Aos cinco anos, Sophie Emanuelle Viana brincava em frente de casa quando, em um acidente, o portão caiu em cima da frágil cabecinha dela. A família toda correu para ajudá-la. Depressa, a pequena foi levada à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) e acabou na Santa Casa de Campo Grande, onde recebeu alta. Quatro dias depois, Sophie morreu com hemorragia no cérebro — não identificada anteriormente por falta de exames, avaliam familiares.
Antes da morte, no hospital, como quem clama por socorro, a criança arrancou tufos do cabelo ao sofrer com dor intensa. De tanto inchaço, os olhos não abriam. “Não estou conseguindo te ver, titia, quero te ver”, pediu a menina, nos últimos momentos de vida, em um dos leitos da Santa Casa. Tudo isso ocorreu entre os dias 25 e 29 de maio de 2025. Mais de um ano depois, a família ainda aguarda respostas.
Ainda mais jovem, o bebezinho Caleb Montalvão Milano perdeu a vida aos três meses. Antes de nascer, ele já carregava o diagnóstico de cardiopatia congênita, uma alteração na estrutura do coração que surge ainda no útero. Por sorte, pensava a mãe e enfermeira Gabrielle de Souza Montalvão, Caleb veio ao mundo em Campo Grande, onde a Santa Casa é referência no tratamento da doença.
Assim, quando faltou ar ao bebê no dia 9 de maio de 2023, ela não pensou duas vezes antes de levá-lo ao hospital. Todo roxo e juntando as últimas forças para respirar, Caleb sofreu oito paradas cardíacas antes de morrer, no dia 11 de maio. Desses três dias, o cardiopediatra demorou quase 48 horas para avaliar a criança, enquanto a mãe pedia a presença de especialistas e implorava por uma cirurgia.
Sophie e Caleb não são os únicos. As duas famílias procuraram a Justiça, acusando a unidade de saúde de negligência. Com profissionais sobrecarregados e a recorrente falta de recursos, que parece ter virado problema crônico do maior hospital de Mato Grosso do Sul, a Santa Casa de Campo Grande acumula relatos de mortes evitáveis e supostas faltas de tratamentos adequados a pacientes.
‘Não devia ter tido alta’
Ao falar de Sophie, a mãe, Maria Aparecida Viana Pio, se lembra de uma menina sorridente e vaidosa. Ela gostava de se maquiar e pintar as unhas. Na escola, era descrita como “inteligentíssima” e, em casa, arrancava sorrisos dos partentes e gostava de dançar. “Era a alegria da família”, diz Maria, ao lado das duas tias da criança, que vestem uma camiseta com o rosto de Sophie estampado.


Inclusive, no dia 25 de maio do ano passado, ela brincava de manicure na penteadeira do quarto, com uma coleguinha, antes de sair para a calçada, onde a família estava reunida. Lá, elas puxaram o portão, a grade saiu do trilho e caiu em cima de Sophie. “Minha irmã ergueu ela e a gente viu que estava sangrando. No mesmo momento, a gente já foi às pressas para a UPA”, explica Maria Pio.
Lá, a demanda foi de vaga zero para o hospital de referência em trauma. “Não demorou nem 20 minutos e a gente já estava na Santa Casa. Ela estava acordada, sentindo dor e chorando”, relata a mãe. Chegando no hospital, segundo a família, a médica plantonista disse que não precisava de tomografia. “Fez raio-x, avaliou que não tinha fratura e liberou”. Com a alta em mãos, mãe e filha voltaram para casa já de madrugada.
No dia seguinte, Sophie acordou vomitando, com dor, febre de 39ºC e o rosto inchado. De novo, mãe e filha correram para o único recurso que conheciam: a Santa Casa. “Vamos para lá, porque ela não devia ter tido alta”, disse Vailza Viana, tia da criança, à época. Elas entraram no Pronto-Socorro apresentando a comprovação de que tinham saído do hospital havia poucas horas. Sophie foi internada e colocada em observação.
Inchaço na garganta calou a dor de Sophie
Então, no dia 26 de maio de 2025, a pequenina passou por tomografia, que constatou sangramento na cabeça. “Só que o médico avaliou e falou que não era importante, então manteve ela só em observação. Minha filha só foi piorando”, lembra Maria Pio. Ela só sairia do hospital três dias depois, já sem vida.
No dia 28, a equipe de saúde decidiu tirar Sophie Emanuelle da área de emergência e levá-la ao quarto. “Ela já estava aparentemente bem para eles. Porém, ainda tinha uma hemorragia no cérebro, estava com o rosto totalmente inchado e roxo, não conseguia abrir o olho”, desabafa a mãe. Maria percebeu que algo estava errado e chamou as enfermeiras, mas elas disseram que o inchaço seria normal pela pancada.
Foi no quarto que a menina, com dor, arrancou tufos de cabelo da cabeça. Primeiro, ela pediu ajuda, mas a garganta também começou a inchar, até tirar a voz de Sophie. “Ela gemia e chorava”, diz a mãe. As visitas médicas ocorriam uma vez por dia e a equipe nem sempre atendia aos chamados da família, alegando que estava ocupada ou na troca de plantão. Para diminuir o sofrimento, receitaram morfina.

