“O que aconteceu embaixo daquela árvore não tem explicação natural. Foi surreal, foi divino”. A descrição é de Ellen Caroline Barretos sobre seu casamento com Damásio Filho, no dia 30 de maio de 2024, em Campo Grande. E é fácil concordar com ela quando se tem mais detalhes sobre este dia, que, sem dúvida, ficou e ficará marcado para sempre na memória e no coração de quem participou da cerimônia.
Imagine só: o dia caía, o amarelo e o laranja do pôr do sol ainda passeavam pelo céu, quase imperceptíveis entre as folhagens que compunham a decoração do casório. Então, já de noite, destacavam-se as luzes amarelas colocadas estrategicamente nos galhos de um ingazeiro majestoso, dando o tom de intimidade e paz que conduziria toda aquela cerimônia.
E tudo ali fazia sentido, parecia se encaixar. A natureza, tão importante para aquele casal, abraçava quem esperava, ansioso, para presenciar o tão aguardado sim. A cerimônia começou. O noivo entrou com balões em mãos, homenageando seus avós. Como sinal de bênção, três araras-canindés pousaram sobre a árvore e começaram a cantar alto.
Damásio é indígena da etnia Terena e, para ele, existe uma atenção especial aos sinais da natureza. Por isso, naquela noite, as aves foram entendidas como um sinal de bênção.
“Foi tudo mágico! Para os indígenas (meu marido é indígena), temos que estar atentos aos sinais, e muitas coisas sinalizaram a bênção do Criador sobre aquele lugar. Enquanto estávamos embaixo daquela árvore, durante todo o período da cerimônia, parecia que o tempo havia parado, não sei explicar, como se o natural e o não natural estivessem ali, juntos, celebrando a vida”, relembra Ellen.
Esta é só uma das inúmeras histórias que um ingazeiro, robusto e iluminado com luzes amarelas, já contou em quase cem anos de existência. E é ele que decidimos homenagear no mês em que celebramos o Dia da Árvore.


Árvore octogenária
A árvore quase centenária fica no fundo de uma propriedade na Chácara dos Poderes, em Campo Grande. Há 16 anos, ela é palco para inúmeras cerimônias de casamento e até de alguns aniversários. Mas, antes de ser testemunha do amor de tanta gente e presença ilustre em cerimônias de pessoas que moram do outro lado do mundo, o ingazeiro era apenas sombra de estacionamento.
Victor Bortolini, sócio-gerente da Estância, conta que a chácara era um espaço de convivência da família. Por cerca de 40 anos, era ali que a família de seu marido se reunia para os churrascos do fim de semana; era naquele gramado que as crianças faziam suas brincadeiras e, claro, celebravam os aniversários.
Então, no dia 10 de julho de 2010, o local foi cenário para o primeiro casamento — da centena que viria em seguida. A cunhada de Victor se casou e, pra isso, a família se empenhou em reformar o espaço para deixá-lo apto para um evento. E, claro, tudo foi lindo! Então, veio o convite que mudaria a vida do casal. “Meu sogro falou assim para meu marido: por que você não toca esse espaço e o utiliza como seu negócio? E a gente começou”.
Dali em diante, as coisas cresceram aos poucos. Em um ano, o casal chegou a realizar 15 eventos, uma estimativa bastante tímida se comparada ao número de cerimônias que seriam realizadas 16 anos depois.

O ingazeiro
Então, chegou 2015, e o sonho de uma noiva de celebrar seu casamento debaixo de uma árvore mudaria como todos veriam o ingazeiro nos anos seguintes. De uma árvore que fazia sombra em um estacionamento, ela se tornaria a grande estrela de inúmeras cerimônias.
“Teve um dia que uma noiva pediu para casar na árvore que tinha no estacionamento da Estância. E a gente falou assim: ‘Mas no estacionamento, por quê?’. O lugar de casar era lá no pergolado. Aí ela respondeu: ‘Porque acho essa árvore linda’. Era esse ingazeiro. E ela disse: ‘Quero me casar lá'”, recorda-se Victor.
Ele e o marido concordaram, claro. O ingazeiro foi decorado e a cerimônia aconteceu. Não demorou para que a árvore fosse ‘disputadíssima’ por casais que apreciam cerimônias ao ar livre.
“Depois que ela se casou, as noivas começaram a ficar encantadas com a árvore, porque ela abraça realmente as famílias. A simbologia da árvore, da família que cresce, da planta; então, ela tem muita simbologia de amor ali”, explica.
“Imagina quantas famílias já iniciaram a vida ali. Então, quanta energia boa tem ali embaixo, né? Quanto amor, quanta troca, quanta reza, quanta prece, quanta oração. Eu acho que ali é um símbolo de amor, um símbolo de vida, um símbolo de família. E, para minha família propriamente dita, ela representa muita coisa. É um símbolo, e é o nosso trabalho, e é o nosso ganha-pão, e ela é muito especial”, finaliza.







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(Revisão: Dáfini Lisboa)








