Quando o assunto são os mitos e as lendas de Mato Grosso do Sul, algumas histórias automaticamente vêm à cabeça dos sul-mato-grossenses, como a da Bruxa da Sapolândia e a do Sinhozinho de Bonito.
Mas, devido à riqueza da diversidade cultural do Estado fronteiriço, as fábulas regionais dos quatro cantos de MS vão muito além dessas mais famosas. Algumas, inclusive, são tão locais e específicas que não alcançam o imaginário popular das demais localidades da própria unidade federativa.
O fato é que, em 49 anos, celebrados neste domingo (11), Mato Grosso do Sul se estabeleceu culturalmente de forma plural, e as lendas são um pedaço dessas manifestações que, ao longo de quase meia década, ajudam a contar a história e a resumir um pouco da identidade do Estado.
Seja no Pantanal, na costa leste, no sul, no centro ou nas fronteiras: apesar de jovem, Mato Grosso do Sul tem muito pano pra manga nesse quesito, e a variedade das narrativas prova o quão criativa e abundante é sua cultura. Essas histórias misturam influências indígenas, paraguaias, bolivianas e sertanejas, refletindo a riqueza cultural do Pantanal e de todas as demais regiões.
Confira a seguir uma lista desde as lendas mais remotas, sem tanta profusão estadual, às mais conhecidas, que não podem ficar de fora de qualquer relação desse tema:
1. Noiva Fantasma da Serra de Maracaju
A lenda da noiva fantasma da Serra de Maracaju, associada principalmente a trechos da BR-060 em Mato Grosso do Sul, perto de Nioaque e região, é uma das histórias de assombração mais conhecidas do folclore rodoviário do Estado.
Ao longo das décadas, motoristas e caminhoneiros que cruzam a rodovia relatam ter visto uma mulher pálida, vestida de branco, com trajes de noiva, véu ou grinalda, posicionada de frente para a pista.

Em muitas versões dos relatos, ela é vista à beira do asfalto ou em curvas perigosas, como a antiga “Curva da Morte”, agindo como se estivesse pedindo carona.
Há ainda narrações locais que descrevem a figura em uma cadeira de rodas às margens da rodovia, na maioria das vezes, ligada a acidentes antigos de veículos que teriam despencado na serra antes de a estrada ser completamente asfaltada.
Você já viu ela?
2. Minhocão do Rio Paraguai
O Minhocão do Rio Paraguai é uma lenda do folclore do Pantanal, em Mato Grosso do Sul, sobre uma criatura colossal que habita as profundezas das águas e até o subsolo dos barrancos.
A história é transmitida entre as gerações ribeirinhas e cada contador molda a figura de acordo com suas próprias vivências, mantendo o mito vivo no imaginário do Pantanal. Conforme os relatos, o bicho é definido como uma entidade de tamanho descomunal, com aparência de cobra ou minhoca, que habita o leito do Rio Paraguai.
Suas manifestações mais aterrorizantes acontecem especialmente em noites de tempestade ou através do surgimento repentino de redemoinhos na água que aparecem sem qualquer vento. Moradores mais antigos das regiões cercadas pelo rio alimentam crenças de que o Minhocão atua tanto como um castigo para os descrentes quanto como uma força que protege as águas.
Na crença popular e nas histórias contadas pelos ribeirinhos, contudo, essa criatura é descrita exatamente como um monstro implacável capaz de virar barcos e devorar pescadores.

Entretanto, historiadores e pesquisadores apontam que a lenda do Minhocão servia para explicar fenômenos naturais assustadores comuns na região, como o “fenômeno das terras caídas”, com grandes desbarrancamentos de margens de rios causados pela força da água, ou o avistamento de gigantescas cobras sucuris-verdes (Eunectes murinus) cruzando o rio.
Registros antigos, como relatos de 1908 publicados na revista Kosmos, em Corumbá, mostram que antigos capitães e moradores locais juravam ver rastros enormes deixados na lama do Rio Paraguai, atribuindo os vestígios ao bicho.
Embora barcos de pesca virem ocasionalmente no Rio Paraguai devido a fortes tempestades ou ventanias repentinas na região, há quem acredite que o grande causador dos acidentes é justamente o bicho folclórico. Alguns, inclusive, juram de pé junto já ter visto o tal Minhocão com os próprios olhos, passando bem abaixo de seus barcos, fazendo as águas “tremerem”.
Conhece alguém que já o viu ou é uma dessas pessoas?
3. Come-Língua do Bolsão
A lenda do Come-Língua é uma das histórias do folclore do Centro-Oeste brasileiro, com fortes raízes em Mato Grosso do Sul, especialmente no Pantanal e na região do Bolsão, que contempla municípios do nordeste e da costa leste do Estado.
Trata-se da figura de um menino-bicho. Conforme a crença, em vida, ele era muito mentiroso e desobediente e, antes de morrer, foi alvo de uma praga jogada pela própria mãe: sua língua cairia de tanto contar lorotas.