Sophie morreu após sangrar por 10 horas
Às 5 horas do dia 29 de maio de 2025, os gemidos de Sophie acordaram Maria. “Acendi a lanterna do celular e vi que estava escorrendo [sangue]. Como estava com hemorragia há quatro dias, [o sangue] já não tinha mais onde ficar e começou a sair.”
Lençóis se molharam de sangue, mas a Santa Casa não tinha outros disponíveis para trocar. Assim, a tia da menina precisou levar uma bolsa de panos para substituir a roupa de cama.
“A cada cinco minutos, eu tinha que trocar, porque encharcava de novo”, lembra-se Maria Pio, mãe da garota. Exausta de esperar, enquanto assistia à filha morrer à míngua, ela andou pelos corredores pedindo ajuda. “Achei uma doutora, que foi a primeira a se preocupar realmente. A médica chegou no quarto, viu a situação dela e falou que precisaria levá-la à emergência.” Sophie sangrou no quarto por mais de dez horas.

Os dedos da menina já estavam gelados e não era possível medir a oxigenação. Ela foi sedada para passar por outra tomografia e nunca mais acordou. Quando Sophie finalmente foi para a mesa de cirurgia, já era tarde. Mãe e tia subiram e desceram as escadas da Santa Casa em desespero, enquanto a criança sofria paradas cardíacas e os médicos tentavam operar a cabecinha dela.
Autópsia revelou a causa da morte
Quando recebeu a notícia da morte, Maria caiu no chão de um dos frios corredores do hospital, em um canto. O médico ficou mais de 40 minutos segurando as mãos da mãe enlutada, em apoio. “Não tive forças para questionar nada”, diz.
Quando Maria Pio perdeu as forças, Vailza Viana, tia da criança, precisou lutar pela verdade. Ao buscar a certidão de óbito, foi informada de que a causa oficial seria infarto. “Uma criança de 5 anos? Não, eu jamais aceitaria esse laudo”, detalha Vailza. Ainda atordoada pela morte da menina, a tia foi à delegacia, registrou boletim de ocorrência e pediu uma autópsia.

“O exame do Imol [Instituto de Medicina e Odontologia Legal] constatou que ela não faleceu por parada cardíaca. Ela faleceu diante de uma hemorragia no cérebro. A mesma que os médicos viram e falaram que não era importante”, desabafa Maria Pio, mãe de Sophie.
O que diz a Santa Casa?
Questionada pelo Jornal Midiamax sobre relatos de demora no atendimento e falta de acolhimento na época que a reportagem foi feita, antes da prisão da então presidente da Santa Casa, Alir Terra, ela afirmou que o hospital possui uma área de qualidade responsável por acompanhar a passagem dos pacientes pela instituição e receber avaliações durante e depois da internação.
Segundo ela, as reclamações são analisadas e levadas às equipes para corrigir problemas identificados. Alir ponderou, porém, que a Santa Casa possui mais de 700 leitos, considerando as áreas pública e privada, e que os profissionais precisam priorizar os casos mais graves.
“Muitas vezes, a pessoa está atrás de algo naquele exato momento em que um médico está numa emergência e o caso do outro é de morte”, afirma. Segundo a ex-presidente, a administração do hospital não interfere nas decisões assistenciais e os médicos devem seguir os protocolos de atendimento.
Alir também afirma que todos os óbitos ocorridos na Santa Casa passam por uma comissão interna. Segundo ela, as mortes são analisadas para que o hospital possa prestar informações aos órgãos responsáveis pelo acompanhamento dos casos.

