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Saúde

Na luta contra o câncer, pacientes podem pagar metade da conta de água em Campo Grande

Para além da sede, água tratada tem papel vital para tratamento contra a doença, que pode registrar 400 novos casos por ano, na Capital, até 2028
Thalya Godoy, Graziela Rezende -
Na luta contra o câncer, pacientes podem pagar metade da conta de água em Campo Grande
(Águas Guariroba/Divulgação)

Mesmo que a maratona de exames apontasse a possibilidade de câncer de mama, o resultado representa a perda do chão sob os pés. A boca resseca e o estômago embrulha, talvez antecipando os efeitos colaterais do tratamento. A pessoa diagnosticada imagina que o futuro será incerto, marcado por desafios diários para enfrentar esta doença, que pode registrar 400 novos casos por ano, em Campo Grande, até 2028, conforme o relatório “Estimativa 2026: Incidência de Câncer no Brasil” do Inca (Instituto Nacional de Câncer). 

Neste mês, é celebrado o Outubro Rosa, em alusão à campanha de prevenção e combate ao câncer de mama. Esta é a primeira causa de morte por câncer entre mulheres no Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde.

O câncer chega, acomoda-se e toma espaço na vida das pacientes. A doença se assoma e transforma rotinas. Alimentar-se vira um desafio em meio aos efeitos colaterais dos medicamentos, da quimioterapia ou da radioterapia. 

(Crislaine Oliveira/Arquivo Pessoal)

O organismo precisa se fortalecer para enfrentar o tratamento, e a hidratação se torna um ponto fundamental neste cenário. A jornalista Crislaine Oliveira, de 43 anos, relembra que sentia sede constante durante o tratamento. 

Ela recebeu o diagnóstico de câncer de mama há pouco mais de um ano, em setembro de 2025, após sentir um nódulo na mama esquerda em julho daquele ano. A rotina foi transformada: precisou se afastar por seis meses do trabalho, para realizar quimioterapia, radioterapia e três cirurgias, enquanto criava a filha de nove anos de idade.

“A convivência fica comprometida devido aos efeitos colaterais do tratamento. Eu tive muitos enjoos e tomava bastante água, mesmo sem sede. Inclusive, os médicos recomendam o consumo de água com alguns produtos naturais específicos, porque nem todos os produtos naturais a gente pode consumir”, recorda. 

‘Sempre me hidratei bastante’, relembra paciente

O consumo de água era uma preocupação constante durante o tratamento, mas era um hábito que já fazia parte da vida dela há anos. “Mesmo antes da doença e agora depois do final do tratamento, eu sempre me hidratei bastante”, destaca. 

A água tratada é fundamental para o paciente que combate o câncer, especialmente porque alguns tratamentos, como a quimioterapia, podem comprometer as defesas do organismo e aumentar a vulnerabilidade a infecções, explica a fisioterapeuta e doutora no programa de Saúde e Desenvolvimento na Região Centro-Oeste pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Fernanda Gurreiro de Paula, de 41 anos. 

Ela afirma que a água tratada, por si só, não fortalece diretamente o sistema imunológico, mas garante uma hidratação mais segura e reduz a exposição a microrganismos e contaminantes que poderiam causar doenças. 

“Manter uma hidratação adequada é essencial para o funcionamento do organismo e pode ser especialmente importante durante o tratamento. Portanto, para esses pacientes, não basta apenas consumir água em quantidade adequada: é fundamental que essa água seja potável e segura para o consumo”, ela explica. 

Sem ‘água segura’, pacientes ficam com imunidade comprometida

Ilustrativa — copo d’água. (Foto: Reprodução, Engin Akyurt/Unsplash)

A pesquisadora aponta que as pessoas que realizam o tratamento contra o câncer podem apresentar redução das defesas do organismo e ficar mais vulneráveis a infecções. Por isso, esses pacientes exigem uma atenção maior à qualidade da água, à alimentação, à higiene e à prevenção de doenças. Uma infecção que poderia ser facilmente controlada em uma pessoa saudável pode apresentar maior gravidade em um paciente com a imunidade comprometida.

Este cenário inclui as doenças de veiculação hídrica, ou seja, infecções causadas pela ingestão ou contato com água contaminada. Fernanda de Paula lista que as principais preocupações são as doenças transmitidas pela água contaminada, que podem provocar infecções gastrointestinais, diarreia e desidratação. 

“Podemos citar gastroenterites causadas por bactérias, vírus e parasitas, além de doenças como hepatite A, giardíase e criptosporidiose. Em uma pessoa que está com as defesas do organismo reduzidas, essas infecções podem evoluir de forma mais grave e até interferir na continuidade do tratamento. Por isso, o consumo de água potável e segura é ainda mais importante para esses pacientes”, alerta. 

Riscos ecológicos: onde isso nos afeta?

