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Cotidiano

CG127: ‘Pega a Afonso Pena e vai’: a radiografia da artéria de Campo Grande em 24h

Estratégica na cidade, avenida agora precisa aprender a ocupar e transformar os espaços que construiu
Idaicy Solano -
CG127: ‘Pega a Afonso Pena e vai’: a radiografia da artéria de Campo Grande em 24h
Avenida Afonso Pena, em Campo Grande. (Foto: Mateus Andrade, Jornal Midiamax)

Se você mora em , provavelmente já ouviu a frase “pega a Afonso Pena e vai”. Com pouco mais de oito quilômetros de extensão, a avenida é uma das principais vias de ligação da capital sul-mato-grossense, e sua localização serve tanto como ponto de referência quanto para conectar os moradores a diferentes regiões da cidade. 

Pensada e criada para cumprir uma função estratégica na expansão de Campo Grande, ao longo do percurso, a avenida concentra comércios, bancos, prédios públicos e empresariais, postos de combustível, farmácias, escolas, praças, parques, restaurantes e bares. Por ela passam, diariamente, trabalhadores, moradores e turistas. 

No entanto, o valor da avenida não está apenas no caminho que ela encurta ou na região que ela conecta. A Afonso Pena também possui papel fundamental na construção da identidade de Campo Grande, além de refletir as transformações da cidade ao longo de seus 127 anos.

Após percorrer oito quilômetros buscando entender a dinâmica da avenida, talvez seja impossível falar em uma única Afonso Pena. O fluxo, a paisagem e a forma como as pessoas ocupam os espaços mudam dependendo da altura em que você está.

Talvez essa seja uma das características mais interessantes dela, pois, à medida que a cidade cresce, a avenida também ensina que Campo Grande precisa aprender a ocupar e transformar os espaços que construiu.

Uma avenida para ‘ir e vir

Registro do ‘ir e vir’ na Afonso Pena, na região central de Campo Grande. (Foto: Mateus Andrade, Jornal Midiamax)

Qualquer um que tenha gastado mais do que dez minutos na região central, especialmente nos trechos em que a Avenida Afonso Pena se conecta com as ruas Bahia, Rui Barbosa, 14 de Julho, Calógeras e a Avenida Duque de Caxias, deve ter notado uma cena cotidiana: um semáforo fecha, alguém buzina. Quando abre, já tem outro motorista esperando, apressado, para passar. 

Nos pontos com Peg Fácil, há uma frenética subida e descida de passageiros em ônibus lotados. No coração da avenida, onde está localizado o ‘Relógio da 14′, pedintes e comerciantes tentam “vender” seu peixe a pessoas de passagem, quase sempre sem tempo para parar e ouvir. 

É uma mistura de sons, rostos e destinos que se repetem todos os dias e mantêm pulsando a via-artéria da cidade. 

O povo parece que só anda com pressa, é um bibi daqui, um bibi dali. O pessoal não tem paciência de esperar o outro passar. O outro chega atrás, o sinaleiro abre e o outro já tá buzinando em cima, não dá tempo, tem que ser rápido. A Afonso Pena é boa, porque é a via mais rápida. Por aqui tem o relógio, o obelisco, o [monumento do] Manoel de Barros para tirar foto. Mas [tirando isso] é uma avenida só para ir e vir mesmo”, descreve a comerciante Rosângela da Silva Leão, de 55 anos.

Trabalhador da limpeza urbana de Campo Grande há exatos 33 anos, José Geraldo Lima da Silva, de 55 anos, bate o ponto por volta das 7h e se desloca para a avenida para fazer a manutenção dos canteiros centrais. Enquanto a equipe trabalha, o trânsito flui.

Nós chegamos aqui às 7h30. O trânsito é muito intenso, o pessoal tem hora que fica bravo com a gente, mas a gente tem que trabalhar, né?”, expressa José Geraldo.

José Geraldo e equipe da Solurb durante mais um dia de trabalho na avenida. (Foto: Leonardo de França, Jornal Midiamax)

‘Pega a Afonso Pena e vai!’

Rebatizada em 1909 em homenagem ao sexto presidente da República Oligárquica, Afonso Pena, a avenida antes levava o nome de Marechal Hermes da Fonseca. A mudança ocorreu após o governo de Afonso Pena autorizar a passagem da ferrovia por Campo Grande, um marco para o desenvolvimento e a expansão da cidade. Sua importância logística é inegável, mas, afinal, o que faz uma população inteira ter a mesma referência e enxergar uma avenida como a artéria de uma cidade?

O historiador e professor Henry Magalhães explica que esse senso coletivo parte de uma dinâmica que vem sendo construída desde a idealização da Afonso Pena e que acompanhou o crescimento da cidade ao longo das décadas. 