Cadê o especialista?
Dois anos antes do maior pesadelo das vidas de Maria Pio e Vailza Viana, foi a vez de Gabrielle de Souza Montalvão perder as forças em outro corredor da Santa Casa de Campo Grande, vista anteriormente com esperança pela enfermeira, especialista em saúde da família. Antes do sofrimento, no último ano de faculdade, Caleb chegou como uma surpresa na vida dela. “Eu experimentei o amor incondicional de uma mãe”, lembra.
Em um dos últimos exames de pré-natal, ela descobriu que o bebê tinha uma má formação no coração. A cardiopatia congênita afeta um a cada 100 nascidos vivos e é considerada grave. Assim, o diagnóstico caiu como uma bomba para a enfermeira, que se apressou para buscar os melhores caminhos.
“Nessas buscas, tive a errônea informação de que a Santa Casa seria um centro de referência em cardiopatia congênita. Inclusive, recebe repasses federais especiais por isso, então, teria condições de receber meu filho. Me aliviei”, explica Gabrielle. Ela classifica a informação como “errônea”, porque considera que a unidade de saúde não consegue, de fato, atender esse público.
O parto foi o primeiro contato da mãe e do bebê com o hospital. Quando sentiu as contrações, foi à Santa Casa, mas pediram que a gestante esperasse até o dia seguinte, por falta de um especialista: o cardiopediátra, que voltaria a se ausentar quando o bebê mais precisaria, antes de morrer. “Eu fiquei um dia a mais em trabalho de parto ativo por conta de um profissional que tinha acabado de ir embora. Só tinha ele”, lamenta.



‘Eu sofri violência obstétrica’
Gabrielle aguentou firme e suportou mais um dia de contrações. Em seguida, Caleb Montalvão Milano nasceu, em 26 de janeiro de 2023, na Santa Casa de Campo Grande, após 36 semanas de gestação, com 3,4 kg. “Ou seja, uma criança normal, somente com o defeito no coraçãozinho”, explica a mãe.
O tal especialista, tido como muito necessário para o parto, nem sequer entrou no centro cirúrgico para acompanhar a cesareana. Como já era esperado por conta da cardiopatia, assim que Caleb nasceu, ele precisou da ajuda de aparelhos para respirar e foi encaminhado à UTI (Unidade de Tratamento Intensivo). Gabrielle ficou de fora, podendo vê-lo apenas no horário de visitas.
“Até onde eu sabia, a mãe tem o direito de ficar com a criança em qualquer ambiente. E as minhas colegas de São Paulo, que têm acesso aos grandes centros de referência, falaram que eu podia ficar tranquila, porque realmente o Caleb iria à UTI, mas eu teria o direito de ter contato e até amamentar. Foi outra decepção. Eu sofri violência obstétrica”, afirma Gabrielle Montalvão.



‘Meu filho estava em sofrimento’
Entre janeiro e maio de 2023, Gabrielle viveu o sonho da maternidade, sempre com cuidados redobrados para que o pequeno bebê não contraísse nenhuma doença. “A gente conseguiu viver belos dias, e é dessa forma que eu tento me lembrar dele. Assim foi até o horrível dia 9 de maio.”
O cardiopediatra, cuja ausência atrasou o parto em um dia, continuou acompanhando Caleb no consultório particular até 4 de maio de 2023.
No dia 7, o bebê sofreu uma crise de hipóxia — condição em que o oxigênio que chega às células é insuficiente para manter as funções vitais. Caleb ficou roxo e gemendo. “Acho que qualquer mãe ficaria louca naquele momento”, descreve Gabrielle. A saturação normal de uma pessoa é 96%, mas o bebê saturava 45%.
Eles tinham plano de saúde, mas a mãe confiou que a Santa Casa teria mais recursos, por ser um centro de referência, e foi ao hospital. “Erroneamente, eu pensei: ‘Lá é o único centro de referência em cardiopatia congênita em Mato Grosso do Sul. Se lá não tiver alguém para me receber, nenhum lugar vai ter'”, explica ela sobre a decisão. No entanto, Gabrielle não demorou a se arrepender disso.
Ela relata que o tratamento com oxigênio não foi iniciado imediatamente, mesmo com o bebê sem ar nos pulmões. “Passaram-se horas e o meu filho estava em sofrimento. Foi negligenciado”, denuncia. Ele só entrou no oxigênio após Gabrielle segurar uma enfermeira pelos dois ombros, fitar os olhos dela e dizer: “Olha o meu filho”. Até então, os sobrecarregados profissionais não tinham parado para, de fato, avaliar Caleb.