Tempos depois, o garoto morreu e seu corpo foi encontrado justamente sem a língua, tal como a mãe praguejou. A partir de então, sua história virou uma lenda, afirmando que o espírito do menino vaga pelos campos e fazendas, sendo notado especialmente quando fazendeiros relatam encontrar gado morto no pasto e ataques a outros animais — todos com as línguas arrancadas.
Algumas versões dizem que ele corre pela mata com a boca ou as mãos ensanguentadas procurando uma língua que lhe sirva.
É mole?
4. Pombero e seu assobio penetrante
O Pombero é um ser mitológico de origem Guarani, muito forte no Paraguai e em regiões da fronteira com Mato Grosso do Sul. É descrito como um duende baixo, peludo e de passos silenciosos que protege a natureza e os animais.
Em relação à aparência, geralmente é retratado como um homem baixinho, com mãos e pés cobertos de pelos, chapéu de palha na cabeça e roupas esfarrapadas. A fama é de guardião da mata. Ele cuida das florestas e dos animais selvagens, punindo caçadores que matam mais do que o necessário, fazendo-os se perderem no meio do mato.
Sua presença é anunciada por um assobio forte e penetrante ou pela imitação de cantos de pássaros e animais. Nas áreas rurais de Mato Grosso do Sul, a tradição desaconselha veementemente assobiar de madrugada, para não irritá-lo nem chamá-lo.

Além disso, é preciso muito cuidado. O Pombero pode ser amigo ou inimigo. Para conquistar sua ajuda na agricultura ou com os animais, as pessoas costumam deixar oferendas à noite, como fumo, mel ou cachaça. Se a promessa de oferenda for quebrada, ele vira um perseguidor.
Travesso como um saci, o Pombero gosta de soltar cavalos, roubar ovos, tocar nas pernas ou costas das pessoas no escuro, e a lenda popular também o associa a sustos em moradores e até a gravidezes misteriosas no campo.
5. Humanos que viraram tuiuiús e por que essas aves têm aparência triste
A lenda dos tuiuiús possui duas versões principais no folclore indígena e pantaneiro de Mato Grosso do Sul. Uma delas foca na explicação da feição melancólica da ave, enquanto a outra narra a transformação de humanos indígenas em tuiuiús.
Nesta versão da tradição, um casal indígena se transformou em tuiuiú para salvar seu povo. A lenda conta que a região pantaneira estava prestes a sofrer com uma terrível e avassaladora enchente que ameaçava afogar toda a aldeia.
Diante do perigo iminente, o casal decidiu fazer um grande sacrifício e, por meio de forças divinas ou rituais de proteção, eles foram transformados nas primeiras grandes aves pernaltas, os tuiuiús, e assim teria nascido a espécie no Pantanal.
Graças às suas pernas longas e asas grandes, eles conseguiram voar alto, vigiar e guiar sua tribo para a salvação, tornando-se símbolos eternos de amor, coragem e proteção no Pantanal.

A outra versão diz que um casal de indígenas apaixonados vivia isolado e feliz à beira de um rio. Eles tinham uma ligação profunda com a natureza e costumavam alimentar diariamente os tuiuiús da região com peixes.
Até que envelheceram e faleceram no mesmo dia. Respeitando seu amor pelos animais, a tribo então os enterrou exatamente no local onde costumavam alimentar as aves, cobrindo a sepultura com um monte de terra.
Ao retornarem em busca de comida, os tuiuiús encontraram apenas o monte de areia. Inconformados, passaram dias e dias pousados ali, abaixando a cabeça e cavando o chão na esperança de encontrar as migalhas deixadas pelos amigos humanos.
Diz a tradição que é por essa razão que os tuiuiús têm aquela aparência deprimida e caminham sempre olhando fixamente para o solo. Além disso, assim como o casal indígena que se amou até o fim, os tuiuiús tornaram-se aves estritamente monogâmicas, que escolhem apenas um parceiro para a vida inteira.
Poético, não?
6. Lobisomens em MS
Além das lendas pantaneiras e fronteiriças, MS também tem seus casos de aparições dos tradicionais lobisomens. Dois deles, especificamente, foram parar em um livro que documenta esses avistamentos, devido à consistência dos relatos.
Um ocorreu na cidade de Iguatemi e outro no distrito de Camisão, no município de Aquidauana. O caso do lobisomem de Iguatemi virou uma verdadeira caçada local e envolveu até a polícia. Anos depois, moradores garantem que a história não é lenda coisa nenhuma, mas sim um fato real, ocorrido em 2017.

