Áudios interceptados pelo Gecoc (Grupo de Combate à Corrupção) revelaram que a compra de carros de luxo por diretores da Santa Casa de Campo Grande levou o conselheiro fiscal a alertar a presidente executiva Alir Terra. A provocação do dirigente deixou o núcleo gestor do maior hospital de Mato Grosso do Sul empolvoroso.
Documento que embasou a Operação Antidotum, levando Alir Terra e outras cinco pessoas para a cadeia — entre elas Rinaldo Hakme Romano (diretor financeiro do hospital), Paulo Guilherme Guttierrez Mariosa (diretor financeiro adjunto), Alessandro Dias Junqueira (diretor administrativo) e Maurício Aparecido Benites (empresário) —, revela que a evolução patrimonial de alguns investigados não passou batido nos bastidores da administração hospitalar.
Em fevereiro, Alessandro Junqueira relatou, em áudio, que teria de adiar a aquisição de uma caminhonete Ram Rampage após ser alertado por Alir Terra sobre questionamentos feitos pelo conselheiro fiscal Antônio Urban Filho.
“A Alir acabou de me falar […] o Urban ligou para ela quando viu o carro na minha vaga de garagem. Ela falou assim: ‘Mas, Urban, não é do Alessandro’. Ela não sabia que o Rinaldo tinha trocado de carro. Ele falou: ‘Está aqui’, mandou foto para ela. ‘Está aqui, ó. Se o diretor, novo desse jeito, entrou agora, tem 125 dias que ele está no cargo, e já trocou de carro… Alir, esse carro custa R$ 350 mil. Se ele não tiver outra fonte de renda, ele está roubando a Santa Casa”, teria avisado o conselheiro fiscal à presidente.
Os áudios mostram, contudo, que Alir não acolheu a reclamação. “Ela falou: ‘Urban, não, calma aí, você não está falando isso comigo’. Diz que foi o maior auê até que ele descobriu com o Alexandre que o carro não era meu e era do Rinaldo [diretor financeiro]. Mor, o pau está torando na Santa Casa ainda sobre esse carro. Eu não vou poder comprar a Rampage, não vou poder trocar de carro agora. E ainda tem mais. Tem a conversa do apartamento — está, assim, acaloradíssima dentro do hospital isso”, narrou o diretor administrativo.
Assim, para a investigação, “o áudio da gravação demonstra que Alessandro Junqueira não era estranho ao contexto das irregularidades investigadas. Ao contrário, acompanhava de perto a repercussão patrimonial envolvendo os dirigentes, sabia que havia vigilância concreta sobre a evolução de bens e modulava sua própria conduta patrimonial em razão desse escrutínio. O conteúdo reforça sua inserção no núcleo administrativo da Santa Casa e a necessidade de análise de sua movimentação financeira e patrimonial no mesmo período”.
Essenciais para execução da fraude
O relatório do Gecoc aponta que a atuação de Alessandro Junqueira e Rinaldo Romano foi essencial para a execução da fraude milionária em contrato de digitalização de prontuário.
“Ambos instauraram o procedimento de contratação da REDVALUE sem estudo técnico, termo de referência, análise de viabilidade ou demonstração de vantajosidade”, detalha o documento do Ministério Público de Mato Grosso do Sul.
Áudios interceptados pelos investigadores revelam que o diretor financeiro não apenas atuou em procedimentos administrativos regulares, como conduziu ações do empresário Maurício Benites para viabilizar o fechamento do acordo.
“RINALDO ROMANO, como Diretor Administrativo e Financeiro e gestor do contrato, recebeu do próprio MAURÍCIO BENITES a minuta do instrumento que seria firmado, participou das tratativas de pagamento, autorizou a liberação dos recursos e subscreveu documentos utilizados para sustentar a execução contratual. A atuação de RINALDO ROMANO não se limitou ao exercício regular das atribuições administrativas. Os dados telemáticos comprovaram que ele orientava diretamente MAURÍCIO BENITES sobre os atos que deveriam ser praticados para conferir aparência de regularidade ao procedimento. Em áudio encaminhado ao empresário, RINALDO ROMANO solicitou o endereço eletrônico da REDVALUE e explicou que o setor de Compras faria nova solicitação formal de orçamento às três empresas, porque “a doutora pediu para entrar pelo Compras”, relata o documento.
Para o MPMS, Rinaldo já mantinha contato direto com o beneficiário da contratação, além de conhecer previamente as três empresas que seriam acionadas, orientando a repetição formal das solicitações pelo e-mail institucional junto ao setor de compras, apenas para revestir o procedimento da aparência de regularidade administrativa.
“Rapaz, desculpa, só vi agora. Vamos, sim. Estamos ansiosos para trabalhar. Eu já cobrei já a assinatura, está tudo certo, já foi tudo. Amanhã eu vou ver como está essa questão para a gente correr com essa assinatura e já acelerar esse negócio”, disse Rinaldo a Maurício em áudio interceptado pelo Gecoc.
Para o MPMS, Rinaldo e Alessandro atuaram para tornar ainda mais favorável à RedValue o contrato milionário, mesmo diante da evidente inexecução dos serviços.
“Mesmo após a constatação da baixa execução e da ausência de comprovação dos serviços faturados, RINALDO ROMANO e ALESSANDRO JUNQUEIRA não interromperam o contrato. Atuaram para torná-lo ainda mais favorável à REDVALUE. Ambos foram responsáveis pela solicitação de termo aditivo que reduziria de três milhões para um milhão a quantidade mensal de páginas, triplicaria o preço unitário e preservaria a remuneração máxima mensal da empresa”, destaca a investigação.
A reportagem acionou a defesa de Alessandro Junqueira para manifestação. Em nota, o advogado Cauê Siqueira diz que “o diálogo divulgado não tem o alcance que se pretende atribuir”.
“Trata-se de conversa informal, de fevereiro deste ano, em que Alessandro Junqueira comenta com terceiro a repercussão interna de um episódio. Não há aí confissão, reconhecimento de irregularidade própria ou alheia, nem combinação de conduta. A leitura de que ele teria desistido de um veículo para escapar da fiscalização é interpretação do Ministério Público, não fato demonstrado. Alessandro sempre viveu de sua remuneração. Se o diálogo revela algo, é justamente o oposto do que se sustenta, profissional sem qualquer domínio sobre os órgãos de controle da instituição, que simplesmente preferiu não alimentar especulação interna. Chama atenção que recortes selecionados de material colhido unilateralmente, em fase sem contraditório, cheguem ao público antes de qualquer valoração judicial definitiva. A defesa examinará a integralidade dos elementos e demonstrará, no foro próprio, que Alessandro exerceu funções técnicas dentro dos limites das informações que lhe eram repassadas, sem participação em desvio e sem proveito de espécie alguma. Prisão preventiva não é antecipação de culpa (art. 5º, LVII, da Constituição). Ele é inocente e colaborará com o esclarecimento dos fatos”, afirmou.
Os advogados de Rinaldo Romano não foram identificados até o momento. O espaço segue aberto para manifestação.
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(Revisão: Nichole Munaro)






