Aos 65 anos, o agricultor Edson Alves de Matos vive um momento de redescoberta e realização pessoal ao retornar para a sala de aula após precisar abandonar os estudos na juventude, para trabalhar e garantir o sustento da família.
Prestes a concluir o ensino médio por meio da EJA (Educação de Jovens e Adultos), na Escola Municipal Usina do Mimoso Polo – Extensão Bálsamo, localizada no Assentamento Melodia, na zona rural de Ribas do Rio Pardo, o idoso expressa que a educação abriu novos horizontes e lhe deu esperança para buscar alçar novos voos, mostrando que nunca é tarde demais para sonhar em conquistar uma qualificação profissional e buscar melhores oportunidades.
“Minha vida deu uma reviravolta muito grande. Eu socializei mais, interagi mais com meus amigos, aprendi, revivi algumas coisas que eu já tinha esquecido. Essa conclusão [do ensino médio] significa pra mim a realização de um sonho. Eu não tive oportunidade de estudar, [sai muito cedo] para trabalhar, para poder cumprir meus compromissos, tratar da minha família, mas agora eu tive essa oportunidade e abracei. Então, abri os novos horizontes da minha vida”, expressa o agricultor.
A história de Edson se cruza com a de milhares de pessoas que precisaram abandonar a escola ainda na infância ou juventude para trabalhar, cuidar da família ou enfrentar dificuldades pessoais. Para quem precisou abrir mão do básico, retornar à sala de aula representa muito mais do que concluir uma etapa da educação: é a oportunidade de resgatar um sonho interrompido, recuperar a autoestima e enxergar novos caminhos para o futuro.

Cansaço não vence o sonho
No município de Ribas do Rio Pardo, distante 96 quilômetros de Campo Grande, as salas de aula da EJA são frequentadas, na maioria dos casos, após um longo dia de trabalho, seja dentro ou fora de casa, tornando um desafio conciliar os estudos com a dedicação às tarefas domésticas ou longos expedientes. Entre os alunos em idade mais avançada, há ainda outros desafios: vencer a saúde fragilizada e a necessidade de dividir o tempo entre o sonho de concluir os estudos e as eventuais responsabilidades com os netos.
Conforme relato dos professores ouvidos pela reportagem do Jornal Midiamax, o cansaço físico e mental é visível no rosto dos alunos e impacta diretamente a concentração e a frequência às aulas. No entanto, encarar a labuta do dia a dia não é empecilho o suficiente para afastá-los de seus objetivos.
“Mesmo cansados do trabalho, do dia a dia, do serviço de casa, da saúde fragilizada, dos cuidados com os netos, eles vêm pra escola, faça chuva, faça sol. Eles participam, eles conversam, eles interagem, e a forma como nós, professores, adaptamos isso é muito surreal”, expressa a professora Michelle Rodrigues Carneiro.
A modalidade é oferecida na Escola Municipal Usina do Mimoso Polo – Extensão Bálsamo e nas escolas municipais Profa. Mareide Monteiro de Lima e São Sebastião. As aulas passam por adaptações constantes, alinhadas à realidade dos alunos, para que eles se sintam motivados a buscar o conhecimento. Conforme as docentes Valdirene Bonato e Rita Elaine de Paula, as aulas são planejadas com linguagem simples, exemplos do cotidiano, atividades práticas, vídeos curtos, imagens, jogos e recursos visuais, sempre relacionando os conteúdos às vivências dos estudantes.

