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Cotidiano

Descendentes de japoneses em Campo Grande dividem raízes, mas torcem pelo Brasil contra o Japão

Comunidade nipo-brasileira relembra a imigração, preserva tradições centenárias e reforça que o coração, nesta segunda-feira, estará do lado da Seleção Brasileira
Osvaldo Sato, Aline Machado -

Quando Brasil e Japão entrarem em campo nesta segunda-feira (29) pelas fase 16 avos de final da Copa do Mundo de 2026, o confronto colocará frente a frente dois países cujas histórias se cruzam há mais de um século. Em , cidade que abriga uma das mais tradicionais comunidades nipo-brasileiras do país, a partida desperta sentimentos divididos entre as raízes familiares e a identidade construída no Brasil.

A relação começou oficialmente em 1908, com a chegada do navio Kasato Maru ao porto de Santos. Vieram trabalhadores em busca de oportunidades, em um Japão marcado por dificuldades econômicas. Mais tarde, muitos desses imigrantes e seus descendentes ajudariam a desenvolver a agricultura, o comércio e diversos setores da economia brasileira. Décadas depois, o movimento se inverteria, com milhares de brasileiros descendentes migrando ao Japão como dekasseguis.

Em Mato Grosso do Sul, a história teve início poucos anos depois, a partir de 1914. Grande parte dos primeiros imigrantes era originária da província de Okinawa, que hoje continua sendo uma das principais referências culturais da comunidade japonesa no Estado. Atualmente, Mato Grosso do Sul concentra a terceira maior população de descendentes de japoneses do Brasil, tendo Campo Grande como principal polo.

Na Capital, a preservação dessa herança passa principalmente por duas entidades: a Associação Okinawa de Campo Grande e a Associação Esportiva e Cultural Nipo-Brasileira de Campo Grande (AECNB). Juntas, elas mantêm vivas tradições, esportes, festividades e costumes transmitidos de geração em geração.

Na Associação Okinawa, a presidente do departamento feminino, o Fujinkai, Dirce Kimié Genka, de 82 anos, representa bem esse encontro entre duas culturas. Filha de japoneses, nasceu no Brasil e cresceu ouvindo as histórias da imigração da família.

Segundo ela, seus pais deixaram Okinawa em busca de melhores condições de vida, seguindo um movimento comum no início do século passado. “Naquela época, o Japão enfrentava dificuldades econômicas. Assim como hoje muitos brasileiros vão para o exterior trabalhar, antigamente acontecia o contrário: os japoneses vinham para o Brasil em busca de uma vida melhor”, conta.

O avô de Dirce já estava em Campo Grande quando seu pai decidiu emigrar. Casado, veio ao encontro do pai para construir estabilidade financeira e acabou criando raízes definitivas no Brasil.

Ao longo da vida, Dirce visitou Okinawa doze vezes para rever um dos irmãos, que mora na província até hoje. Apesar da forte ligação com a terra dos pais, ela diz que sua identidade foi construída entre os dois países. “Eu nasci aqui. Tenho sangue japonês, mas meu coração também é brasileiro”, confessa.

Ela lembra que, desde os primeiros anos da comunidade japonesa em Campo Grande, as famílias mantinham uma convivência intensa. Ao longo das décadas, os laços da colônia foram promovidos por meio do esporte, da cultura e da educação.

Mais do que a língua ou a culinária, Dirce afirma que o principal legado deixado pelos antepassados foi a cultura. “São valores que passam de geração em geração. Está tudo muito enraizado na gente”, disse.

Na hora do futebol, porém, a preferência é clara. “Primeiro eu torço para o Brasil. Se o Brasil perder, aí sim passo a torcer pelo Japão.”

(Fotos: Madu Livramento, Midiamax)

Coração brasileiro

Quem também não esconde a preferência é Bernardo Tibana, de 76 anos, ex-presidente da Associação Esportiva e Cultural Nipo-Brasileira de Campo Grande. Nascido e criado no Brasil, ele acredita em uma vitória convincente da Seleção. “Se for para apostar, eu digo 3 a 0 para o Brasil.”

Curiosamente, Bernardo concedeu a entrevista usando uma camisa da seleção japonesa. A explicação vem logo em seguida. “É uma homenagem às minhas origens. Mas não tem jeito. Meu coração é brasileiro”, afirmou.

Para ele, o crescimento recente do futebol japonês tem forte influência brasileira. Tibana lembra que a chegada de Zico ao Japão, no início da década de 1990, foi determinante para o desenvolvimento da modalidade no país.

“O Japão evoluiu muito nos últimos 20 ou 30 anos. Eles se dedicam muito a tudo o que fazem e, no esporte, isso também aconteceu. Mas eu continuo acreditando que o Brasil tem o melhor futebol”, acredita.

(Fotos: Madu Livramento, Midiamax)

Nova geração

Representando uma geração mais jovem, Lucas Miyahira, de 25 anos, tataraneto de japoneses, também acredita que a Seleção Brasileira levará a melhor, embora reconheça o crescimento da equipe asiática. “O Japão evoluiu bastante e vem mostrando um futebol muito forte. Mas acho que desta vez o Brasil vai levar a melhor”, acredita o jovem.

Para Lucas, preservar a cultura dos antepassados é uma forma de reconhecer a importância dos imigrantes que ajudaram a construir Mato Grosso do Sul. “Eles vieram primeiro para trabalhar na construção da ferrovia. Depois foram para as lavouras de café, para o hortifrúti e, hoje, os descendentes estão espalhados em praticamente todos os setores da economia”, relata.

(Fotos: Madu Livramento, Midiamax)

História

Segundo a Associação Okinawa, a entidade foi fundada em 1922 pelos primeiros imigrantes oriundos da província de Okinawa que se estabeleceram em Campo Grande. Antes mesmo da construção da atual sede, inaugurada na década de 1960, as famílias já se reuniam nas próprias casas para preservar tradições, celebrar festas típicas e fortalecer os vínculos comunitários. Hoje, cerca de 200 famílias fazem parte da associação.

Ao longo de mais de um século, Brasil e Japão construíram uma relação marcada por trocas culturais. Artes marciais como judô e karatê ganharam milhões de praticantes em território brasileiro, enquanto nomes como Ayrton Senna conquistaram enorme admiração entre os japoneses. No futebol, poucos simbolizam essa conexão como Zico, ídolo tanto no Brasil quanto no Japão, onde ajudou a impulsionar o crescimento da modalidade.

Na segunda-feira, porém, toda essa história ficará em segundo plano por 90 minutos. Entre sobrenomes japoneses, tradições preservadas e memórias da terra dos antepassados, a torcida da comunidade nipo-brasileira de Campo Grande tem lado definido.

As raízes continuam no Japão. Mas, quando a bola rolar, o coração estará vestido de verde e amarelo.

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