Crise de choro, tremor, desespero. Os sinais relatados por Ana*, uma técnica de enfermagem de 34 anos, passaram a acompanhar a profissional durante a rotina no hospital em que trabalha, há dois anos e meio. Entre esforço físico, condições precárias e assédio moral, Ana se viu obrigada a decidir entre sua saúde mental e a função escolhida por amor, mais de uma década atrás.
O que antes era feito com paixão, carinho e vontade, aos poucos virou desânimo por ‘querer fazer e não ter meios’. Junto aos sintomas, surgiram ainda os diagnósticos de depressão e ansiedade, que atualmente afastam a técnica de enfermagem da instituição.
Em uma escala noturna de 12×36 — 12h de trabalho por 36h de descanso —, Ana relembra que um conjunto de fatores contribuiu para sobrecarregá-la psicologicamente: piso da enfermagem, falta de material, refeitório precário e repouso improvisado. Outras questões, como manejo inadequado de pacientes e desrespeito de superiores, também foram abordadas.
“Além de ser físico, tem o mental também, que acabou, que foi se desgastando. Eu demorei muito tempo para entender que eu estava doente. Que eu adoeci. Eu relutei muito para não ter que chegar a esse ponto. Mas aí chegou o momento de eu estar lá, preparando uma medicação, e do nada me vi em crise de choro, tremor, desespero. Um desespero de eu querer ir embora. Eu não queria mais. Suador, não queria ficar mais lá, porque você sabe as coisas erradas que acontecem e ninguém é pela gente.”
Além da preocupação quanto às condições enfrentadas na rotina, ainda existe a incerteza se as contas serão pagas a tempo. Recorrente nos últimos meses, o atraso salarial torna-se mais uma entre tantas adversidades, que dessa vez ultrapassa as portas do hospital.
“Para quem é mãe solo, eu, por exemplo, sou. Para quem tem que pagar as suas contas em dia, você chegar lá e não ter. Todo mundo tem contra para pagar. Isso também mexe com a gente, porque a gente trabalhou, a gente quer receber. […] A gente já não recebe FGTS, então tem que ter cabeça. Como você vai chegar num lugar desse, feliz para trabalhar, sem material, sem estrutura, sem dinheiro?”

‘Parte mais fina da corda’
Além disso, Ana define os profissionais da saúde na instituição como ‘a parte mais fina da corda’. A mulher relembra de colegas que passam por situação semelhante à dela e, além do diagnóstico de depressão e ansiedade, também tentaram contra a própria vida.
“As duas últimas vezes, antes de eu chegar nisso aqui [atestado médico], eu tentei com a minha vida, porque eu não queria mais. E aí, eu não sabia o que tava acontecendo. Eu não sabia dizer. Eu só sabia que eu não queria ir, mas eu não tinha coragem de ir lá e falar: ‘Olha, eu não quero mais'”, relembra.
Atualmente, a técnica de enfermagem realiza acompanhamento psicológico e psiquiátrico para lidar com os diagnósticos consequentes da função. Mesmo com ajuda profissional, ela destaca que ainda não consegue passar em frente ao hospital, e voltar a trabalhar no local já não é mais uma opção.
“Voltei recentemente ao médico, a gente conversou, estou fazendo uso de três medicações diárias. Ele me perguntou, eu falei que eu não tenho vontade nenhuma. Se nada der certo, infelizmente eu vou pedir pra sair, porque eu não me vejo mais trabalhando naquele lugar. É muito triste. Era um dos meus sonhos, como de todo mundo, entrar lá, o maior hospital do Estado. Tem todas as especialidades, o conhecimento que eu adquiri lá é incrível, mas infelizmente deixa muito a desejar”, relata.
Apoio psicológico?
Conforme Ana, a instituição não promove apoio psicológico da forma que deveria. No passado, um atestado de um dia não só gerava questionamentos por parte da chefia, como chegou a lhe render uma troca inesperada de setor; dessa vez, a reação foi diferente, mas sem benefício algum à técnica de enfermagem.
“Eu não recebi nenhum apoio. Nenhum momento ninguém de lá ligou pra mim e falou assim: ‘Olha, e aí? O que houve? Tá tudo bem? Você precisa de alguma coisa?’. Por todo esse tempo, em nenhum momento. Pelo contrário, eu fui bloqueada de todos os grupos, de todas as redes sociais. E, pra mim, tá tudo bem, porque isso diz sobre eles, não sobre mim.”
Além da ausência de suporte após diagnósticos ligados à saúde mental, ela afirma que também não existe qualquer ‘prevenção’ do problema. “Eles pregam muito sobre a parte mental, que tem apoio psicológico, que ‘se quiser nós estamos aqui’. E é tudo mentira. O que eles puderem fazer pra sugar de você, eles fazem.”