Na época, relatos sobre a aparição de um animal de grande porte, peludo e com cara assustadora tiraram o sossego dos moradores. O estopim ocorreu quando uma moradora registrou um boletim de ocorrência afirmando ter sofrido um ataque da criatura enquanto estava em seu carro. A situação tomou proporções tão grandes, que grupos de moradores saíram armados pelas ruas com paus, foices e pedras e promoveram uma caçada ao suposto lobisomem.
A Polícia Militar chegou a ir até o local na madrugada dos relatos, realizou buscas pela região, mas não encontrou nenhuma criatura.
Céticos, especialistas ambientais da região explicaram que o bicho avistado era, muito provavelmente, um animal da fauna local que saiu de seu habitat, sugerindo que as testemunhas tivessem cruzado com um lobo-guará, um javali ou um cachorro grande.
Meses depois, o grupo musical Os Marcheiros transformou o caso na Marchinha de Carnaval do Lobisomem de Iguatemi, satirizando o monstro que, na verdade, só estaria “procurando uma namorada nas noites de lua cheia”.

“Conheça o Lobisomem do seu bairro”, livro de Thiago de Souza e Silo Sotil, também traz o caso de um não, mas vários supostos lobisomens no distrito de Camisão, em Aquidauana, região cercada por morros e misticismo no portal do Pantanal. O local é historicamente famoso por contos passados de geração em geração sobre criaturas que vagam pelas estradas de terra vermelha e assombram chácaras em noites de lua cheia.
Por lá, moradores relatam a morte de animais, incluindo galinhas encontradas mortas ou comidas em cercados e cochos. Quem vive na região afirma que existem diferentes “tipos” de lobisomem na localidade, com hábitos variados. As mesmas pessoas garantem que já viram a criatura com os próprios olhos. No entanto, em anos da difusão da presença do mito, nenhuma imagem chegou a ser capturada.
7. Pai do Mato ou Mãozão do Pantanal
Voltando aos contos mais tradicionais e bem difundidos pelo Estado, é hora de destacar a lenda do Mãozão ou Pai do Mato: um ser mitológico misterioso que atua como um protetor das matas de Mato Grosso do Sul, com forte presença no Pantanal.
A crença popular o descreve como um bicho peludo que se assemelha a uma anta. Ao cruzar com alguém, ela cresce vertiginosamente e se transforma em um homem cabeludo e barbudo. Em outras variações, ele mantém o corpo totalmente coberto de pelos e estatura mediana.

O traço mais marcante e assustador da entidade é que, se ela passar a mão pela cabeça de uma pessoa, esta ficará completamente louca.
Apesar do nome “Mãozão”, a criatura não possui mãos gigantes. O apelido se dá pelo fato de suas mãos serem extremamente poderosas e capazes de fazer feitiços psicológicos, além de terem uma força absurda e sobre-humana.
8. Sinhozinho de Bonito
Não tem como falar das lendas de Mato Grosso do Sul sem citar a do Sinhozinho, que reconta a história de um frei que caminhou pela região de Bonito, nos anos 1930.
A lenda o descreve como um homem pequeno e mudo, que, mesmo sem falar um “A”, conseguia se comunicar plenamente, além de benzer, curar doentes e pregar ensinamentos religiosos pela região.
Sua passagem marcante pela área do Pantanal e da Serra da Bodoquena deixou rastros, incluindo uma capela e várias cruzes de madeira, cujos moradores afirmam ter sido construídas por ele.

Entre seus feitos, o causo mais famoso narra que o Sinhozinho teria aprisionado uma cobra gigante dentro de um grande buraco em um dos morros de Bonito.
Para conter o animal, ele fechou a entrada do esconderijo com uma de suas cruzes. A crença popular diz que, se essa cruz for descoberta e removida, a cobra se libertará e poderá inundar o local ou devorar os moradores da cidade. Já pensou?
Assim como surgiu misteriosamente, o frei desapareceu sem deixar nenhum vestígio, tornando-se uma das lendas mais populares de Mato Grosso do Sul.
9. Bruxa da Sapolândia
A história da Bruxa da Sapolândia envolve a trajetória de Célia de Souza, uma mulher real que virou lenda urbana em Campo Grande (MS) após ser acusada de crimes na década de 1960 e 1970. Anos depois, o caso divide opiniões até hoje e há quem diga que tudo foi invenção, embora volta e meia surjam cada vez mais manifestações de vítimas narrando o que passaram nas mãos de Célia.
Ela foi acusada de matar de quatro a seis crianças, em ocorrências registradas entre 1969 e 1970, na região do bairro Taquarussu, uma área pantanosa e cheia de sapos que ficou conhecida como Sapolândia, em Campo Grande.
Ela fazia de sua casa uma espécie de creche para crianças cujos pais trabalhavam na lavoura. Na residência, foi acusada de submeter os pequenos a maus-tratos, fome e de supostamente realizar rituais de magia e bruxaria usando os menores.

