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Cotidiano

De entregadores à enfermagem em MS: recorde de atestados obriga proteção mental das equipes

Nova versão da NR-1 obriga empregadores a identificar e prevenir riscos psicossociais, como estresse, assédio e burnout
Osvaldo Sato -
De entregadores à enfermagem em MS: recorde de atestados obriga proteção mental das equipes
Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais e comportamentais (Imagem ilustrativa, gerada com IA)

A saúde mental dos trabalhadores passou a ocupar um espaço definitivo nas políticas de segurança do trabalho no Brasil. Com a atualização da NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1), que entrou em vigor neste ano após período de adaptação, empresas e órgãos públicos com empregados regidos pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) passaram a ser obrigados a incluir os riscos psicossociais no GRO (Gerenciamento de Riscos Ocupacionais).

Na prática, a mudança exige que empregadores identifiquem, avaliem e adotem medidas para reduzir fatores que possam provocar adoecimento mental, como excesso de pressão, jornadas prolongadas, assédio moral, metas abusivas, conflitos organizacionais e sobrecarga de trabalho.

A exigência integra o GRO, sistema obrigatório de gestão de saúde e segurança do trabalho previsto pela NR-1. Por meio dele, as organizações precisam elaborar o PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos), com inventário dos perigos existentes e plano de ação para prevenção.

A atualização ocorre em um momento de alerta nacional. Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais e comportamentais, o maior número da série histórica, segundo dados da Previdência Social.

Enfermagem convive com alta carga emocional

Na área da saúde, a realidade não é diferente. Dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho, elaborado com informações do INSS, mostram que técnicos, auxiliares e enfermeiros estão entre as categorias com maior número de afastamentos por transtornos mentais.

Entre 2012 e 2024, foram registradas 70.701 licenças de profissionais da enfermagem por motivos relacionados à saúde mental.

Para a vice-presidente do Siems (Sindicato dos Trabalhadores na Área de Enfermagem de Mato Grosso do Sul), Helena Delgado, a inclusão dos riscos psicossociais na NR-1 representa um avanço importante.

“A atualização reconhece que os riscos psicossociais impactam diretamente a saúde do trabalhador. Na enfermagem, falamos de profissionais que convivem diariamente com situações de alta responsabilidade, sofrimento humano, dor, morte, sobrecarga por déficit de pessoal e pressão constante por uma assistência de qualidade”, afirma.

Segundo ela, hospitais, unidades de urgência, postos de saúde e instituições de longa permanência estão entre os ambientes onde o desgaste emocional é mais intenso.

“Muitas vezes, o profissional precisa tomar decisões rápidas, lidar com conflitos, atender um grande número de pacientes e, ao mesmo tempo, garantir a segurança da assistência”, explica.

Para a dirigente sindical, a nova exigência pode ajudar a enfrentar problemas como ansiedade, estresse crônico e síndrome de burnout.

“Mais do que cumprir uma obrigação legal, é uma oportunidade para que as instituições revejam processos de trabalho, dimensionamento de equipes, condições laborais e mecanismos de apoio aos trabalhadores. Cuidar da saúde mental dos profissionais também significa oferecer uma assistência mais segura para a população”, afirma.

Pressão constante sobre duas rodas

Entre os profissionais expostos a situações de tensão diária estão os motoentregadores. Além dos riscos físicos do trânsito, a categoria convive com cobranças por rapidez, atrasos nos pedidos e pressão de clientes e estabelecimentos.

Motoentregador em há 12 anos, Edimar Oliveira Peres de Souza afirma que a pressão sempre fez parte da profissão, mas continua sendo um fator que afeta o comportamento dos trabalhadores.

“A gente sempre trabalha correndo contra o tempo. Muitas vezes, a entrega já sai atrasada do estabelecimento e o cliente quer receber imediatamente. Isso gera frustração e acaba aumentando o risco, porque o trabalhador sente que precisa acelerar mais para compensar o atraso”, relata.

Segundo ele, o estresse também interfere na atenção durante o trabalho. “Afeta o pensamento. A pessoa fica focada em chegar rápido e isso pode comprometer a concentração necessária para enfrentar um trânsito que já é complicado por si só”, afirma.

Edimar Oliveira Peres de Souza é motoentregador há 12 anos. (Foto: Arquivo pessoal)

Professores entre os mais afetados

A pressão psicológica também faz parte da rotina dos professores. Além da sobrecarga de trabalho, especialistas apontam fatores como violência escolar, cobrança por resultados, falta de estrutura e desgaste emocional acumulado.

Dados do Ministério da Previdência Social mostram que 65.123 professores da rede pública foram afastados por problemas de saúde mental em 2025.

Levantamento do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) aponta que 62% dos docentes da educação básica relataram sintomas frequentes de estresse, ansiedade ou depressão entre 2022 e 2023. Já pesquisa do Instituto Península identificou que 84% dos professores se sentem emocionalmente exaustos.

Estudos apresentados pela Fundacentro também mostram que o burnout, os transtornos de ansiedade e até o estresse pós-traumático decorrente de situações de violência estão entre os problemas mais frequentes na categoria.

Adoecimento mental no trabalho

Não são apenas estas profissões, porém, que acumulam números de adoecimento mental entre seus trabalhadores. Segundo o INSS, a Previdência Social concedeu, em 2025, o total de 546.254 benefícios por transtornos mentais e comportamentais (capítulo V da Classificação Internacional de Doenças) — um crescimento de 15,66% em comparação a 2024, quando foram concedidos 472.328 benefícios.

Para isso, as duas doenças com maior quantidade de benefícios concedidos no âmbito deste capítulo foram transtornos ansiosos e episódios depressivos, tanto em 2024 quanto em 2025. Entre todas as doenças classificadas (conforme a CID-10), o aumento na concessão de benefícios por incapacidade temporária de 2024 para 2025 foi de 15,19%.

Considerando-se o sexo, a quantidade de afastamentos por transtornos mentais é maior entre as mulheres: 63,46% dos benefícios. Em 2025, dos 546.254 benefícios concedidos, 346.613 foram para mulheres e 199.641 para homens.

Em Mato Grosso do Sul, o ano de 2025 teve 9.736 benefícios concedidos por incapacidade temporária. O estado brasileiro com a maior quantidade de afastamentos segundo o capítulo V da CID-10 foi , com 149.375 benefícios concedidos. 

Mudança de cultura

Especialistas avaliam que o principal objetivo da nova NR-1 não é tratar trabalhadores já adoecidos, mas prevenir que o adoecimento aconteça.

Com a obrigatoriedade do GRO, empresas e órgãos públicos passam a ter de analisar não apenas riscos físicos, químicos ou biológicos, mas também fatores relacionados à forma como o trabalho é organizado.

A expectativa é de que a medida estimule mudanças na gestão das equipes e ajude a reduzir o avanço dos transtornos mentais relacionados ao trabalho, realidade que hoje afeta desde professores e profissionais da saúde até entregadores e trabalhadores de diversos outros setores da economia.

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(Revisão: Nichole Munaro)

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