Partindo do ponto de vista da importância logística, a Afonso Pena foi construída para dar sustentação a outras vias, segundo o historiador. Até então, vias importantes como a 26 de Agosto, a 15 de Novembro e a 7 de Setembro já existiam, e já concentravam a atividade comercial, servindo também como pontos de encontro. 

A própria extensão entre a Praça Ary Coelho e a Praça do Rádio foi uma questão proposital, visando à ocupação de espaços urbanos. Por fim, a cereja do bolo foi a construção de órgãos públicos ao longo da via. 

Alguns órgãos foram mudando ao longo do tempo, mas a Prefeitura continua ali. Então as avenidas que têm essa característica de ter uma instituição pública, grandes praças, praças para eventos, pontos de encontro, grandes comércios, contribuem para a gente atribuir essa característica de importância”, explica Henry. 

Movimentação no Peg Fácil da Praça Ary Coelho. (Foto: Leonardo de França, Jornal Midiamax)

Para o comerciante Ahmad Samir Nóbrega, de 34 anos, essa referência foi levada em consideração ao abrir sua loja de acessórios próxima ao cruzamento com a Calógeras. 

Você está na avenida principal da cidade. Você está numa mistura de centro, com partes importantes da cidade, de lazer, de cultura. Campo Grande vem crescendo cada vez mais, mas no momento que você fala que é na Avenida Afonso Pena, todos sabem onde fica, sabem onde encontrar”, expressa Ahmad Samir. 

Essa importância construída ao longo do tempo também aparece na forma como os próprios moradores enxergam a avenida. O funcionário de limpeza urbana José Geraldo considera a via uma das mais importantes para a Capital.

Qualquer coisa que o pessoal vem te perguntar, você dá ela como referência. ‘Sabe a Afonso Pena? É por ali que você vai‘”, expressa.

José Geraldo trabalha na limpeza urbana de Campo Grande há 33 anos. (Foto: Leonardo de França, Jornal Midiamax)

Referência não significa pertencimento

Os 127 anos de Campo Grande, celebrados neste dia 26 de agosto, podem parecer muito tempo, mas, quando comparados às capitais brasileiras que carregam mais de três ou quatro séculos de história, a capital de Mato Grosso do Sul ainda é jovem. O processo de amadurecimento, enquanto cidade, enfrenta desafios como olhar com mais atenção para os espaços públicos, incentivar sua ocupação, ampliar as opções de lazer e transformar lugares de passagem em espaços de convivência, conforme observa o historiador Henry Magalhães.

A Afonso Pena pode até ter se tornado uma referência dentro dessa história, mas referência não significa, necessariamente, pertencimento. Um dos principais desafios está justamente em provocar esse sentimento e estimular a ocupação no coração da avenida. Mais especificamente, no trecho que compreende a Calógeras e a Rui Barbosa, onde está localizado o centro comercial.

Embora haja vida pulsando, essa vida parece estar desconectada da avenida. “[A avenida] é parte da nossa identidade, do nosso ser, [mas] acho que falta um pouquinho disso em nós, campo-grandenses. A gente ainda não usa muito esses termos [que remetem a um sentimento de pertencimento] em relação à nossa cidade. Eu acho que falta um pouco disso”, declara o comerciante Ahmad Samir Nóbrega.

Comerciante Ahmad Samir Nóbrega, em entrevista ao Jornal Midiamax. (Foto: Mateus Andrade, Jornal Midiamax)

A Praça Ary Coelho, por exemplo, é um dos principais pontos de passagem da região central. Embora algumas pessoas abordadas pela reportagem tivessem a visão de que a praça está “largada às traças”, não dá para dizer que ela está inabitada. Ainda há pessoas que diariamente transitam por ali, param para descansar nos bancos ou para comer uma pipoca quentinha vendida pelo casal Rosângela da Silva Leão, de 55 anos, e Isaac Barbosa de Souza, de 59, no cruzamento da Afonso Pena com a 14 de Julho.

Mesmo assim, “não tenho muito o que dizer sobre isso” foi uma das respostas obtidas na tentativa de abordar um grupo de amigos desfrutando de um momento de lazer no local. Houve quem opinasse que “a avenida já foi melhor” e que “aqui era bom, movimentado, lá por 2011”, sem nada mais a acrescentar.

Mais à frente, críticas sobre as condições precárias do banheiro da praça e a presença de pessoas em situação de rua foram apontadas como um dos motivos pelos quais as pessoas talvez não se sintam tão à vontade para ficar mais do que dez minutos por ali.

