Clínica de hemodiálise foi alertada sobre infecção 2 anos antes da morte de paciente Pular para o conteúdo
Cotidiano

Clínica de hemodiálise foi alertada sobre infecção 2 anos antes da morte de paciente

Os filtros da máquina de hemodiálise eram reutilizados apenas em pacientes atendidos pelo SUS
Murilo Medeiros -
Paciente durante procedimento em clínica particular de Campo Grande. (Foto: Fala Povo Midiamax)

Depois de uma morte e quatro internações de doentes renais crônicos que passaram mal durante hemodiálise, ex-funcionários e pacientes da clínica DaVita, localizada no bairro São Francisco, em , relatam terem avisado sobre o risco de infecção em filtros reutilizados, que arrebentavam com frequência, além de suposta falta de higiene em máquinas.

Os capilares — ou seja, os filtros da hemodiálise, responsáveis por ‘substituir’ parte da função renal — eram reutilizados apenas em pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde) na clínica. Após a morte, os capilares passaram a ser de uso único.

Há dois anos, uma pessoa alertou a clínica Davita sobre o assunto, em avaliação no Google. “Penso que precisam se preocupar mais com o risco de infecções, lavagens de capilares, desinfecção no local da fístula. Estão ocorrendo sempre infecções em corrente sanguínea, por favor, vejam isso mais de perto”, escreveu.

Treze pacientes passaram mal e dois teriam sido intubados na Santa Casa após passarem mal na clínica, segundo relatos de pacientes. O mal súbito ocorreu durante o procedimento realizado no dia 27 de março. A Vigilância Sanitária Estadual visitou a clínica na manhã desta quinta-feira (7) e deve apurar o caso. 

‘Máquinas sujas de sangue’

Uma mulher, que trabalhou até março de 2026 na DaVita, diz que tinha livre acesso às salas de hemodiálise e que já havia questionado enfermeiros sobre a reutilização de filtros. “Falaram que não era correto, mas que estavam ali para cumprir ordens da diretoria”, relata ao Jornal Midiamax.

Segundo ela, os capilares arrebentavam constantemente. “Vi pacientes passando mal e uma senhora precisou ser reanimada. Eu até achei que ela iria falecer ali na minha frente”, diz a ex-funcionária. O rompimento, segundo pacientes informaram à reportagem, gera transtornos e atrapalha o tratamento.

Outra ex-funcionária contou ao Jornal Midiamax que via “falhas graves” na clínica. “Máquinas sujas de sangue de um dia para o outro, caixas de Descarpack [para descarte de material contaminado] lotadas de sexta até domingo”, detalha a mulher. Ela diz que os responsáveis técnicos não inspecionam os capilares no reuso.

Ex-funcionários também relatam que atrasos no salário eram comuns, além de sobrecarga de trabalho. “Somos obrigados a atender sete a oito pacientes, sendo que o correto é quatro para cada técnico de enfermagem.”

Abaixo-assinado de 88 pacientes

O Jornal Midiamax obteve acesso a um abaixo-assinado entregue à diretoria da DaVita em 18 de fevereiro de 2025. O documento foi produzido por uma das pacientes atendidas na unidade de saúde e conta com 88 assinaturas.

São 15 demandas e, segundo informações apuradas pela reportagem, nem todas foram atendidas até o momento. O abaixo-assinado cita problemas como recorrente falta de medicação, demora na prescrição, falta de técnicos de enfermagem e equipe defasada.

Segundo os signatários, o trabalho de assistência social é lento. Além disso, nutricionista e psicólogo não passavam nas salas de hemodiálise. Eles também citam que pacientes ficam sem dialisar por falta de máquinas, além de haver demora no retorno de exames periódicos.

Os pacientes também reclamam da proibição do uso do refeitório, da geladeira e do micro-ondas. Segundo o documento, o lanche servido na clínica era apenas um pão com mussarela, bolo, chá ou suco artificial.

Segunda maior clínica de hemodiálise do SUS em MS

A clínica DaVita, no bairro São Francisco, em Campo Grande, é a segunda maior de Mato Grosso do Sul em atendimentos pelo SUS (Sistema Único de Saúde), conforme publicação no Diário Oficial do Estado, em junho de 2025. A unidade possui 57 aparelhos de hemodiálise, com uso exclusivo do sistema público.

A segunda unidade da DaVita, na Rua Antônio Maria Coelho, é a terceira maior. Esta clínica destina 50 aparelhos de hemodiálise para o SUS e outros 14 para os pacientes privados.

Inclusive, pacientes do interior de Mato Grosso do Sul são atendidos nessas unidades de saúde. Outra publicação expõe que, além de moradores da Capital, pessoas de outras 16 cidades do Estado são encaminhadas para hemodiálise na DaVita.

O Diário Oficial também mostra que a DaVita é conveniada a receber incentivo financeiro do Estado para a Atenção Especializada em Doença Renal Crônica, o que inclui custeio das sessões de hemodiálise e ampliação do acesso à diálise peritoneal para pacientes crônicos no SUS.

O que diz a clínica?

Em nota enviada ao Jornal Midiamax, a clínica informa que apura e acompanha os fatos relatados por pacientes da unidade de Campo Grande na última semana. Confira o posicionamento na íntegra:

“Em todos os casos a Clínica tem prestado a devida assistência, com ações e monitoramento dos cuidados prestados aos seus pacientes.

Com relação ao uso das instalações internas, esclarecemos que há um processo de revisão de fluxos para melhor atendimento e segurança de nossos pacientes e colaboradores, sem qualquer prejuízo à qualidade do tratamento oferecido.

Reforçamos nosso compromisso com a segurança, a qualidade do atendimento e o cuidado prestado em nossas unidades.”

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(Revisão: Nichole Munaro)

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