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Cotidiano

Papel picado e Profeta Gentileza: festa levou 50 mil para as ruas de Campo Grande na criação de MS

Fotografias e relatos de quem viveu a divisão reconstituem a festa, as disputas políticas e os bastidores da criação de Mato Grosso do Sul
Lethycia Anjos -
Uma cidade em festa…

Era uma terça-feira quando uma espécie de romaria tomou as ruas de Campo Grande. Por entre os carros e a chuva de papéis picados, a multidão avançava pelo Centro naquele 11 de outubro de 1977. No meio dela, uma figura curiosa, de túnica e cabelos compridos, reforçava o clima de procissão.

“Foi uma alegria coletiva que poucas vezes vi na vida. Parecia final de guerra e a gente tinha ganhado…”, recorda-se Tadeu.

Quase cinco décadas se passaram, mas a imagem daquela manhã segue viva na memória coletiva de quem esteve ali:

“Houve um carnaval na cidade”, resumiu Marcos Aguiar.

A passeata podia ser vista de diferentes pontos da cidade. Adelia estava “na esquina da 14 de Julho com a Barão”; Elizabeth, “no meio da multidão”. Sonia seguia na carreata, “feliz da vida!”, enquanto Juarez acompanhava tudo “no trecho entre a Afonso Pena e Barão”. Maria Luiza também estava por ali, “num Fusca”.

Até quem não estava nas ruas guarda lembranças daquele dia. Marcos estava na Escola Arlindo Lima quando “todas as salas de aula foram liberadas”. Já Ricardo estava no reforço de Matemática e se lembra de ter a aula interrompida pelos fogos de artifício.

Divisão do Estado 1977
Profeta Gentileza entre os manifestantes. (Roberto Higa)

Uma esquina, uma carreata, um Fusca, uma multidão… são todos fragmentos de um mesmo dia que, a partir dos comentários das redes sociais, voltam à memória por um ponto em comum — as fotografias de Roberto Higa.

Aquela terça-feira entraria nos livros de história como o dia em que Mato Grosso do Sul nasceu. Mas alguém precisava contar essa história enquanto ela acontecia.

Um jornalista em meio à multidão

Divisão do Estado 1977
Jornalista Laureano Secundo. (Mateus Andrade, Midiamax)

Esse alguém era o jornalista Laureano Secundo, 66, que acompanhou os acontecimentos e registrou a data para que, na manhã seguinte, a notícia estampasse as páginas de um dos principais jornais impressos da época.

Anos depois, ao relembrar aquela cobertura, Laureano escreveu sobre a particularidade de ter vivido sua primeira passeata justamente em um dos períodos mais repressivos da história brasileira.

“Dois meses e seis dias após o meu primeiro contato com o ambiente no qual eu passaria a maior parte da minha vida, eu tive a minha primeira passeata. Isso não teria nada de excepcional se não estivéssemos na época vivendo o período que entrou para a história do país como os anos de chumbo. Vivíamos todos nós brasileiros sob o regime militar, onde as poucas manifestações, quando aconteciam, não chegavam às páginas dos jornais e revistas e muito menos às telas das TVs.”

Laureano tinha 16 anos e havia entrado dois meses antes no Jornal Correio do Estado. Ainda era “foca”, como são chamados os jornalistas iniciantes, e trabalhava na editoria de Polícia. Naquele dia, a cobertura da passeata o tirou da rotina de delegacias e boletins para colocá-lo diante de um acontecimento que marcaria sua trajetória.

Festa da divisão 1977
Jornalista relembra cobertura da passeata. (Mateus Andrade, Midiamax)

Uma história que vinha de longe

A festa da criação de MS era resultado de um movimento que atravessou décadas. A ideia de separar o Sul do antigo Mato Grosso circulava desde pelo menos 1932, avançando e recuando conforme mudavam os cenários políticos, até 1977, quando essa expectativa ganhou contornos concretos.

Campo-grandenses comemoram a criação do novo estado no dia da divisão.

Em maio daquele ano, o presidente Ernesto Geisel comunicou ao então governador de Mato Grosso, José Garcia Neto, que assinaria a divisão. Contrário à separação, o governador recebeu a notícia com descontentamento, mas, em Brasília, a decisão já estava tomada.

“Campo Grande sempre quis a divisão, sempre quis se separar”, recorda Laureano.