Isaac Barbosa de Souza e Rosângela da Silva Leão vendem pipoca na praça há quase 30 anos. (Foto: Mateus Andrade, Jornal Midiamax)

O desafio de ocupar o Centro

O avanço da atividade comercial e a redução de moradias provocaram um processo de expulsão das pessoas do Centro, conforme explica o historiador Henry Magalhães. Essa mudança na dinâmica da cidade, sobretudo nesse ponto em específico da Avenida Afonso Pena, fez com que ela se tornasse cada vez mais um lugar de passagem, reduzindo a convivência e a permanência nestes espaços. 

O historiador atribui essa mudança ao período de pandemia e ao avanço do e-commerce, visto que ambos transformaram a dinâmica do consumo. “[Ocorre um] processo de expulsão das pessoas do Centro. Mas não no sentido de que elas não vão mais ao Centro, e sim de que o Centro passa a ser um ponto de chegar, comprar alguma coisa e ir embora.

O Centro depende, não só em Campo Grande, mas também em várias cidades grandes do Brasil, da atividade comercial. E se o comércio está fechado, ou tem muitas lojas fechando, [aliado ao avanço] do e-commerce e do marketing digital, a gente vê o Centro cada vez mais esvaziado”, explica o historiador. 

Prédio comercial para alugar na Afonso Pena. (Foto: Mateus Andrade, Jornal Midiamax)

Esse cenário já é sentido pelos próprios comerciantes, que relatam que as pessoas passam, mas raramente param para entrar nas lojas e consumir. “Infelizmente, para nós, que somos comerciantes, a Afonso Pena está muito parada no momento. A gente gostaria que ela tivesse mais transeuntes mesmo, a população andando. Carro tem bastante, como sempre teve e cada vez está tendo mais. Mas, por problemas de violência urbana e tudo mais, não está tão movimentada [de pedestres] no momento”, expõe o comerciante Ahmad Samir Nóbrega.

O historiador Henry Magalhães pontua que o desafio surge da necessidade de equilibrar as diferentes formas de ocupação da Afonso Pena, especialmente no Centro, que precisa voltar a também ser lugar de moradia, convivência e permanência, não apenas de comércio.

A tendência é de que cada vez mais aconteça isso [o esvaziamento do Centro] se a gente não tiver políticas públicas e ações para convidar pessoas para vir para o Centro, criar moradias e formas de se relacionar com esse espaço. Há uma preocupação das pessoas que estudam essa área de que o Centro pode ficar esvaziado, e um centro esvaziado traz consigo um monte de problema. Então, a gente precisa ter uma dimensão de como equilibrar essa balança”, pontua o historiador. 

Henry Magalhães comenta sobre as transformações da Avenida Afonso Pena ao longo das décadas. (Foto: Madu Livramento, Jornal Midiamax)

A avenida amadurece com a cidade

À medida que se avança pela Afonso Pena em direção às áreas mais residenciais e turísticas, a dinâmica apresentada anteriormente muda e aparecem outras formas de ocupar a cidade.

Os arredores do Parque das Nações, por exemplo, possuem uma forte cultura ligada à ocupação e ao lazer. Já da rotatória do Círculo Militar ao Centro, a avenida é ocupada por uma atividade comercial voltada ao setor de serviços, além de incluir hotéis, garagens e locadoras de veículos.

Essa diversidade na forma de ocupar espaços dentro de uma mesma avenida não é exclusividade da Afonso Pena, mas sim um reflexo de uma cidade que cresce e, consequentemente, tem sua principal avenida amadurecendo com ela, conforme pontua o historiador Henry Magalhães.

“A cidade foi crescendo, a via começou a se estender até o Parque das Nações e hoje ela vai até lá no Parque dos Poderes. E esticou para o outro lado da cidade também [em direção à Duque de Caxias]. Então a cidade vai crescendo, vai aumentando esse espaço urbano de comércio e, automaticamente, uma avenida importante como essa vai acompanhando o ritmo e passando por modificações”, explica Henry.

Uma avenida, múltiplas facetas

Em contraste com o cenário descrito pelos frequentadores do Centro, a pedagoga Laísa Cristina Oliveira Santos Valle, de 30 anos, relata que costuma ir até os altos da avenida para “respirar” durante a rotina puxada da semana.

Em qual outro lugar a gente poderia ver uma anta atravessando a avenida e virando até manchete? Você pode desacelerar, você não precisa mais andar tão rápido, você pode desfrutar de um bom passeio”, expressa a pedagoga Laísa Cristina.

