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Cotidiano

‘Doloroso’: crianças com cardiopatia têm de sair de MS após fechamento de setor na Santa Casa

Cardiopatia congênita é a terceira maior causa de morte de recém-nascidos no Brasil
Murilo Medeiros -
Hospital, Santa Casa,
Corredor da Santa Casa de Campo Grande. (Madu Livramento, Jornal Midiamax)

Em mais um capítulo da crise histórica da Santa Casa de , que levou até a presidente à cadeia, o hospital agora fecha o setor de cirurgia cardíaca pediátrica. A partir desta quarta-feira (7), famílias sul-mato-grossenses de bebês e crianças com cardiopatia congênita precisam procurar atendimento longe de casa, em outro estado.

“É doloroso”, resume Marcelo Santana Silveira, presidente do Sinmed-MS (Sindicato dos Médicos de MS). “São pacientes que sofrem com a doença desde muito cedo e, agora, têm de ir embora de casa para se tratarem em outro local. É doloroso estar doente e ter que ir para outros estados, tanto para a família quanto para o paciente”, completa.

A Santa Casa era o único centro de referência do SUS (Sistema Único de Saúde) para atendimento de crianças com cardiopatia congênita em Mato Grosso do Sul. O fechamento ocorreu após demissão em massa de médicos com salário atrasado. Pacientes internados já foram transferidos para hospitais em e no Paraná.

Quem já sentiu na pele o que é ter filho com a condição também lamenta o fechamento. “Estamos falando de aproximadamente 350 crianças que nascem ao ano no Estado com cardiopatia congênita, e estudos mostram que mais de 80% necessitam de cirurgia, principalmente no primeiro ano de vida”, diz a enfermeira Gabrielle Montalvão.

Terceira maior causa de morte neonatal

A cada mil crianças que nascem no Brasil, dez têm alguma cardiopatia congênita — uma má formação no coração, ocorrida durante o desenvolvimento na gestação. Essas má-formações são a terceira maior causa de morte neonatal no Brasil, mas muitas podem ser evitadas se a condição for diagnosticada preventivamente.

Cerca de 30 mil bebês nascem assim por ano no Brasil, e 40% deles precisam de cirurgia no primeiro ano de vida. Bebês doentes podem apresentar sintomas como cianose (coloração azulada nos lábios, mãos ou pés), sudorese intensa mesmo em repouso, palidez durante o choro, respiração acelerada, cansaço e dificuldade para ganhar peso.

“Se, durante a gestação, for feito o ecocardiograma fetal e diagnosticada uma cardiopatia congênita, é importante que a equipe obstétrica já oriente essa mãe para que ela tenha o bebê em um hospital que tenha condições de recebê-los”, diz a médica Isabela Rangel, em entrevista à Agência Brasil.

‘Abre uma lacuna enorme’, lamenta mãe de cardiopata

Gabrielle Montalvão criou o Instituto Um Só Coração depois que o filho dela, o pequeno Caleb, morreu na Santa Casa de Campo Grande em 2023, aos três meses, com cardiopatia congênita. Enfermeira, ela se dedica a acolher e orientar famílias em situações semelhantes.

Gabrielle Montalvão, mãe do bebê Caleb. (Pietra Dorneles, Jornal Midiamax)

Caleb foi diagnosticado ainda no útero e levado à Santa Casa com falta de ar no dia 9 de maio de 2023. O bebê sofreu oito paradas cardíacas antes de morrer, no dia 11 de maio. Desses três dias, o cardiopediatra demorou quase 48 horas para avaliar a criança, enquanto a mãe pedia a presença de especialistas e implorava por uma cirurgia.

Apesar de ter críticas às condutas adotadas pelo serviço, Gabrielle defende que ele seja readequado para que uma equipe estruturada assuma o atendimento das crianças pelo SUS. Ela teme que crianças morram aguardando procedimentos ou cirurgias de urgência no Estado.

“O fechamento abre uma lacuna enorme em relação ao transporte, visto que muitas de nossas crianças permanecem internadas desde o nascimento até a realização da cirurgia, e algumas necessitam de UTI aérea para essa transferência”, destaca a enfermeira.