A separação também despertava discussões sobre o nome do futuro Estado. Antes de Mato Grosso do Sul prevalecer, houve quem defendesse Estado de Campo Grande ou até Estado de Maracaju, em referência à serra. A decisão final também veio de Brasília.

Nas ruas, a expectativa estava ligada à vida cotidiana da cidade. Havia a percepção de que a separação significaria deixar para trás a centralidade política de Cuiabá. A antiga rivalidade entre as duas cidades também alimentava o desejo de autonomia.

“Existia uma rixa entre Campo Grande e Cuiabá. Então, o povo queria se livrar de Cuiabá. Esse era o ponto, porque Campo Grande ia virar a capital do Estado.”

Havia ainda um contexto que as fotografias não mostram. Em plena ditadura militar, manifestações eram raras e cercadas por vigilância, repressão e medo. Ainda assim, cerca de 50 mil pessoas ocuparam as ruas de Campo Grande.

Mas como tanta gente foi parar nas ruas?

Festa da divisão 1977
Festa da divisão, em 1977. (Roberto Higa)

A resposta, segundo Laureano, é a Rádio Cultura. Na época, a emissora tinha forte alcance popular e teve papel central na mobilização e na transformação da expectativa pela criação do Estado em convocação.

“Quando começava a ter manifestação, você precisava falar com meio mundo, tinha Exército, polícia. Então, havia sempre esse controle por conta da ditadura militar. Aí a rádio fez toda uma mobilização. Foi centralizado na Rádio Cultura.”

A concentração começou em frente ao antigo prédio da Rádio Cultura, na Rua 26 de Agosto, e avançou pelo Centro.

“Foi de arrepiar. Todo mundo foi. Não foi organizada exatamente por isso. Normalmente, passeatas dependem muito de quem está organizando, sindicatos, partidos políticos. Aquela, não. Ela partiu do povo.”

Os poucos registros que restaram daquela época ajudam a revelar quem estava nas ruas: estudantes, professores, trabalhadores, comerciantes e moradores misturados à multidão. Entre eles, estava uma figura curiosa, já conhecida pelos moradores, era o Profeta Gentileza, que chegou a morar em Campo Grande.

“Ele vivia aqui, morou um tempo em Campo Grande e era bem popular, porque era muito gente fina e tranquilo. Então, ele andava pelas ruas aqui e acabou se tornando um personagem daquele dia”, conta Laureano.

Pelas ondas do rádio, a notícia do novo estado chegou a MS

Enquanto a multidão avançava pelo centro, em Brasília, a divisão era formalizada. Diante de dezenas de políticos, ministros e convidados, a história acontecia e, no meio dela, estava o radialista Reinaldo Costa, que havia viajado de Campo Grande para transmitir o momento pela Rádio Cultura.

A estrutura disponível estava longe da instantaneidade das transmissões de hoje. Reinaldo conta que foi retirado do Salão Azul do Palácio do Planalto e levado para um canto de onde nem sequer conseguia acompanhar direito a cerimônia. Para chegar até a tribuna onde estava o presidente Ernesto Geisel, precisou puxar 30 metros de fio.

“Eu simplesmente consegui 30 metros de fio, puxei o fio, levei atrás da tribuna onde estava o presidente da República, Ernesto Geisel. Aí chamei o Italívio Coelho para me dar uma entrevista, porque era o único que conseguiu ver a minha mãozinha atrás de todo mundo. Tinha umas 300 pessoas dentro do Salão Azul.”

Sem retorno da linha, a transmissão dependia também de uma combinação simples com a equipe da rádio; Reinaldo contaria até dez e, então, entraria no ar.

OUÇA:

“Atenção, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10. Alô, amigos da Rádio Cultura de Campo Grande, estamos falando diretamente do Palácio do Planalto, em Brasília onde ocorre a divisão do estado…”

O improviso acabou fazendo parte daquele registro histórico. Quase cinco décadas depois, Reinaldo não lembra com exatidão as palavras que disse naquela transmissão, mas lembra dos personagens que passaram pelo microfone: Pedro Pedrossian, Fragelli, Lúdio Coelho, Italívio Coelho e Golbery do Couto e Silva.

A fita, no entanto, perdeu-se. “Infelizmente, o jornalismo da rádio era ineficiente, não tinha um arquivo. Por onde anda esta fita com a gravação, eu não sei. Mas lembro que foi uma folia muito grande. Quando digo folia, quero dizer que era um negócio organizado, mas tinha muito tumulto, muita coisa acontecendo. Quase de repente a gente começou a fazer a reportagem para poder ir ao ar.”