A pedagoga Laísa Cristina comenta sobre a importância da avenida para o lazer e a prática de esportes. (Foto: Mateus Andrade, Jornal Midiamax)

Os altos da Avenida Afonso Pena contam com bares, restaurantes e uma gama de vendedores ambulantes que comercializam bebidas e alimentos nas entradas do parque, configurando uma parte mais turística e de lazer dentro da via. Além disso, a proximidade com a Reserva Ecológica do Parque dos Poderes e o Parque Estadual do Prosa proporciona um ambiente fresco, com muitas árvores e a presença de pássaros e animais silvestres.

Aos fins de semana, a via é parcialmente fechada, ampliando o espaço para a prática de caminhadas, ciclismo e passeios em família. É nessa parte da avenida, inclusive, onde o sol se põe, tornando a vista do Parque das Nações Indígenas um dos cartões-postais da cidade.

Por ser uma região mais plana da cidade, é também bastante frequentada por praticantes de corrida, como é o caso de Laise. “Esse ambiente torna tudo muito mais animador. Não tem muitos prédios nem trânsito. Até mesmo os quiosques para fazer um lanche depois dão aquele estímulo pra gente. As paisagens são muito mais bonitas aqui. Tudo isso é um bom estímulo até pra quem tá praticando esporte também.”

No entanto, esse cenário também passa por mudanças provocadas pelo avanço de construções de prédios, casas e condomínios, que estão transformando a paisagem da região, conforme pontua o historiador Henry Magalhães. A população está assistindo a isso acontecer em tempo real, o que ajuda a ilustrar como a avenida se molda à medida que Campo Grande amadurece.

Movimentação em área de lazer da avenida. (Foto: Mateus Andrade, Jornal Midiamax)
Ambulantes no Parque das Nações Indígenas. (Foto: Mateus Andrade, Jornal Midiamax)
Fauna de Campo Grande
Capivaras no Parque das Nações Indígenas. (Foto: Madu Livramento, Midiamax, Jornal Midiamax)
Ciclovia nos altos da Avenida Afonso Pena. (Foto: Henrique Arakaki, Jornal Midiamax)
Altos da Avenida Afonso Pena. (Foto: Divulgação/PMCG)
bioparque pantanal
Bioparque Pantanal nos Altos da Avenida Afonso Pena, em Campo Grande (Foto: Henrique Arakaki/Midiamax)

24 horas na Afonso Pena

O dia pode começar com esporte e lazer para os associados do clube ou incluir uma visita ao Santuário Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e uma parada para lanchar em uma das lanchonetes mais tradicionais da avenida, localizada no cruzamento com a Avenida Ernesto Geisel. A região é marcada também por hotéis, locadoras de veículos e outros serviços.

Seguindo em direção ao Centro, o percurso passa pelo Camelódromo e pelo Mercadão Municipal, antes de chegar à Morada dos Baís, à Casa do Artesão e à Praça Ary Coelho. Por ali, a avenida concentra comércio, gastronomia e serviços, além de atividades culturais gratuitas oferecidas pela Casa da Cultura de Campo Grande.

Mais adiante, o Shopping Campo Grande, primeiro centro comercial desse porte a ser construído na cidade, oferece outra experiência de compras e lazer. Já no trecho final, a paisagem muda novamente ao chegar ao Parque das Nações Indígenas, parte turística da avenida. A região também concentra bares e restaurantes. 

cultura editais
Casa da Cultura de Campo Grande, na Avenida Afonso Pena. (Foto: Reprodução, PMCG)

Por fim, vale ressaltar que a Afonso Pena faz parte do imaginário dos campo-grandenses, e sua importância para a capital como referência, espaço de lazer, comércio e ponto de encontro é incontestável. Mas uma cidade que cresce também muda suas necessidades, e cabe à principal avenida da cidade acompanhar esse processo, abrindo cada vez mais espaço para o lazer e a convivência.

Vejo a Afonso Pena como uma coisa muito preservada. A gente vê árvores, tem canteiro central, tem ciclovia. A gente está acostumado a ver, por exemplo, pássaros, araras. A gente tem boates, restaurantes, igrejas, garagens. Mas Campo Grande é uma cidade que está crescendo e precisa cada vez mais de lazer. Não só dos comércios. Precisa de mais parques, praças e de mais pontos de encontro para a juventude”, finaliza o historiador.

A reportagem procurou a Prefeitura de Campo Grande, por meio da Agetran (Agência Municipal de Trânsito), Planurb (Agência Municipal de Meio Ambiente e Planejamento Urbano), Guarda Civil Metropolitana e Sisep (Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos), para obter dados e informações técnicas sobre fluxo e mobilidade, transformações e projetos urbanísticos, segurança e patrulhamento, além de manutenção e infraestrutura da Avenida Afonso Pena. Também foram solicitados dados históricos, levantamentos e registros relacionados à via. Até o fechamento da reportagem, porém, não houve retorno.

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(Revisão: Nichole Munaro)

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