A angústia da espera
Depois de Caleb receber oxigênio, Gabrielle continuou preocupada. Como enfermeira e mãe de uma criança cardiopata, ela sabia que o problema poderia estar no coração. Por isso, começou a fazer uma pergunta que repetiria durante quase dois dias: “Cadê o cardiopediatra?”.
A resposta que Gabrielle recebeu foi que o cardiopediatra não iria ao hospital naquele dia, um domingo, e responderia às dúvidas da equipe por mensagem. “Não é assim que plantão funciona”, rebateu a enfermeira.
Durante aquele 7 de maio de 2023, Gabrielle procurou pediatra, enfermeira, assistência social, ouvidoria, SAC (Serviço de Atendimento ao Consumidor) da Santa Casa e até jornalistas. Segundo a mãe, a resposta era sempre que o hospital estava verificando e que ela deveria ter calma. Do outro lado, Caleb sofria. “Ele estava sufocando, estava roxo, literalmente perdendo o ar. Ele gemia, não conseguia nem chorar”, lembra Gabrielle.
Já no dia 8 de maio, véspera da morte de Caleb, ele foi levado à UTI e até apresentou melhora. Gabrielle voltou a perguntar pelo especialista e ouviu que o profissional iria ao hospital no fim da tarde, depois dos atendimentos no consultório particular — o mesmo onde o bebê fazia acompanhamento.


“Já tem quase 48 horas que meu filho está aqui sem a visita de um cardiopediatra. Ele foi diagnosticado no útero. O que valeu? Do que valeu esse exame que fiz tão precocemente? Do que valeu tanta informação se vocês não seguem nada?”, questionou.
Ela tentou levar outra cardiopediatra, sem vínculo com a Santa Casa, para avaliar o bebê, mas diz que a entrada foi impedida.
Quando o cardiopediatra finalmente chegou ao hospital, disse que avaliaria outros pacientes primeiro. Depois, falou que precisava da avaliação da equipe cirúrgica, mas que isso só ocorreria no dia seguinte. “Vocês são o hospital de referência. Se meu filho precisa de um procedimento cirúrgico, ele tem que ir para a cirurgia agora”, Gabrielle lembra de ter respondido, após ouvir que precisaria esperar mais.
Oito paradas cardíacas
Na manhã do dia 9 de maio, a mãe voltou ao hospital esperando encontrar uma definição sobre a possível cirurgia. Em vez disso, recebeu a notícia de que Caleb havia piorado e precisou ser entubado. Uma médica intensivista avisou que o quadro era grave e que Caleb poderia sofrer uma parada cardíaca. Cerca de uma hora depois, aconteceu a primeira.
As paradas cardíacas se repetiram. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito vezes. Por volta das 16h, a intensivista se aproximou de Gabrielle. “Mãe, eu parei de contar. Eu parei de contar quando deu oito. Não sei mais quantas paradas cardíacas o Caleb já teve”, teria dito.
A equipe pediu que Gabrielle deixasse a porta da UTI, mas ela se recusou. Ficou sentada em um banco de pedra ali mesmo. A mãe também se recusou a despedir-se do filho, como uma enfermeira sugeriu. “Cadê a cirurgiã? Bota meu filho em uma mesa de cirurgia, eu assino o papel que for. Intervenha, algo aconteceu. Não é um número, não é um corpo, é o meu filho. É o Caleb”, apelou, em desespero.
‘Ele tinha chances e vocês não deram nenhuma’

