-natal e recebeu o diagnóstico de acretismo placentário ainda durante a gestação, ela pôde organizar o parto com antecedência e contar com uma equipe preparada para lidar com os riscos da condição. Além dos cuidados médicos, a preparação também envolveu aspectos emocionais e espirituais, especialmente diante da complexidade do procedimento.
Hoje, quatro meses após o nascimento, Andressa acompanha o desenvolvimento de Bento Emanuel, que é saudável. O desfecho, segundo a anestesista Helena Berriel Tanus, reforça a importância do planejamento e da atuação integrada dos profissionais, já que, em situações de hemorragia, o tempo de resposta e cada detalhe do atendimento podem fazer diferença para preservar a vida da paciente.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)









