Após o fim da Guerra do Paraguai, em 1870, a região que separava o território brasileiro das terras paraguaias se transformou. Antes habitada por povos indígenas, como os Guarani, que viviam principalmente do cultivo e consumo da erva-mate, a área deixou de ser apenas uma extensão de mata nativa e passou a assumir um papel comercial importante.
Essa mudança ganhou força em 1882, com a chegada do gaúcho Thomaz Laranjeira ao Estado, na época, Mato Grosso. Motivado por razões políticas, territoriais e econômicas, o governo imperial brasileiro permitiu que o empresário explorasse os ervais nativos da região de fronteira — na época chamados de ouro verde —, iniciando assim o ciclo econômico da erva-mate na região.

Com a ascensão da Companhia Matte Larangeira nos anos seguintes, aumentou-se naturalmente a passagem de carreteiros e viajantes que buscavam um ponto de parada e descanso. Como a demanda faz o negócio, com o tempo, pequenos estabelecimentos comerciais destinados a atender aqueles que percorriam a nova rota começaram a surgir na região de fronteira seca.
Os anos se passaram e, aos poucos, aquela via se consolidou como um importante eixo comercial da fronteira. Hoje, o trecho que compete ao Brasil se chama Rua Marechal Floriano, uma homenagem ao segundo presidente do Brasil, conhecido como o ‘Marechal de Ferro’. É esta via que se tornou o quintal de muitos ‘brasiguaios’ ao longo dos anos. É ali que os ponta-porenses construíram a principal artéria comercial da cidade e, por meio dela, constituíram suas famílias. É esta via que, até hoje, dá as boas-vindas a milhares de turistas todos os anos.

Centro de oportunidades
Seu Mauro Medeiros Marques de Abreu e sua esposa Dirce Medeiros, ambos com 68 anos, são testemunhas da solidez da Rua Marechal Floriano na ‘Princesinha dos Ervais’. Há mais de 25 anos, o casal estabeleceu sua empresa de móveis na cidade, adaptou-se às mudanças exigidas pelo tempo e segue como o ‘braço amigo’ de centenas de pessoas que decidem apostar os estudos e as carreiras na região de fronteira.
“Fui bancário por mais de 10 anos. Sou formado em Contabilidade, nós dois, na verdade. No 4º ano de faculdade, decidimos nos casar, e isso já passa de 40 e poucos anos. Quando eu comecei [o comércio] aqui em Ponta Porã, eu trabalhava no segmento de móveis novos, lá perto da autopeças, aqui na [Rua] Marechal, mesmo”, conta seu Mauro.
“Tempo depois, começaram o Assentamento Itamarati. O pessoal chegava aqui e dizia: ‘Pô, eu preciso de algumas coisas, podem ser usadas, mesmo’. Eles procuravam coisas mais em conta. E aqui na cidade, mesmo, uns chegavam e falavam que tinham um móvel novo em casa, mas que já tinham enjoado e queriam trocar por algo novo e sugeriam uma troca. Eu pegava o que eles tinham, e eles retiravam algo da loja pagando uma pequena diferença. Foi quando pensei que esse segmento dos móveis usados podia ser algo bacana.”
Na época, seu Mauro e dona Dirce não sabiam, mas a decisão de investir em móveis usados mudaria a vida da família. “Aí o que eu fiz? Aluguei um outro salão perto da loja que eu tinha, isso há mais de 20 anos, e comecei a mexer com os móveis usados também, e deu muito certo”, conta. Assim, a loja Móveis Usados Aliança se estabeleceu como o primeiro comércio deste segmento em Ponta Porã.

Reconhecer as possibilidades que a fronteira oferece
No início dos anos 2000, as grandes varejistas e atacadistas do ramo de móveis começaram a se estabelecer na cidade e, claro, afetaram o faturamento de pequenos comerciantes que atuavam exclusivamente neste ramo. Foi então que Mauro e Dirce decidiram migrar totalmente para o mercado de usados e dedicar suas energias ao setor que já vinha dando certo para a família.
“Fui eliminando todos os móveis novos. Vendi o que eu tinha e, quando o estoque acabou, decidi mexer apenas com os usados. Agora eu tô meio teimoso, mexendo com algumas camas novas, mas só elas também. Nada novo eu pego. Então, a loja veio, mesmo, de uma demanda, de uma necessidade que a gente conhecia. Aqui passa gente do assentamento, do Paraguai, de todos os lugares”, pontua.
E o que estava dando certo para o casal, a partir de 2014, melhorou. Isso porque foi neste período que os brasileiros começaram a buscar as faculdades particulares paraguaias para cursarem Medicina. Para melhor receber esses alunos — e criar um cenário competitivo com a Argentina e a Bolívia, que até então dominavam as matrículas na América do Sul —, as faculdades paraguaias começaram a adaptar suas infraestruturas para receber esse público. Assim, o número de gente interessada em ir para a região aumentou significativamente.
Com mais alunos em Ponta Porã e Pedro Juan Caballero precisando mobiliar suas casas e apartamentos por um baixo custo, a loja de móveis usados de Mauro e Dirce bombou. Desde então, os inícios de semestre são sempre os mais movimentados para os comerciantes.