Uma foto de Célia agachada próximo a covas rasas onde corpos de crianças foram encontrados marcou profundamente o imaginário popular da capital sul-mato-grossense.
À época, Célia negou as acusações e alegou que as mortes foram por causas naturais. Em 1971, as denúncias foram parar na Justiça, mas ela acabou sendo absolvida por falta de provas conclusivas, embora os autos do processo tenham apontado quadros de desnutrição e desamparo às vítimas. Inocentada, Célia deixou a cidade, mas o mito ficou para sempre e hoje muitos acreditam que ela possa ter sido vítima de intolerância religiosa.
Passados mais de 50 anos, o caso transformou-se em folclore local, usado por mães para assustar crianças desobedientes, gerando curiosidade, relatos de assombrações e até visitas de curiosos à antiga casa de Célia, de pé até hoje no mesmo local. Volta e meia, alguma criança que viveu sob os cuidados da mulher aparece e relata o que passou, reforçando as acusações das quais Célia foi absolvida.
10. Ets no Morenão?
O caso do óvni do Morenão é considerado o mais emblemático entre os mitos e as lendas urbanas de Mato Grosso do Sul e já virou até notícia internacional. Embora tenha sido testemunhado por mais de 20 mil pessoas e seja narrado há mais de quatro décadas, o fato jamais pôde ser comprovado.
A aparição do objeto voador não identificado correu em 6 de março de 1982, um sábado, durante uma partida do Campeonato Brasileiro entre o Operário-MS e Vasco da Gama. Na ocasião, mais de 24 mil torcedores lotavam as arquibancadas do Estádio Universitário Pedro Pedrossian (Morenão), na capital Campo Grande.

Durante o jogo, enquanto o Operário venceu por 2 a 0, com gols de Jones, um objeto luminoso, colorido, cilíndrico, com luzes fortes, pairou sobre o estádio e cruzou o céu por cerca de 5 segundos.
O objeto não fazia barulho enquanto estava sobre o campo, embora algumas pessoas do lado de fora tenham relatado ter ouvido um zumbido e visto um grande clarão. Depois, o óvni sumiu rapidamente em direção à antiga fábrica da Coca-Cola.
Apesar de ter sido visto a olho nu por um mar de gente e seja considerado por ufólogos como um dos maiores avistamentos coletivos do Brasil, não existe nenhuma foto ou filmagem do objeto, restando apenas na memória dos presentes e nos relatos de jornais da época, tornando-se um marco do folclore urbano de Campo Grande e de Mato Grosso do Sul.

Mitos vivos: por que MS não conhece seu próprio folclore?
Por mais que atravessem gerações e permaneçam presentes na memória de comunidades do interior, muitas lendas de Mato Grosso do Sul ainda são praticamente desconhecidas fora das regiões onde nasceram ou ganharam força.
As narrativas associadas ao Pantanal, às fronteiras, aos rios e a municípios específicos sobrevivem principalmente pelo boca a boca, transmitidas entre moradores, pescadores, trabalhadores e famílias.
O resultado disso é, de certa forma, um folclore dividido geograficamente. Ou seja, uma história conhecida em determinada cidade pode ser completamente nova para um sul-mato-grossense que vive a poucos quilômetros dali.
Essa distância entre as próprias manifestações culturais do Estado aparece no documentário “Mitos Vivos”, que volta o olhar para as lendas preservadas no imaginário popular sul-mato-grossense. Ao recuperar histórias contadas pelas comunidades e personagens ligados a elas, a produção evidencia como parte desse patrimônio imaterial permanece restrita aos lugares onde os relatos continuam circulando.
Assim, enquanto determinadas lendas se tornam símbolos locais, elas nem sempre ultrapassam os limites dos municípios ou regiões para integrar um imaginário popular compartilhado por todo o Estado de Mato Grosso do Sul.

Lendas reforçam e resumem identidade cultural plural de MS: tem de tudo
Histórias de assombração, acontecimentos inexplicáveis e tantas outras narrativas revelam a relação das comunidades com o território, a natureza e a própria história dos lugares. Conhecê-las significa também reconhecer uma parcela da identidade cultural de MS que nem sempre aparece nos livros, nas escolas ou no cotidiano de quem vive em outras partes do Estado.
No fim, falar sobre essas lendas também é falar sobre a memória de Mato Grosso do Sul. Por trás desses contos, estão costumes, medos e histórias que ajudam a contar como diferentes povos enxergam o lugar onde vivem. Hoje, o desafio é justamente fazer com que esses causos ultrapassem as rodas de conversa e as divisas municipais, antes que parte deles deixe de ser contada.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)