Fernanda de Paula pesquisou na tese de doutorado a presença de metais pesados nos solos de parques ecológicos urbanos de e os possíveis riscos ecológicos e à saúde humana associados à exposição a esses elementos. Foram avaliados o Parque Anhanduí, Parque Sóter, Parque Estadual do Prosa e Lago do Amor. Além de identificar e quantificar diferentes elementos presentes no solo, foram avaliados os riscos de exposição por ingestão, inalação e contato com a pele, tanto para adultos quanto para crianças. 

Os resultados mostraram que esses elementos estão presentes nos solos de Campo Grande e que alguns merecem atenção e monitoramento. Ela dá como exemplo a contaminação moderada por determinados elementos e, pelo índice de geoacumulação, o Lago do Amor apresentou classificação de moderadamente poluído por cádmio. 

“Mas é muito importante esclarecer que encontrar um metal pesado no solo não significa automaticamente que exista um risco imediato à saúde da população. O risco depende da concentração encontrada, do elemento, da frequência e da forma de exposição. É justamente por isso que trabalhos como esses são importantes: eles permitem conhecer a qualidade ambiental desses locais, identificar pontos que precisam de maior atenção e fornecer informações para o monitoramento e para ações preventivas de saúde pública”, destaca.

De acordo com o Ranking do Saneamento 2026, Campo Grande é a quarta capital em saneamento básico do Brasil, ficando acima da média em abastecimento de água, coleta de esgoto, investimentos e controle de perdas. O índice de potabilidade da água da Capital alcançou 99,22% em 2025. O processo envolve uma série de análises que garantem que o consumo diretamente da torneira seja seguro, diferentemente de outras cidades.

Um gole de vida

Para viabilizar o acesso à água de qualidade, pessoas de baixa renda em tratamento contra o câncer têm direito à tarifa social, que prevê o desconto de 50% na conta de água e esgoto. O benefício permite que pacientes em situação de vulnerabilidade em Campo Grande passem pelo tratamento com acesso à água tratada, que desempenha papel vital na saúde. 

O benefício é previsto há quase uma década na Capital, por meio da Lei n. 5.914, de 13 de novembro de 2017, que prevê a aplicação da tarifa social sobre os serviços públicos de abastecimento de água e saneamento sanitário para os portadores de câncer e de doenças renais crônicas.

O alcance da Tarifa Social de Água e Esgoto, seguindo as diretrizes da Lei Federal nº 14.898/2024, foi ampliado, atingindo cerca de 57 mil famílias, o equivalente a aproximadamente 170 mil pessoas em Campo Grande. O benefício é aplicado aos primeiros 20 metros cúbicos consumidos.

Sendo assim, seguindo as regras da modalidade vinculada ao CadÚnico (Cadastro Único), podem ser contempladas famílias com renda mensal de até meio salário mínimo por pessoa, desde que estejam inscritas no cadastro e com os dados atualizados nos últimos 24 meses. A identificação ocorre de forma automática, quando as informações atendem aos requisitos e permitem a vinculação da família à conta de água.

Neste sentido, Crislaine Oliveira, que precisou se afastar do trabalho durante o tratamento, disse que não conhecia o benefício. “Eu não sabia da existência dele. Tive acesso a outros [benefícios], mas não sabia que havia essa possibilidade para a água e a luz. Se soubesse, com certeza teria acessado, porque ajudaria muito. A questão financeira também é impactada durante o tratamento oncológico”, relatou.

Tratamento

A experiência de Crislaine, aliada aos estudos científicos, reforça a importância da hidratação durante o tratamento oncológico. Mais do que aliviar o desconforto provocado por sintomas como enjoos e azia, o consumo de água potável e segura é essencial para o funcionamento do organismo. 

A mesma realidade faz parte da trajetória da nutricionista Laysa Paes de Brito Gonçalves, de 49 anos, que descobriu um câncer de mama aos 40. O diagnóstico marcou o início de uma longa jornada, com radioterapia, cirurgias e um processo de reabilitação que exigiu paciência e força para enfrentar cada etapa.

“Passei por uma jornada de incertezas, principalmente por conta dos procedimentos cirúrgicos e de toda a fase de superação. Fui diagnosticada em 2017, com um carcinoma ductal in situ, um câncer que, segundo os especialistas, é inicial e com chance de praticamente 100% de cura, então, passei por radioterapia e, posteriormente, precisei retirar a mama esquerda”, relembrou ao Midiamax. 

(Laysa Brito/Arquivo Pessoal)

Mesmo após o tratamento inicial, as microcalcificações suspeitas continuaram aparecendo nos exames. “Foi um caminho longo, no qual eu descobri com um ultrassom, que constatou um pequeno nódulo. Aí foi sugerida a mamografia, por conta da idade. Peguei o resultado em dezembro e me ligaram para retirar [o exame]. Na época, eu morava em . Trabalhava no hospital, como nutricionista, então, estranhei a conduta deles. Do exame, pediram a biópsia guiada por ultrassom; porém, não apareceu neste exame, só após seis meses que veio o diagnóstico”, contou.  

