Quando a Rua 14 de Julho voltou a ser ocupada para além do horário comercial convencional, no fim de 2023, muito se discutiu sobre os projetos que poderiam funcionar como incentivo aos empresários dos setores de gastronomia e cultura que decidiram investir tempo e dinheiro no coração de Campo Grande. Afinal, muitos frequentadores já afirmavam que a sensação de insegurança na região aumentava justamente quando o comércio fechava as portas e as centenas de funcionários iam embora.
E, na teoria, a iniciativa de ‘lotar’ o Centro nesse terceiro turno parecia bastante vantajosa para sanar ao menos essa queixa. Afinal, se tem gente na rua, tem vida, e se tem vida, há mais segurança. E isso funcionou por um tempo, apesar de alguns percalços.
O que parecia ser um alento até para os empresários mais resistentes de lojas tradicionais do Centro, que há anos cobravam por mais segurança e investimento na região, não aconteceu. Lojas e mais lojas continuaram fechando as portas. Tanto que não é difícil caminhar pela Rua 14 de Julho (ou ruas vizinhas) e encontrar vitrines estampando placas de ‘vende-se’ ou ‘aluga-se’.
Essa descentralização, claro, não se deve a um fator isolado. Além da insegurança, deve-se considerar que muitas pessoas já não enxergam o Centro como principal polo comercial da cidade, além do avanço do e-commerce, que ainda compete com o comércio fervoroso dos bairros de Campo Grande.
Inúmeros fatores impactam o setor produtivo
Segundo o presidente da ACICG (Associação Comercial e Industrial de Campo Grande), Omar Aukar, o empresário do Centro enfrenta os mesmos desafios que impactam o setor produtivo de forma geral, como juros elevados, dificuldade de acesso a capital de giro, custos operacionais e as mudanças trazidas pela reforma tributária.
Porém, existem questões específicas da região central de Campo Grande que aumentam a dificuldade para manter uma operação competitiva, como a falta de segurança, de organização, de zeladoria urbana e de estímulo à ocupação do Centro.
“Pontuamos a falta de estacionamento rotativo, os preços elevados de aluguel em determinados pontos, as restrições para a comunicação visual e publicidade das empresas, além dos problemas relacionados à segurança, como furtos, violência e a presença constante de pessoas em situação de rua e usuários de drogas. São fatores que afetam tanto a percepção de segurança quanto a experiência de quem trabalha, mora ou circula pelo Centro”, pontua Omar.
Outro fator que o presidente da associação destaca é a mudança no comportamento do consumidor. Se antes os serviços eram acessados apenas no Centro, agora, tudo (ou quase tudo) se encontra dentro dos bairros, sem a necessidade de se locomover por muitas horas até a região central.
“Hoje, as pessoas encontram comércio, serviços, alimentação, bancos e outras facilidades cada vez mais próximos de suas casas, nos bairros, além das alternativas proporcionadas pelo comércio digital. Isso naturalmente aumenta a concorrência com a região central. Por isso, não acreditamos que exista uma única medida capaz de mudar essa realidade. É necessário um conjunto de ações para recuperar a atratividade do Centro”, relata.
Como melhorar o movimento no Centro de Campo Grande?
Entre os apontamentos feitos por Omar, estão pautas defendidas pelos comerciantes de Campo Grande há muitos anos. A proposta é melhorar o ambiente e transformar a comunicação que a região central passa aos consumidores, a fim de atrair potenciais clientes. Se as pessoas sentirem prazer em ir ao Centro, consequentemente, haverá mais vida e compras na região.
“Precisamos de um ambiente mais seguro, organizado e acessível, com soluções para estacionamento, melhoria da mobilidade, zeladoria urbana, iluminação, limpeza e ocupação dos espaços públicos. Também é importante criar condições para que o comércio possa se comunicar melhor com seus consumidores, rever regras que hoje dificultam a publicidade e a comunicação visual das empresas e discutir políticas que tornem a região mais competitiva para quem deseja investir e permanecer ali”, defende.
“Outro ponto fundamental é estimular a ocupação do Centro para além do horário comercial. Quanto mais pessoas morarem, trabalharem, estudarem, consumirem e tiverem opções de lazer na região, maior será a circulação e, consequentemente, a sensação de segurança e a vitalidade econômica do local”, acrescenta.
Em 2019, a Rua 14 de Julho foi entregue revitalizada à população. Porém, para a entidade, essa pauta não pode ser discutida esporadicamente. Ela precisa de uma agenda permanente e integrada entre Poder Público, empresários e moradores.
“Não se trata apenas de recuperar prédios ou abrir novas lojas, mas de devolver à região central a condição de ser um lugar atrativo para viver, trabalhar, empreender e consumir, pois o Centro tem uma importância econômica, histórica e cultural enorme para Campo Grande”, finaliza.
Todos os pontos abordados como melhorias pela ACICG foram questionados à Prefeitura de Campo Grande. A reportagem buscou saber como as pautas são acompanhadas e quais projetos são estudados para atender à categoria e melhorar a vida no Centro da cidade. Até o momento, as questões não foram respondidas. O espaço segue aberto para futuras manifestações.
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(Revisão: Nichole Munaro)