O caminho até a divisão

Fotografia sobre Criação do Estado de MS
Criação do Estado de MS, em 1977. (Acervo do IHGMS)

Depois do improviso da transmissão, vinha a dimensão política daquele momento. Historiador e ex-deputado estadual, Sérgio Cruz acompanhou de perto o processo e, como divisionista, como ele próprio se identifica, viu a criação de Mato Grosso do Sul como a concretização de um anseio histórico.

“A primeira sensação de quem era divisionista, e eu me incluo nisso, é de que estava acontecendo um fato histórico relevante, de tamanha importância para o Brasil.”

Mas a divisão estava longe de ser consenso. No Norte, havia resistência à separação. No Sul, existia a expectativa de que Campo Grande assumisse o comando político e administrativo da região, além de divergências entre as próprias lideranças.

Sérgio cita o ex-governador Pedro Pedrossian como exemplo. Pedrossian havia governado Mato Grosso uno entre 1966 e 1971 e, naquele momento, era uma das principais lideranças políticas do Sul. Segundo Sérgio, era contrário à divisão e defendia que um território maior teria mais força para se desenvolver. Setores da esquerda também defendiam uma consulta popular, algo difícil de ser colocado em prática durante a ditadura.

Em 1974, ainda sob a ditadura militar, o governo federal estabeleceu novas regras para a criação de estados e territórios brasileiros. A legislação passou a definir os critérios e procedimentos para mudanças na organização territorial do país.

Foi nesse contexto que Paulo Coelho Machado tentou reorganizar a Liga Sul-Mato-Grossense, criada em 1934. O movimento político e cívico reunia intelectuais, universitários e lideranças da região sul em defesa da divisão territorial de Mato Grosso e havia reunido mais de 13 mil assinaturas.

‘A ditadura não precisou se opor à mobilização’

A ditadura não precisou se opor à mobilização, o próprio governo federal defendia a divisão. Ainda assim, o ambiente político contribuía para enfraquecer a participação popular. “A ditadura intimidava, isso enfraqueceu a mobilização popular. Mas a ditadura não iria dizer ‘Não faça o movimento pela divisão’, porque ela foi a favor da divisão.”

Divisão de MS

Na época deputado estadual, Sérgio destaca que a Assembleia Legislativa chegou a fazer alguma mobilização, mas com pouca força para interferir na decisão. A bancada federal também estava dividida, inclusive com parlamentares do Sul contrários à separação.

Até a escolha do nome foi motivo de controvérsias. A proposta inicial era que o novo Estado se chamasse “Estado de Campo Grande”, mas a ideia enfrentou resistência e Mato Grosso do Sul acabou prevalecendo, em referência ao território de origem. Nos anos 1990, a discussão voltou ao debate com a proposta de mudar o nome para “Estado do Pantanal”, o que também não avançou.

Para Sérgio, a criação do Estado reuniu um movimento que vinha de décadas e uma decisão política tomada pelo governo federal. “Ela foi resultado de um histórico anseio popular e de uma decisão política do Geisel.”

A separação que já existia antes do papel

Divisão do Estado 1977
Festa da criação de MS. (Roberto Higa)

A história não terminou com a aprovação da divisão. Quando o novo Estado começou a ser instalado, em 1979, as disputas políticas continuavam.

Laureano ressalta que, como não havia consenso entre as lideranças locais, o governo federal escolheu Harry Amorim Costa, gaúcho e sem trajetória política em Mato Grosso do Sul, para ser o primeiro governador do novo Estado.

Harry tomou posse em 1º de janeiro de 1979 e permaneceu no cargo até junho daquele ano, quando acabou substituído por Marcelo Miranda. Pedro Pedrossian só chegaria ao Governo de Mato Grosso do Sul em novembro de 1980.

A criação de Mato Grosso do Sul também não produziu uma separação repentina entre Norte e Sul. De acordo com Sérgio Cruz, a divisão já estava presente na política e na administração do antigo Mato Grosso.

Mapa de MS-MT
Mapa de MS-MT. (Reprodução)

Ele explica que, quando ainda era deputado pelo Estado inteiro, sua votação era concentrada em Campo Grande. No Norte, os eleitores costumavam votar em candidatos da própria região; no Sul, a preferência se repetia pelos nomes locais.