‘Vamos retroceder?’, questiona Sindicato dos Médicos

O presidente do Sinmed lembra que o serviço é de alta complexidade e demanda materiais e insumos caros. Dessa forma, é necessário que a equipe médica e de enfermagem seja altamente capacitada para o pré e o pós-operatório, além da cirurgia em si. “Pacientes pediátricos normalmente têm patologias muito graves”, afirma Marcelo Santana.

“Se avaliar toda a estrutura de atendimento ao redor dessa especialidade, é tudo muito complexo e delicado. Então, tem que ter um investimento e um gerenciamento do recurso de forma adequada”, explica. Por ser um hospital de alta complexidade, o médico acredita que a Santa Casa tem o “perfil adequado para atender esse tipo de paciente”.

Por fim, o presidente do Sindicato dos Médicos avalia que o fechamento deste centro de referência representa um prejuízo a Mato Grosso do Sul. “Nosso Estado é uma promessa de crescimento no Brasil, desponta como um dos principais motores do país. Mas, em vez de avançar e ganhar mais serviços, vamos retroceder?”, questiona Santana.

‘Problema não é só da Santa Casa’, defende o hospital

A diretora clínica da Santa Casa, Izabela Falcão, também lamenta que Mato Grosso do Sul tenha perdido o único centro gratuito para esse tipo de atendimento e espera uma solução. “É uma grande perda para o Estado, mas os secretários de Saúde e o Ministério Público estão trabalhando arduamente para tentar reverter essa situação”, revela.

O cirurgião Luiz Alberto Kanamura, novo diretor-presidente da Santa Casa, justifica que o hospital não tem mais condições de manter esse atendimento. “É um problema que não é só da Santa Casa, é dos gestores estaduais, municipais e federais. Então, a decisão tem que ser pactuada em todos os níveis”, opina.

A enfermeira Gabrielle Montalvão relembra que a garantia de acesso à saúde é dever do Estado e direito de todos os cidadãos. “As crianças sul-mato-grossenses merecem atendimento integral, qualificado e oportuno, como qualquer outra criança brasileira”, diz a criadora do Instituto Um Só Coração.

“Nossas crianças não podem novamente sofrer as consequências de uma estrutura de serviço falha e omissa, como vêm sofrendo há tantos anos. Sinto que, em vez de melhorar, estamos novamente colocando nossas crianças em uma situação injusta, sendo elas que sentem essas consequências na pele”, conclui Montalvão.

O que dizem as secretarias?

A Santa Casa diz que “os órgãos competentes serão avisados, como o Ministério da Saúde e os gestores públicos também, tanto municipais quanto estaduais, e o Ministério Público”.

O Jornal Midiamax perguntou à SES-MS (Secretaria Estadual de Saúde de MS), à Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) e ao Ministério da Saúde se essas pastas estudam medidas para a reabertura do setor de cardiopediatria e se haverá apoio às famílias de crianças transferidas.

A Sesau informa que “não houve, por parte do Município, qualquer decisão de retirar a cirurgia cardíaca congênita das discussões do contrato relacionadas à assistência pelo SUS. A Sesau participou, inclusive, de uma discussão realizada no âmbito do Ministério Público, com a equipe responsável pela cirurgia cardíaca, ocasião em que foi manifestada a disponibilidade para a manutenção do serviço, desde que asseguradas as condições estruturais do hospital necessárias para sua continuidade. A Secretaria ressalta que a organização e a disponibilização da estrutura necessária para a realização dos procedimentos também envolvem a unidade hospitalar responsável pelo atendimento. Dessa forma, as tratativas seguem em andamento, com o objetivo de garantir a continuidade da assistência às crianças que necessitam desse tipo de procedimento, evitando qualquer desassistência. A Sesau permanece acompanhando a situação e participando das discussões necessárias para a manutenção da oferta do serviço pelo SUS em Campo Grande”.

Não houve resposta das outras pastas até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto.

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(Revisão: Nichole Munaro)

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