“Quando nós iniciamos a loja, não tinha nenhuma faculdade e, de repente, o Paraguai virou referência no curso. Muita gente começou a vir pra cá. E aí, um traz a mãe ou traz o filho, a esposa, outro chama um amigo… Então, isso impulsionou tudo, inclusive nossas vendas. Não dependemos 100% deles, mas até hoje vendemos muito por conta disso. As vendas começam em dezembro e vão até março, mais ou menos, porque é a época de matrícula. E depois tem demanda considerável em agosto, por causa do novo semestre”, explica.
E, como bons fronteiriços, seu Mauro e dona Dirce não ‘fecham’ as portas para ninguém. Inclusive, fazem mudanças para várias áreas da região, como o Assentamento Itamarati, Sanga Puitã e Pedro Juan Caballero. Não importa se o pagamento será em real ou guarani. Para eles, o importante é venda feita e cliente satisfeito.
“Só dólar que a gente quase não pega. Sempre que vem alguém com dólar aqui, damos um jeito de trocar. Dólar é complicado. Mas guarani e real, tranquilo. Pra gente, eles [as moedas] são quase equivalentes”.
Divisa evoluiu e o comércio de fronteira também
Meia quadra antes — ou depois, a depender do ponto de vista —, na Rua Marechal Floriano, trabalha uma figura emblemática de Ponta Porã. Com receptividade ímpar e voz serena, está seu Cecílio Bobadilha, atrás do balcão de sua farmácia. Há mais de 50 anos ele dedica seus dias a cuidar de pessoas. Todos o conhecem. Ele já atendeu “pai, mãe, vó, neto e bisneto, sempre com muito prazer”. Ele já nem lembra, mas é o que sempre contam.
“Na farmácia, iniciei como limpador de chão no ano de 1969, mas, como funcionário, comecei nos anos 70. Em 1975, adquiri um lugar que era aqui nesta avenida [Rua Marechal Floriano]. Comecei a 100 metros daqui e fiquei um bom tempo. Hoje estou aqui no local, completando 56 anos de farmácia nesta avenida”, conta seu Cecílio.

Nascido e criado em Ponta Porã, o farmacista se considera orgulhosamente fronteiriço. Ele viu a cidade crescer e se consolidar como um polo comercial importante no Estado. Foi ali, atrás do balcão, que criou amizades verdadeiras, cuidou de muita gente e viu seus filhos crescerem.
“A fronteira é boa. Eu comecei aqui quando não havia asfalto; tudo era chão, poeira, era barro. Eu morava aqui no fundo da farmácia, então chegava o pessoal, só apertava a campainha e eu levantava. Não havia horário, porque, na verdade, nos anos 70 e 80, não havia profissional. Meus primeiros chefes eram médicos, então eu aprendi muita coisa com eles, aprendi realmente o que é servir. Até hoje continuo fazendo, como farmacista, como atendente, todo o meu trabalho”.
O profissional tornou-se um exemplo para a família e o cuidado pelo próximo permeou a escolha profissional de Carlos Bobadilha, de 51 anos, filho de seu Cecílio. Hoje, os dois trabalham juntos na Farmacentro.
“Tem gente que fala mal da fronteira, mas eu nunca vi maldade aqui. Trabalhei em lugares diferentes quando mais novo, agora aqui… nunca tive problema e acredito que nunca terei. Procuro fazer aquilo que sei e não deixo que o ovo quebre na minha mão. Procuro ser amável sempre.”

Reconhecimento e pertencimento
Para quem é fronteiriço, a cultura fusionada e o bilinguismo natural, por exemplo, são experiências ordinárias, afinal, essa é a realidade que essa população conhece desde sempre. Para quem não cresceu convivendo com essas experiências, no entanto, nascer em um lugar onde a divisão entre dois países se dá por uma rua, por uma linha imaginária, é, no mínimo, fantástico.
Talvez seja por essa normalização que o senso de patriotismo, orgulho e pertencimento tenha se aflorado apenas nos últimos anos, quando aqueles que nasceram nessa divisa passaram a perceber a grandeza de pertencer a esse lugar, compreender as lutas de quem veio antes, reconhecer os erros do passado e desejar um futuro mais justo.
É neste despertar que a cidade deixa de ser vista como algo trivial por aqueles que ali cresceram e passa a ser enxergada por toda sua grandeza. E, desse sentimento, a turismóloga Lilian Rios entende muito bem.