“Na política, já havia essa divisão. A data veio mesmo para marcar a fundação do próprio Estado.”

A própria estrutura de Campo Grande reforçava essa diferença. Segundo Sérgio, a cidade já funcionava como uma “subcapital”, reunindo equipamentos e estruturas que lhe davam uma posição de destaque dentro do antigo Mato Grosso.

É também essa história anterior à criação do Estado que Sérgio busca recuperar nos livros que escreveu sobre a divisão. Para ele, concentrar a memória de Mato Grosso do Sul a partir de 1977 deixa de lado movimentos, personagens e acontecimentos que ajudaram a construir o caminho até a separação.

“A gente só conhece a história de Mato Grosso do Sul a partir da divisão. Mas, antes de ser Mato Grosso do Sul, muita coisa ocorreu, e isso está se perdendo.”

Uma festa que poderia ter sido maior

Comemoração nas ruas pelo recém-criado Mato Grosso do Sul. (Roberto Higa)

De volta àquele 11 de outubro, as fotografias de Roberto Higa registram uma cidade tomada pela comemoração. Ruas cheias, carros e uma multidão que, na lembrança de Laureano Secundo, ocupou o centro de forma espontânea. Sérgio, que acompanhava a formalização da divisão em Brasília, guardou outra impressão, esperava uma manifestação de maior dimensão, capaz de traduzir a importância política daquele momento.

“O que eu lamento é que não houve uma manifestação à altura do fato histórico.”

Muita gente foi às ruas, reconhece, mas considera que faltou uma articulação capaz de transformar a comemoração em uma demonstração da dimensão política daquele momento.

Em 2012, o historiador Nataniél Dal Moro escreveu um artigo sobre a criação do novo estado. Nele, descreve uma comemoração marcada por cantos, samba, gritos de celebração e fogos de artifício, que mobilizou cerca de 50 mil pessoas em Campo Grande.

“Aproximadamente 50 mil pessoas saíram às ruas de Campo Grande, numa passeata monstro organizada pela Rádio Cultura e pelo Jornal Correio do Estado, para comemorarem a sanção, pelo presidente Geisel, da Lei Complementar que criou o Estado do Mato Grosso do Sul com capital em Campo Grande. Calculou-se em 35 mil o número de populares que, cantando, sambando e gritando ‘Mato Grosso do Sul! Mato Grosso do Sul!’ percorreram as ruas 14 de Julho, Avenida Mato Grosso, 13 de Maio e Barão do Rio Branco até atingir a Praça ‘Presidente Ernesto Geisel’. Outras 15 mil pessoas praticamente lotaram carros e caminhões. Milhares de foguetes foram disparados e toda a cidade foi tomada por um clima extremamente festivo“, descrevia o jornal da época.

O dia seguinte

Festa da divisão 1977
Laureano Secundo. (Mateus Andrade, Midiamax)

Já para Laureano, a cobertura não terminou quando a multidão deixou as ruas. Depois da passeata, era hora de voltar para a redação e transformar em notícia o nascimento de um estado que ainda nem tinha nome definido.

“Quando você cobre um evento grande assim, na hora que termina e chega na redação, a sensação é de uma adrenalina danada. Você chega, escreve, entrevista um monte de pessoas e no fim, é o jornal que decide.”

Naquela época, a história precisava caber no papel. O texto era escrito à máquina, em laudas, passava pelo copydesk e depois pelos editores. As fotografias chegavam por telefoto. No fim, o espaço disponível no jornal decidia quanto daquela experiência sobreviveria na edição.

Laureano escreveu. Os editores cortaram. Na manhã seguinte, a cidade encontrou nas páginas do jornal a primeira versão impressa daquele dia:

OUÇA:
Divisão de MS
MS foi criado em 1977 pelo então presidente Ernesto Geisel. (Reprodução)
Divisão de MS
(Roberto Higa)
Festa da divisão 1977
Manchete do dia 12 de outubro de 1977. (Mateus Andrade, Midiamax)
Harry Amorim Costa
Harry Amorim Costa. (Roberto Higa)
Divisão de MS
Festa da divisão 1977
Jornais da época. (Mateus Andrade, Midiamax)
(Roberto Higa)
Jornal do Brasil, 4/5/1977

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(Revisão: Dáfini Lisboa)

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