O empenho dos professores em tornar o ambiente um espaço de inclusão e acolhimento e a força de vontade dos alunos para aprender levaram Ribas do Rio Pardo a conquistar a Medalha Paulo Freire, que reconhece os municípios que desenvolvem práticas educacionais comprometidas com o acesso, a permanência e o sucesso dos estudantes da EJA.
Ribas do Rio Pardo foi a única secretaria de educação da região Centro-Oeste a receber a medalha. Em Mato Grosso do Sul, as secretarias de Aquidauana e Ladário também foram reconhecidas com menção honrosa na mesma iniciativa. Juntas, as três secretarias municipais representam o Estado em uma das principais ações do MEC (Ministério da Educação) voltadas à valorização da Educação de Jovens e Adultos.
Alunos são parte do processo de aprendizagem
A jornada de aprendizagem é acompanhada de perto pelo corpo docente, priorizando a flexibilização das atividades para que as aulas possam respeitar o ritmo e as particularidades de cada turma. Na sala de aula, as experiências de vida dos próprios alunos se tornam parte do processo de aprendizagem, fortalecendo o vínculo com a escola e incentivando sua permanência.
“Eu dou Projeto Integrador de Educação Digital, então a gente vai adaptando aquilo que eles contam para a gente na disciplina, e a gente vê que isso deixa eles mais animados, por saber que às vezes há uma história de vida deles que pode ser trabalhada em sala de aula. Você ri, você chora com as histórias deles, você se comove. E a própria história deles acaba se tornando disciplina dentro da sala de aula”, compartilha a professora Michelle Rodrigues Carneiro.

Em sala de aula, em vez de exigir que os alunos memorizem os conteúdos e avaliá-los apenas com base no desempenho em provas, o ambiente valoriza a participação coletiva e a troca de sabedorias e vivências, tornando os alunos os protagonistas de suas próprias histórias, conforme afirma o professor Jorge Luis Mendes Loureiro.
“É feito todo um procedimento para atender às particularidades de cada aluno. Nós trabalhamos para que eles tenham esse desenvolvimento e melhorem e, porventura, melhorem até mesmo no aspecto profissional. Então, nós estamos sempre preocupados com o melhor para eles e, obviamente, veio o reflexo nessa premiação, que reconhece [nosso trabalho] na escola”, explica Jorge Luis.
Na escola da zona rural, onde as turmas são multisseriadas — ou seja, há vários alunos de diferentes idades —, os conteúdos dialogam com situações do cotidiano, como trabalho, finanças familiares e a convivência na comunidade. Os temas são apresentados de forma gradual, com linguagem simples e exemplos práticos, conforme explica o professor de Matemática Renan Willian Carli.
“Na Matemática, a gente trabalha finanças, porcentagem, área, perímetro, volume e a aplicação das quatro operações no cotidiano dos estudantes. Procuro propor conteúdos com linguagem clara, revisões frequentes e acompanhamento individual, sempre que necessário. Buscamos criar um ambiente acolhedor, em que os alunos se sintam seguros para participar, fazer perguntas e compartilhar suas experiências. Dessa forma, fortalecemos a autoestima, estimulando a permanência na escola”, completa Renan.

‘Ninguém morre com um sonho’
Voltar a frequentar a escola ampliou os horizontes das alunas Isolda Weber, Leonarda Gonçalves de Sousa e Maria da Glória. Enquanto Maria e Leonarda relatam que as aulas ajudaram a desenvolver o pensamento crítico, Isolda recuperou a autoestima para se permitir sonhar com o diploma de Medicina.
A educação também contribui para pequenas conquistas do cotidiano, conforme relata a doméstica Maria Ramos Arguelho, de 71 anos, que aprendeu a ler. “Quando eu vou ao mercado, agora consigo ler os rótulos, ver o que está vencido, ler os preços. Antigamente, eu comprava sem saber.”
Já a estudante Raquel Martins, de 50 anos, enxerga na educação uma oportunidade de criar conexões, conquistar uma carreira e tirar a tão sonhada CNH (Carteira Nacional de Habilitação). “Eu tô estudando pra tirar minha carteira de motorista, porque o meu sonho é ter uma carteira de motorista pra ter meu carro. Não sei se eu vou conseguir fazer faculdade, mas eu pretendo ir até onde eu conseguir. Eu quero achar um lugar que eu possa estudar mais, trabalhar mais e ser mais importante.”
A aluna Eliane Biscola, de 74 anos, voltou a frequentar a EJA em 2025, após enfrentar problemas graves de saúde. Para ela, entrar novamente na sala de aula representa resiliência e garra de perseguir seus sonhos. “Voltei a frequentar o EJA porque eu tenho um grande sonho e ninguém morre com esse sonho, porque nunca é tarde.”