À noite, Gabrielle voltou à Santa Casa. Caleb já havia sofrido incontáveis paradas cardíacas e passou por outro eletrocardiograma. Depois, a equipe disse que não havia mais o que fazer. Mais tarde, a mãe pôde entrar na UTI e ver uma das últimas tentativas de reanimação. Ela entrou em pânico ao ver que o pequeno bebezinho sangrava pela boca e pelos ouvidos ao lutar para continuar vivo.
Do lado de fora, poucas horas depois, ela recebeu a confirmação da morte, também em um corredor. “Não era para ele ter chegado nessa situação. Meu filho chegou saturando, vivo, não precisou ser entubado. Ele tinha muitas chances de vida e vocês não deram nenhuma”, bradou Gabrielle, aos prantos, ao ouvir a notícia.
Caleb foi enterrado no dia seguinte. Depois do sepultamento, Gabrielle voltou à Santa Casa para buscar prontuários, laudos e outros documentos médicos. A mãe diz que encontrou resistência para obter os papéis, mas se recusou a deixar o hospital sem eles, até que recebeu os documentos.
O que diz a Santa Casa?
Ao Jornal Midiamax, a ex-presidente da Santa Casa defendeu a capacidade técnica do hospital e destacou que a instituição mantém 18 programas de residência médica. Segundo Alir Terra, a Santa Casa tem cerca de 130 médicos residentes, distribuídos em áreas como cardiologia, cirurgia, neonatologia e pediatria.
“Não é só atender o paciente, colocar um médico. Você tem que ter um médico com formação”, afirmou. Alir disse que a formação de especialistas é uma das principais contribuições da instituição à saúde de Mato Grosso do Sul.
Alir atribui parte das dificuldades enfrentadas pela instituição à sobrecarga e à falta de recursos. Segundo ela, o aumento da demanda eleva a necessidade de profissionais, medicamentos e outros insumos, sem que o contrato acompanhe o crescimento das despesas. “A defasagem da tabela SUS é o ponto central”, afirmou.
A presidente também disse que os profissionais seguem protocolos assistenciais e critérios de prioridade clínica, sem interferência da direção administrativa. “São vidas. A parte administrativa do hospital não interfere na parte assistencial”, segundo Alir Terra.




Luto virou luta por justiça
Depois de enterrarem Caleb e Sophie, as famílias seguiram caminhos parecidos: reuniram documentos, procuraram autoridades e transformaram o luto em luta por justiça.
Gabrielle voltou à Santa Casa logo depois do sepultamento do filho para buscar laudos e prontuários e, com os papéis em mãos, entrou com ação judicial. A mãe também passou a usar a própria história para ajudar outras famílias de crianças cardiopatas, por meio do Instituto Um Só Coração, voltado a orientar outras mães com dificuldades parecidas na busca por atendimento.
No caso de Sophie, a mobilização começou já na madrugada da morte, quando Vailza se recusou a aceitar a causa do óbito inicialmente apresentada e pediu que o corpo fosse submetido à necropsia. No dia seguinte, a família registrou boletim de ocorrência. Depois do enterro, uma publicação sobre o caso ganhou repercussão e parentes foram juntos à Câmara Municipal cobrar respostas e responsabilização.
A família de Sophie prestou depoimentos à Polícia Civil e ao Ministério Público, acompanhada por advogados. O caso também passa por análise no CRM (Conselho Regional de Medicina), mas, mais de um ano depois da morte da menina, os parentes ainda aguardam respostas.
Médico confessa negligência
Aline Silva* também saiu da Santa Casa com mais perguntas do que respostas. A avó dela, Maria Silva*, foi transferida da UPA ao hospital por volta das 16h de uma segunda-feira, em 2025, com insuficiência pulmonar. A filha da idosa acompanhou o trajeto de ambulância, mas foi impedida de entrar no Pronto-Socorro. Do lado de fora, ela passou horas tentando descobrir o estado de saúde da mãe.