A recomendação médica foi a mastectomia, realizada durante a pandemia. A cirurgia exigiu um mês de permanência em Barretos (SP) e foi seguida por um longo processo de fisioterapia para recuperar os movimentos, além do enfrentamento de uma fibrose na região operada. 

“Hoje estou recuperada, faço acompanhamento médico anual e estou com um novo olhar para a vida. Como alguém que já passou pelo tratamento, sei o quanto esse período é delicado e cheio de desafios, inclusive financeiros; então, o desconto de 50% na conta de água é uma iniciativa muito importante, que representa acolhimento, empatia e respeito por quem está enfrentando essa luta. Espero que a proposta perpetue e ajude muitas famílias”, encerrou. 

Fé e força para enfrentar a doença

A técnica em Radiologia Pauliani Santos da Silva, de 43 anos, também desconhecia a possibilidade de buscar o benefício. Ela descobriu o câncer de mama em novembro de 2023, durante o autoexame, pouco antes de completar 40 anos. Ao perceber um caroço na mama direita, procurou um mastologista e, após realizar os exames, recebeu o diagnóstico.

Pauliani passou por uma cirurgia para retirar parte da mama, seis sessões de quimioterapia e 15 de radioterapia. O tratamento se estendeu ao longo de 2024 e continuou em 2025, com acompanhamento médico. Mesmo diante das dificuldades, ela encontrou na fé uma forma de reunir forças para atravessar cada etapa.

“Todo o processo do câncer é muito difícil, tanto corporal como espiritual. Só que o corporal, embora seja o que você vê por fora, é o mais fácil. Você tem que estar espiritualmente e emocionalmente muito forte para o corpo aguentar”, relata.

Católica e também simpatizante do espiritismo, Pauliani conta que uma mensagem ouvida durante uma celebração religiosa a ajudou a enfrentar o diagnóstico. “O padre falou assim: ‘Se você confia em Deus, tem que descansar n’Ele, lutar, esperar e confiar’. Desde que ele falou isso, eu encaro assim. Não é fácil. Tem dias em que a gente está lá em cima, tem dias em que está embaixo, mas tenho na cabeça que vai dar certo. Se eu tenho que passar pelo processo, vou passar. Não tenho medo do câncer”, afirma.

(Pauliani Santos/Arquivo Pessoal)

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A trajetória, porém, ganhou novos desafios. Depois de entrar em remissão, Pauliani perdeu o pai, em março de 2026. Ela conta que, após o período de luto, exames identificaram uma recidiva da doença. Também precisou enfrentar dores e uma cirurgia na coluna, com a colocação de oito parafusos, o que a afastou temporariamente da prática de exercícios físicos, algo que sempre lhe deu força.

“Eu praticava esportes, fazia exercícios, e o esporte é o que mais me dá força, porque mexe com o corpo. Fiquei quase dez meses sem fazer exercício por causa das dores. Agora, estou retomando aos poucos”, conta.

Além dos desafios físicos e emocionais, Pauliani também precisou lidar com os efeitos colaterais do tratamento. Para ela, manter o corpo hidratado é parte importante desse processo. “A água é de suma importância para os pacientes que tratam câncer, porque a gente precisa estar hidratado para viver melhor e lidar com efeitos colaterais, como diarreia e inflamações”, explica.

Assim como Crislaine, Pauliani não sabia que poderia buscar a Tarifa Social. “Eu não sabia, mas agora vou correr atrás também”, afirma. Para ela, a possibilidade de reduzir o valor da conta de água representa um apoio importante em uma fase que exige cuidados constantes e mudanças na rotina.

Saneamento também é saúde e dignidade

(Foto: Nathalia Alcântara, Jornal Midiamax)

Para Jhonatan Santos, gestor de Responsabilidade Social da Águas Guariroba, garantir o acesso à água tratada vai além de disponibilizar o serviço. É preciso considerar as condições das famílias, especialmente quando enfrentam dificuldades financeiras.

“Quando a gente fala da água tratada, muitas vezes a primeira coisa que vem à cabeça é simplesmente abrir a torneira e ter água disponível. Mas existe muita coisa por trás disso. A água tratada é saúde, dignidade, cuidado com as pessoas”, afirma.

Segundo ele, a Tarifa Social é uma ferramenta para oferecer condições diferenciadas às famílias que mais precisam. “Não basta o serviço chegar. A gente precisa trabalhar para que as pessoas também tenham condições de acessar e permanecer com esse serviço. E é aí que entra a Tarifa Social”, destaca.

O gestor ressalta que o saneamento está diretamente relacionado às condições de vida da população. “Quando a gente fala de água e saneamento, a gente está falando de pessoas. Quando conseguimos unir uma estrutura com um olhar mais social, não estamos simplesmente levando água para dentro de casa. Estamos ajudando a levar saúde, dignidade e oportunidade”, conclui.

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(Revisão: Dáfini Lisboa)

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