Primeiro o problema, depois a (tentativa de) solução
Casos como o de Ana tornaram-se comuns entre inúmeros brasileiros. A negligência quanto à saúde psicológica de funcionários, contudo, já não deveria mais acontecer.
Desde maio de 2026, a atualização da NR-1 (Norma Regulamentadora 1) entrou em vigor com o objetivo de ampliar a obrigação das empresas regidas pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) perante o bem-estar mental dos trabalhadores. Jéssica Alves, advogada especialista em Direito do Trabalho, explica que a norma é antiga, mas o olhar para o psicológico surgiu como ‘solução’ para um problema que se tornou frequente.
“A NR-1 trata sobre a saúde do trabalhador. O que teve alteração agora é que, por conta desses aumentos de doenças relacionadas à saúde mental do trabalhador, burnout, afastamento pelo INSS, por conta de situações psicológicas, a NR-1 teve que ser alterada e acrescentou agora o risco psicossocial. É até interessante a gente fazer a análise que primeiro surgiu o problema e depois veio a solução, que é a NR-1”, explica.
Com a mudança, as empresas passam a ter a obrigação de organizar a medida no ambiente profissional. “Isso pode ser feito pelo RH da empresa, fazendo o mapeamento. Tem muitos questionários, fichas para eles irem preenchendo, até mesmo o próprio advogado, psicólogo, RH da empresa. A fiscalização vai ser pelo Ministério Público do Trabalho”, acrescenta.

Sobrecarga de mulheres
A necessidade de atenção à saúde psicológica tende a aumentar quando se trata principalmente de mulheres, que historicamente se dividem entre jornadas duplas ou triplas. Conforme Jéssica, a empresa não será responsável pela jornada de funcionárias fora do local de trabalho, mas precisa mapear a influência da pressão, do assédio e de jornadas extenuantes na função.
“A mulher, a gente leva em consideração que não é só jornada de trabalho. Ela tem jornada de trabalho e, chegando em casa, ela vai ter uma jornada doméstica também. E aí, do ponto de vista psicológico, muitas mulheres acabam sofrendo ali estresse, depressão, e isso tem que ser mapeado.”
A psicóloga clínica Carla Heloisa Domingues destaca que muitas mulheres vivem em estado de alerta e estresse contínuo. Além disso, a autocobrança contribui para que o processo de adoecimento passe despercebido — assim como relatado por Ana —, mas a mente tende a ‘cobrar a conta’ em algum momento.
“Quando falamos sobre a sobrecarga feminina, é importante entender que ela não começa quando a mulher chega do trabalho e nem termina quando ela vai embora dele. […] E, além disso, a gente vive numa cultura que valoriza muito a produtividade, o estar produtivo. […] Isso se soma às responsabilidades que muitas mulheres já carregam fora do âmbito profissional, e o resultado disso é uma rotina marcada por exaustão e essa sensação permanente de que não está sendo suficiente”, afirma.

Olhar concreto para a realidade
Com a atualização da NR-1, a sobrecarga trabalhista não só de mulheres, mas de profissionais regidos pela CLT, deve ser mapeada para promover segurança também do ponto de vista emocional. As fiscalizações quanto à adoção de medidas ocorrem pelo MPT (Ministério Público do Trabalho), que também recebe denúncias de funcionários.
A psicóloga Carla destaca, contudo, que é importante compreender que a saúde mental não se constrói apenas oferecendo apoio em momentos de sofrimento, mas é construída principalmente na organização do trabalho. Avaliar cargas, revisar processos, desenvolver lideranças, combater práticas de assédio e criar ambientes seguro para que as pessoas exponham dificuldades sem receio de julgamentos.
“As empresas, se elas realmente desejam cuidar da saúde mental, elas precisam olhar para essa realidade de uma forma bem concreta, porque não se trata só de oferecer alguns privilégios ou algumas melhorias, mas também de reconhecer contextos diferentes e criar condições para que as pessoas possam trabalhar de uma forma saudável e sustentável ao longo do tempo”.
*Nome fictício utilizado para preservar a identidade da fonte.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)