Nenhum médico apareceu para explicar o quadro. Um enfermeiro informou apenas que Maria precisava de uma vaga na UTI, mas não havia leito disponível. Horas depois, a filha foi orientada a deixar o hospital e retornar às 10h do dia seguinte. “Houve omissão de informações para a própria família a todo tempo, inclusive sobre o estado real da minha avó”, denuncia Aline.
Durante a madrugada, a família recebeu uma mensagem do SAC da Santa Casa perguntando se aquele telefone pertencia a um familiar de Maria. Depois da confirmação, pediram que fossem ao hospital para conversar com um médico. “Não houve nenhum tipo de sensibilidade na mensagem ou qualquer tentativa de contato por telefone”, relata Aline.
Na manhã seguinte, os parentes voltaram à Santa Casa. Primeiro, tiveram o acesso impedido no Pronto-Socorro. “Com o coração em mãos, caminhamos até o SAC”, lembra Aline. No local, foram orientadas a aguardar e, pouco depois, levadas de volta ao Pronto-Socorro. Ali mesmo, perto de pessoas desconhecidas, a família recebeu a notícia da morte.
O portador da notícia era quem assumiu o plantão, não o mesmo profissional que realizou o atendimento de Maria. Após saber sobre o falecimento, a família não teve tempo nem de processar o luto, pois a burocracia já havia chegado. A instituição pediu a assinatura imediata de um familiar para liberação do corpo e do espaço no hospital.
“O médico que falou para a família sobre o falecimento deixou muito claro que houve negligência no atendimento da minha avó: ‘Jamais deixaria a família ir embora e não ser informada do real estado do paciente’, palavras dele que ficaram marcadas, já que foi exatamente o que aconteceu conosco”, relata a neta. Ele disse, ainda, que Maria sofreu duas paradas cardiorrespiratórias e que já a tinha encontrado sem vida.
Quase um ano sem respostas
O mesmo médico informou que Maria Silva* teria morrido por volta das 21h, pouco depois de a filha ser orientada a ir para casa. Já nos documentos apresentados à família, o horário do óbito constava como 23h. “Informações desencontradas, falta de credibilidade exposta”, resume Aline.
Depois da morte, ela procurou o SAC para descobrir quem havia atendido a avó, mas afirma que teve informações negadas e dificuldade para acessar a ouvidoria. Agora, a família busca respostas sobre o que aconteceu entre a entrada na Santa Casa e a notícia da morte. Quase um ano depois, nenhuma explicação.
“Negação de informação para a família, omissão do quadro real de saúde de um paciente para parente de primeiro grau, não acompanhamento de idoso com estado avançado de doenças, atraso na hora de informar o falecimento, falta de protocolo ou uso dele para informar a família sobre o falecimento, nenhum atendimento humanizado”, enumera Aline.
O que diz a Santa Casa?
Os relatos das três famílias contrastam com o protocolo descrito pela presidente da Santa Casa. Segundo Alir Terra, o SAC funciona 24 horas para atender pacientes e familiares, enquanto a comunicação de uma morte é feita sempre presencialmente, pelo médico responsável pelo atendimento.
“Ele não é feito no corredor, ele não é feito por telefone, ele é feito presencialmente”, afirma a presidente. Segundo ela, a Santa Casa possui uma sala destinada à comunicação do óbito e também oferece apoio espiritual aos familiares, conforme a religião de cada pessoa.



Alir Terra afirmou que a área de qualidade acompanha o atendimento na instituição, recebe as informações encaminhadas pelo SAC e realiza pesquisas por amostragem com pacientes durante e depois da internação. “A responsável pela qualidade traz e mostra para a equipe, e a gente vai aparando as arestas”, explicou.
A ex-presidente reconhece que problemas podem ocorrer dentro da instituição, mas afirma que as falhas precisam ser consideradas diante do tamanho e da complexidade do hospital. Segundo ela, a Santa Casa atende milhares de pacientes e enfrenta uma sobrecarga agravada pelas dificuldades financeiras do sistema público de saúde.
“Acontece? Acontece. Não tem como não acontecer”, afirmou Alir Terra, ao comentar as reclamações recebidas pelo hospital. Para ela, parte das queixas também decorre da diferença entre a percepção dos familiares e a dinâmica de prioridade dos atendimentos.
Ao defender a instituição, Alir Terra afirmou que os problemas enfrentados pela Santa Casa estão inseridos em uma crise mais ampla do sistema de saúde. “A Santa Casa está inserida nesse contexto e nós estamos fazendo todos os processos necessários para que possamos levar uma saúde de qualidade, a tempo e a hora, para a população de Mato Grosso do Sul”, concluiu.









Ala vermelha: no limite da emergência
O Jornal Midiamax publica nesta semana uma série de reportagens especiais sobre a Santa Casa, aprofundando-se nas problemáticas que compõem o hospital de referência em Mato Grosso do Sul.
Com casos de alta e média complexidade, a instituição cura e salva vidas. Porém, no meio do caminho, a rotina do hospital também pode adoecer quem presta o atendimento. Camadas de dor — dos profissionais, dos pacientes e das famílias dos que já partiram dentro do hospital — se entrelaçam, formando parte da característica de ser uma instituição de alta complexidade.
*Nomes fictícios usados para sigilo das fontes, previsto pelo artigo 5°, inciso XIV, da Constituição Federal de 1988.
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(Revisão: Nichole Munaro)






