Licitação da Fiems (Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul) marcada para quinta-feira (8) estaria direcionada para empresa supostamente ligada a Sérgio Longen, presidente da entidade e diretor da CNI (Confederação Nacional das Indústrias).
A informação consta em denúncia enviada ao MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul). O procedimento licitatório foi lançado no dia 30 de setembro, com previsão de investir cerca de R$ 20 milhões na aquisição de uma usina de geração solar, que já estaria construída e em funcionamento, como carta marcada.
A vencedora seria a Usina San Vito Solar (CNPJ 53.326.173/0001-60), administrada pela A. P. Gestão Empresarial (CNPJ 66.847.379/0001-88), controlada por Alessia Parisi.
O documento que está sob análise do MP, enviado por denúncia anônima, afirma que tudo teria sido acertado entre Longen e a Parisi S.A., com nome fantasia de MS Energy (CNPJ 08.075.240/0001-67), do empresário Massimo Parisi, desde janeiro de 2026.
Conforme apurado pela reportagem, Massimo fundou a San Vito em dezembro de 2023, com investimento de R$ 8.422.034,00. Mas, em abril de 2026, passou por quatro CNPJs, inclusive da Usina San Vito, que tem como sócia a AP Gestão Patrimonial e Empresarial Ltda.
A denúncia diz que a manobra está relacionada com a venda da usina para a Fiems, já que a principal empresa de Massimo, a Parisi S.A., entrou com pedido de recuperação judicial em fevereiro deste ano.
O denunciante afirma ao MP que teria ouvido conversas entre Massimo e Longen “discutindo divisão de valores oriundos do faturamento da MS ENERGY, o que me causou estranheza, visto que não estão no contrato social do grupo”.

Vale ressaltar que a Fiems recebe recursos parafiscais, de natureza pública, transferidos da Receita Federal, que devem alcançar os R$ 60 milhões somente este ano.
A CGU (Controladoria-Geral da União) já adiantou que pode incluir denúncias de suspeitas de fraudes em licitações de tecnologia, denunciadas recentemente pelo Jornal Midiamax, na próxima auditoria sobre o Sistema S em Mato Grosso do Sul.
Suspeita de direcionamento
O que o MP deve começar a apurar é a indicação de que o edital da Fiems teria sido elaborado por um engenheiro da MS Energy para incluir especificações técnicas que impeçam outras empresas de vencerem a disputa e garantam a vitória da San Vito.
Conforme especialistas consultados pela reportagem, o edital da Fiems traz especificações técnicas com detalhes bem particulares, como potência mínima de 600 Wp por módulo, que é suficiente para eliminar outras usinas do mesmo porte.
Entre outros projetos executados pela MS Energy, a Usina Flor do Campo, em Anastácio, por exemplo, tem módulos de 575 W e não seria compatível com as exigências da Fiems. A San Vito utiliza módulos de 695 W.
A relação entre a potência dos inversores e a dos módulos, chamada FDI, também coincide. Na San Vito 6, o índice é de aproximadamente 0,694, enquanto o edital estabelecia uma faixa entre 0,667 e 0,80.
Segundo a MS Energy, a usina tem 5.186 módulos Risen de 695 W, totalizando cerca de 3,6 MWp, e dez inversores Huawei de 250 kW, somando 2,5 MW em corrente alternada. Esses números estão dentro das faixas previstas no edital, que exigia entre 2,8 e 3,8 MWp e entre 2,1 e 3 MW em corrente alternada.
Assim, nos principais parâmetros técnicos que podem ser comparados com as informações públicas, há uma clara coincidência entre a San Vito 6 e o que foi estabelecido no edital. Tudo deverá ser apurado pelas autoridades de fiscalização.
Ligação com a Fiems

A MS Energy já executou um projeto milionário da Fiems para construção de uma usina de geração de energia solar localizada no Clube de Campo do Sesi, em Campo Grande.
Em maio de 2023, a Fiems informou em seu site institucional que estava concluindo as obras de um complexo de usinas fotovoltaicas, com capacidade para produzir até 3,4 MWp de energia e investimento total de R$ 25 milhões.
A meta da entidade, conforme o comunicado, era produzir um total de 10 MWp com essas duas unidades.
Na documentação apresentada pela própria empresa à Justiça, em sua recuperação judicial, consta como cliente, com valores a receber de R$ 700 mil, o vice-presidente da Fiems, Luiz Gonzaga Crosara Júnior.
Crosara aparece como administrador do CNPJ criado pela Fiems para o Em Conta Energia Renovável (32.050.357/0001-70), programa da entidade para vender energia solar gerada por usinas pertencentes ao programa para consumidores.
Também teria valores a receber — de R$ 217 mil — a Alira Empreendimentos e Participações Ltda. (CNPJ 48.411.366/0001-80), que detém parte da Usina Flor do Campo, em Anastácio, e tem como controlador Jaime Verruck, ex-diretor da Fiems.
Empresa ‘afundada’ em dívidas
Conforme as informações extraídas da denúncia, a mudança de controlador da San Vito seria uma manobra para esvaziar a cobrança de credores na recuperação judicial.
A reportagem confirmou, através de documentação pública, que Alessia Parisi assumiu, entre abril e julho de 2026, cinco CNPJs que eram controlados pelo pai. Um deles é o da Usina San Vito.
A documentação disponibilizada pelo sistema do TJMS referente ao pedido de recuperação judicial do grupo MS Energy revela que a dívida assumida pela empresa é de R$ 56,92 milhões.
No pedido, a empresa demonstra preocupação de que os bancos comecem a executar o patrimônio pessoal de Massimo.
A denúncia conecta a situação financeira da empresa com o acordo feito com Longen e com a ‘venda’ de empresas para a holding controlada pela filha, a fim de preservar o patrimônio pessoal.
A reportagem procurou a MS Energy para se manifestar diante da denúncia. Entramos em contato por telefone e fomos informados de que uma pessoa entraria em contato, o que não ocorreu até a publicação desta matéria. Também fizemos os questionamentos por meio do WhatsApp oficial, bem como através de e-mails cadastrados na Receita Federal e pelos perfis nas redes sociais.
O Jornal Midiamax também procurou a AP Gestão Patrimonial e a Parisi S.A., mas não obteve retorno.
Também procuramos a Fiems, através de e-mails institucionais, devidamente registrados, bem como a assessoria jurídica da entidade para obtermos posicionamento sobre a denúncia. No entanto, não houve resposta.
A reportagem procurou Crosara para comentar a relação com a MS Energy e se não haveria um possível conflito de interesse, caso houvesse a participação da MS Energy ou de empresas ligadas ao empresário Massimo Parisi na licitação, além de esclarecer se ele teve alguma participação na elaboração do edital. Não obteve retorno.
Também buscamos Jaime Verruck, ex-secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação, sobre a ligação dele e da Alira com a MS Energy. Da mesma forma, não recebemos resposta.
Vale ressaltar que o espaço segue aberto para manifestações e o texto será atualizado assim que houver retornos.
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(Revisão: Nichole Munaro)