Orgulho da própria terra
Lilian, filha de pai paraguaio e mãe gaúcha, nasceu e cresceu em Ponta Porã, com sua avó. A fronteira seca era seu quintal, e ir a uma padaria paraguaia, comer em restaurante brasileiro, ter amigos em Ponta Porã e outros em Pedro Juan Caballero eram coisas comuns da rotina. Tão comuns, que seu maior sonho era mudar de cidade.
Aos 17 anos, ela conseguiu e se mudou para Maringá, no Paraná, para concluir o Ensino Médio. Ela nem imaginava, mas seria ali que toda a sua percepção sobre o lugar em que cresceu começaria a mudar.
Diferentemente dela, que não via graça na cidade fronteiriça, seus colegas ficavam entusiasmados, perguntando como era viver em Ponta Porã, como se pronunciava o guarani, como era lidar com duas moedas e suas conversões, quais eram as melhores comidas da região e quais eram as tradições dali.
“Eu não via graça nenhuma, mas vi que as pessoas de lá queriam saber as coisas daqui e eu, que cresci aqui, não conhecia meu próprio território. Fiquei com vergonha! Fiquei um ano lá e, quando voltei, já voltei com outra cabeça. Decidi fazer turismo, e isso abriu a minha cabeça pra essa questão de patrimônio cultural e pra questão de querer atrair turistas para a nossa região”, conta.

Brasiguaia com orgulho!
Assim, de alguém que não gostava da cidade onde nasceu, Lilian passou a defender e a divulgar as vivências e curiosidades da fronteira. E passou a carregar o título de brasiguaia com orgulho, por onde ia. Lilian queria que as pessoas vissem a Princesinha dos Ervais como uma cidade rica, muito mais do que só um corredor econômico.
“O pessoal passava aqui, só fazia uma parada para abastecer e vazava. Então, sempre fomos vistos só como um corredor comercial. Só que a gente tem muito mais que isso. Fomos palco da Guerra da Tríplice Aliança, fomos palco do ciclo da erva-mate, do ouro verde. A gauchada veio pra cá explorar os ervais nativos que tinha aqui. Mediante isso, fomos desenvolvendo a nossa cultura, nossos hábitos e tradições. Além, claro, da influência indígena, que foi ficando muito evidente. E o pessoal não via assim. Só que eu já tinha outra percepção, via como turista, então queria que as pessoas também vissem a grandiosidade do nosso povo, da nossa cidade, da nossa comida”, conta.
“Então, hoje, eu vejo assim, no achismo, de uns 10 anos pra cá, começou-se a despertar essa questão do sentimento fronteiriço, né? A gente tinha, mas nem tanto.”

‘Sou dos dois países!’
Foi na vontade de ver sua origem conhecida que, em 2020, a turismóloga criou o projeto Tereré sem Fronteiras. Na época, o mundo vivia a pandemia da covid-19. Para encarar as incertezas do período, muitas pessoas passaram a investir seu tempo em páginas nas redes sociais, abordando temas diversos. Então, Lilian, com o apoio de alguns amigos, decidiu criar o projeto que divulgaria particularidades da região fronteiriça.
“No começo, pouca gente interagia, mas eu não desisti, porque eu não aguentava mais ouvir o pessoal falar mal da fronteira, assim como vários fronteiriços. Então, bati na tecla e persisti. De lá pra cá, vejo muita gente falando bem [da cidade], falando que adorou o conteúdo, que se identificou com o que assistiu. Fico muito orgulhosa.”

Para Lilian, o maior presente é ver brasileiros e paraguaios, crescidos na fronteira, orgulhosos do lugar em que cresceram, reconhecendo os pontos positivos das cidades. Claro, como em qualquer outro lugar, algumas melhorias são necessárias, inclusive, de incentivo ao turismo. Mas, para ela, o despertar dos fronteiriços para a própria história é um bom ponto de partida.
“Eu falo que um marco divisório foi a Copa do Mundo. Parece que despertou nos fronteiriços, e até em quem não é daqui, aquele sentimento Brasil-Paraguai, sabe? Você andava pela cidade, pela fronteira, e via uma coisa linda. Bandeira Brasil-Paraguai de cabo a rabo, assim. Então, hoje, eu vejo assim: o que é diferente para os outros é o que nos torna únicos. O que, para quem é de fora, é só uma rua comercial, pra gente, é a continuação da nossa cidade”, explica.
“É um orgulho, assim. A gente vê as pessoas com gana, tipo: ‘Sou fronteira. Sou os dois países”, conclui.










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(Revisão: Dáfini Lisboa)







