A professora de Geografia Jordane Pontes leciona para o ensino médio e, recentemente, viveu um desafio bastante conhecido para quem lida com adolescentes: despertar o interesse de estudantes em atividades educativas. Para alcançar o objetivo ao trabalhar o tema da violência contra a mulher, decidiu envolvê-los na elaboração de vídeo para as redes sociais.
“A professora passou o roteiro pra gente e eu falei: ‘Pessoal, a gente tem que gravar, porque a nossa sala tem o Instagram e a gente grava muito’. A gente ama gravar”, conta, animada, a estudante Beatriz de Oliveira Marques, de 17 anos.
Na turma dela, o grupo que mais se interessou em participar do projeto foram os meninos. “E daí eu falei: ‘É, vocês que têm que participar mesmo, porque vocês têm que mostrar pra outros homens o que vocês têm que fazer de certo’”, completa a aluna.
A iniciativa faz parte de uma atividade aplicada anualmente na escola CEEP (Centro de Educação Profissional) Profª Maria de Lourdes Widal Roma, localizada nas Moreninhas, que oferece ensino médio com formação técnica desde 2011. A escola soma 1.100 alunos de ensino médio.
“Nós trabalhamos o tema violência contra a mulher todos os anos. No ano passado teve o projeto, mas nesse ano eu percebi que os alunos não se interessaram o suficiente. As alunas têm muitas informações sobre as formas de violência, sobre assédio; já os meninos, nem tanto. Então esse ano eu resolvi fazer diferente, joguei na mão deles a responsabilidade”, detalha a professora.
Assim, os estudantes precisaram “correr atrás”, construindo o conteúdo para o projeto. “Eles assistiram às aulas, a uma palestra com o pessoal da Defensoria da Mulher, e aí tiveram que produzir um vídeo. As informações partiram deles, eles coletaram as informações e fizeram o vídeo, e aí deu super certo, porque eles se interessaram, tanto os meninos quanto as meninas”, completa a educadora.
Realização e envolvimento
E a adesão ocorreu mesmo. Para Beatriz, produzir o vídeo foi uma forma de usar as redes sociais para o bem.
“Nossa, eu faria mais mil desse [vídeo] pra postar em qualquer tipo de lugar. É muito importante a gente divulgar na internet, porque a gente vive à base da rede social. Então a gente precisa estar divulgando essas coisas boas. A rede social dá voz, né? Ainda mais pra gente, que é adolescente. A gente vive no celular, a gente ama fazer essas coisas. TikTok tá aí pra isso”, avalia, motivada, a estudante.
O diretor da escola, Wilson da Rocha Rodrigues, destaca a importância de aproximar temas relevantes dos alunos.
“É inadmissível a gente ver uma quantidade gigantesca de mulheres perdendo a vida e sendo agredidas dentro de suas casas, dentro do ambiente de trabalho, na própria comunidade. E essa é uma realidade que a gente está vivendo no dia a dia. Então não basta somente lá fora discutir, é preciso que a escola chame os estudantes para falar disso, para discutir isso”, frisa o diretor.
“Hoje nós estamos com adolescentes, e esses adolescentes amanhã serão os pais, serão as mães, as famílias. Eles que vão estar chefiando. A gente pensa que agora é momento de se discutir o papel da mulher na sociedade; que ela precisa ser respeitada, que esse respeito tem que partir de todos. E a escola é o caminho”, afirma Wilson.
A professora Jordane reforça essa ideia. “Eu acredito que a educação é a melhor forma de conscientizar. É necessário falar sobre violência, é necessário ter informação. Eu sempre falo para os alunos: a informação quebra o ciclo da violência. Se você tem informação, se você sabe o que é violência, você tem armas para lutar contra. Então é de extrema importância que os alunos conheçam, que os alunos participem, divulguem as formas de violência contra a mulher”, pontua. “E a Geografia tem tudo a ver com isso, já que essa área do conhecimento estuda a sociedade e os movimentos da população.”
De olho no futuro

“Mato Grosso do Sul é o 3º estado em morte de mulheres por formas de violência no Brasil, e é muito importante que, dentro do Estado, a gente tenha essa consciência, porque é um índice muito alto. Nós tivemos 12 feminicídios em Mato Grosso do Sul até esse mês; são duas mulheres por mês que morreram esse ano. Não seria necessário ter essa contagem de mortes de mulheres se existisse a conscientização das pessoas a respeito disso. A educação, inclusive dentro da Geografia, é necessária para que essas mortes diminuam”, diz Jordane.
“No nosso projeto, o objetivo era esse, que, de alguma forma, direta ou indiretamente, a gente consiga reduzir o número de mortes de mulheres no Estado”, complementa a educadora.
A estudante Geovana Souza, de 16 anos, que também participou do projeto, destacou essa atualidade do tema. “Eu achei importante o projeto, porque é um tema que acontece no dia a dia, ainda mais em Mato Grosso do Sul, que tem um número alarmante [de feminicídios]. A gente tem que se conscientizar desde o começo, ainda mais a gente sendo do terceiro ano, que está a um pé da vida adulta. A gente tem que se conscientizar dessa questão da violência contra a mulher e saber como ajudar. Não é só se você está sofrendo, mas como ajudar, onde denunciar e como acolher a mulher que está sofrendo”, argumenta.
Além do vídeo, as turmas participaram de uma palestra com o Nudem (Núcleo de Defesa das Mulheres), da Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul. Quem fez a “ponte” para que isso acontecesse foi um dos alunos do terceiro ano, Renato Gabriel Trindade, de 18 anos, que fez estágio no núcleo.
Assim, a oportunidade também foi estendida às turmas de 1º e 2º anos. “Quanto antes começar a conscientização, melhor para todos nós, né? Para termos um lugar mais seguro para viver”, finaliza a professora.
O vídeo produzido foi publicado nos perfis das três turmas matutinas do ensino médio do CEEP Profª Maria de Lourdes Widal Roma no Instagram: @3rao_juridico, @3terceirob.www e @3a_ceep.widal, além do TikTok.
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(Revisão: Nichole Munaro)