‘Quero ser gente estudada’
A vontade de “ser gente estudada” é o que mantém a motivação de quem não teve a oportunidade de seguir o caminho da educação, mas que reconhece que esse é um caminho transformador, capaz de fazer a diferença na vida das pessoas. É o caso do idoso Leopoldino Rodrigo dos Santos. “Para mim, isso aqui é uma terapia. É muito gratificante. Se Deus permitir, quero crescer no futuro, ser gente estudada.”
A estudante Ana Lúcia Braga, de 39 anos, compartilha do mesmo sentimento e relata que, graças às aulas, ela superou suas dificuldades na comunicação, ganhou mais confiança e passou a enxergar novas possibilidades para o futuro. Ela afirma que está determinada a concluir os estudos, se profissionalizar e garantir um futuro melhor para os filhos.
“Eu amo gastronomia! Tem vários cursos que eu pretendo fazer e creio que eu vou conseguir chegar lá através dos meus estudos e ter uma rendinha melhor, para eu dar uma educação melhor pros meus filhos, porque hoje eu vejo que o estudo faz falta na vida da gente.”
A mesma motivação está presente na estudante Lilian Andrielly Matos, de 33 anos, que decidiu não deixar a sua deficiência visual ser um empecilho para seus planos. “Voltei a estudar esse ano porque sempre tive vontade de terminar os estudos. Ter baixa visão não vai me atrapalhar a realizar o meu sonho. Tá sendo muito bom, uma experiência muito boa.”

Medalha Paulo Freire
A Medalha Paulo Freire é uma iniciativa do MEC (Ministério da Educação) com o intuito de reconhecer, valorizar e estimular projetos educacionais inovadores, desenvolvidos pelas redes públicas de ensino, com foco na superação do analfabetismo no país. São reconhecidos os municípios que desenvolvem práticas relevantes que contribuam para a qualificação da EJA, fortalecendo as políticas educacionais nos territórios.
Entre os critérios para concorrer à medalha, as secretarias de educação devem aderir ao Pacto EJA e registrar aumento no número de matrículas na modalidade, conforme a comparação entre os dados do Censo Escolar de 2024 e 2025 (no caso da premiação de 2026). Além disso, as concorrentes precisam alcançar boa pontuação no IEA (Índice de Esforço de Alfabetização) e no IEQ (Índice de Esforço de Qualificação da EJA).
A premiação prevê a concessão de medalhas em bronze, produzidas pela Casa da Moeda, destinadas às 20 secretarias de educação contempladas, além de apoio financeiro no valor de R$ 200 mil por meio do PAR (Plano de Ações Articuladas).

Município receberá R$ 200 mil do governo federal
Conforme o secretário-adjunto de Educação de Ribas do Rio Pardo, Valdeir Bonato, a conquista coroou o trabalho em conjunto realizado pelas três instituições de ensino em parceria com a prefeitura municipal. Bonato expressa que investir em políticas públicas de inclusão é garantir um futuro melhor às pessoas que, por diferentes circunstâncias, não tiveram a oportunidade de estudar na idade adequada.
“Hoje, com as nossas políticas dentro do município, a gente vê uma grande vantagem desses alunos estarem dentro da sala de aula. Eu fico gratificado em ver o empenho desses alunos que trabalham no dia a dia, alguns com serviços braçais duros, e à noite estão lá [estudando]”, declara Bonato.
O secretário-adjunto detalha que os alunos recebem apoio com transporte, merenda e kit escolar; portanto, o montante de R$ 200 mil será fundamental para ampliar ainda mais as ações de apoio aos estudantes. “A gente pretende investir em infraestrutura, materiais pedagógicos de qualidade para os alunos, transporte, para os alunos terem um melhor rendimento durante as aulas”, finaliza.
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(Revisão: Nichole Munaro)







