Por trás do mato alto, o que se vê é lixo acumulado, animais peçonhentos e criadouros do mosquito Aedes aegypti, transmissor do chikungunya — doença que já provocou 22 mortes em Mato Grosso do Sul em 2026. Espalhados pelas sete regiões de Campo Grande, os terrenos abandonados se tornaram tão frequentes que passaram a ser encarados como um problema crônico, descrito pela própria Prefeitura como ‘cultura comum da cidade’.
Em 50 dias, entre 13 de abril e 1º de junho, Campo Grande registrou 2.409 denúncias relacionadas a terrenos baldios e áreas irregulares, o equivalente a uma média de 48 registros por dia. Os dados são do aplicativo +CG e incluem casos de descarte irregular de resíduos e falta de manutenção de imóveis particulares, situações que impactam diretamente a saúde pública.
Do total de denúncias, 742 já foram concluídas e outras 1.667 ainda aguardam tramitação administrativa. Segundo a Prefeitura, os processos envolvem etapas como análise técnica, verificação cadastral, identificação dos responsáveis e demais procedimentos necessários para a instrução das ações fiscalizatórias.
‘Cadê a Lúcia?’
Enquanto as denúncias se acumulam, moradores convivem diariamente com os impactos da falta de manutenção dos terrenos. No bairro Nova Lima, a situação de uma área abandonada chamou a atenção nas redes sociais.
Cansadas de esperar providências, duas moradoras da Rua Santo Inácio de Loiola recorreram ao humor para denunciar o problema. O matagal era tão alto que chegava a esconder uma pessoa em pé. Em vídeo, uma das moradoras entra no terreno e desaparece em meio à vegetação para demonstrar o tamanho do abandono. Segundo ela, a situação persiste há pelo menos três anos.
“O terreno fica ao lado da minha casa. O matagal está muito alto e a gente não consegue nem passar pela calçada. Quando volto da igreja à noite, fico com medo de alguém se esconder ali”, relatou uma delas ao Jornal Midiamax.
Nas imagens, uma das mulheres some no meio do mato enquanto a amiga brinca: “Socorro, ajuda a gente. Olha a situação da minha amiga. Cadê a Lúcia? Lúcia, cadê você?” A resposta vem logo depois: “Socorro, gente. Estamos abandonadas no meio do mato. Estou aqui, Cida, perdida no mato”.
Multas podem ultrapassar R$ 13 mil

Apesar do aplicativo ter ganhado alta adesão dos campo-grandenses, a Semades (Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Gestão Urbana e Desenvolvimento Econômico, Turístico e Sustentável) informou que os dados sobre notificações e multas ainda estão em processo de consolidação.
Conforme o Código Sanitário Municipal de Campo Grande, toda e qualquer edificação, urbana ou rural, deverá ser construída e mantida observando, entre muitas outras, a proteção contra enfermidades transmissíveis e crônicas.
Caso os cuidados sanitários não sejam cumpridos, o proprietário poderá sofrer diversas penalidades, entre elas, advertência e multa.
As penalidades para proprietários que deixam terrenos sem limpeza ou manutenção variam entre R$ 3.390,50 e R$ 13.562, conforme a gravidade da infração, reincidência e demais critérios previstos na legislação municipal.
Sobre a quantidade de áreas regularizadas após as fiscalizações, a pasta afirma que ainda não há um levantamento consolidado. Isso porque os processos incluem prazos para apresentação de defesa pelos proprietários e períodos destinados à adequação dos imóveis, além de novas vistorias para verificar o cumprimento das determinações.
Combate a uma ‘cultura comum’

As denúncias são recebidas principalmente por meio do aplicativo +CG, lançado oficialmente em 13 de abril como parte de uma estratégia integrada para ampliar a fiscalização de terrenos baldios e combater um problema histórico da cidade.
Desenvolvido pela Agetec (Agência Municipal de Tecnologia da Informação e Inovação), o sistema permite que qualquer cidadão registre ocorrências relacionadas a mato alto, lixo acumulado e outras irregularidades em áreas particulares.
Na época do lançamento, a Prefeitura afirmou que a iniciativa busca enfrentar o que classificou como uma “cultura comum na cidade”: a manutenção precária de terrenos privados e a formação de “lixões clandestinos”.
Por meio do aplicativo, o cidadão envia fotos e informações sobre o local denunciado. Os dados passam por análise técnica e dão início ao processo administrativo de fiscalização.
“Queremos que o cidadão entenda suas responsabilidades e se conscientize de que é seu dever zelar pelo imóvel. Também buscamos reduzir a proliferação de vetores e enfrentar um problema histórico de forma inovadora, com tecnologia, estrutura própria e apoio da população, sem custos adicionais para o município”, afirmou o secretário da Semades, Ademar Silva Junior.
Além do aplicativo +CG, as denúncias podem ser feitas pela Central de Atendimento 156.
Como denunciar
- Baixe o aplicativo +CG na loja do celular;
- Faça login com CPF e senha ou realize o cadastro;
- Acesse a aba “Serviços” e selecione “Denúncia Terreno Baldio”;
- Preencha as informações solicitadas;
- Marque a localização no mapa;
- Envie a denúncia para análise.
Leia também:
💬 Fale com os jornalistas do Midiamax
Tem alguma denúncia, flagrante, reclamação ou sugestão de pauta para o Jornal Midiamax?
🗣️ Envie direto para nossos jornalistas pelo WhatsApp (67) 99207-4330. O sigilo está garantido na lei.
✅ Clique no nome de qualquer uma das plataformas abaixo para nos encontrar nas redes sociais:
Instagram, Facebook, TikTok, YouTube, WhatsApp, Bluesky e Threads.
(Revisão: Nichole Munaro)







