“O Super El Niño deixa de ser apenas um evento climático para se tornar uma variável econômica relevante. Quando a produção agrícola perde previsibilidade, toda a cadeia produtiva passa a operar com custos maiores, maior volatilidade e mais incerteza. Isso afeta produtores, indústrias, consumidores e também as expectativas de crescimento da economia”, define o economista Hudson Garcia.
A confirmação da formação de um Super El Niño para o segundo semestre de 2026 amplia o nível de atenção sobre os impactos econômicos que eventos climáticos extremos podem provocar no Brasil e em Mato Grosso do Sul.
Para a região de MS, o agronegócio está entre os setores que mais podem sofrer com os impactos do fenômeno. Um dos principais pontos de atenção é a produção de milho.
“O milho não impacta apenas o produtor rural. Entre 65% e 80% da composição da ração animal é formada por esse insumo. Se houver redução da oferta ou aumento expressivo dos custos de produção, o efeito tende a ser repassado para cadeias como aves, suínos, leite e bovinos, chegando ao consumidor na forma de alimentos mais caros”, explica o economista, diretor de negócios da Agricon Consultoria.
Segundo o especialista, os reflexos também poderão ser sentidos na inflação. Alimentação e bebidas representam cerca de 21,5% da cesta do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), o principal indicador oficial da inflação brasileira.
“Eventos climáticos extremos dificultam o processo de controle da inflação porque provocam aumento justamente nos itens de maior peso para o consumidor. Isso pode prolongar um cenário de juros elevados e tornar as decisões de investimento mais conservadoras”, observa.
Outros impactos
Considerando a participação do agronegócio na economia estadual, os efeitos do El Niño podem ser ainda mais relevantes em Mato Grosso do Sul, já que o setor responde por aproximadamente um quarto do PIB (Produto Interno Bruto) do Estado.
Assim, o cenário reforça a necessidade de planejamento, tanto por parte do setor produtivo, quanto das empresas ligadas ao agronegócio.
“O clima passou a fazer parte da gestão econômica. Empresas, cooperativas e produtores precisam incorporar os riscos climáticos ao planejamento financeiro, aos investimentos e às estratégias de produção. Cada vez mais, competitividade também significa capacidade de adaptação”, destaca.
Segundo ele, embora seja impossível controlar eventos climáticos, é possível reduzir seus impactos por meio de investimentos em tecnologia, gestão de riscos, inovação e diversificação das atividades econômicas. “O desafio é transformar informação em planejamento. Quem consegue antecipar cenários, diversificar riscos e aumentar sua eficiência tende a enfrentar períodos de maior instabilidade com muito mais resiliência”, conclui o economista.
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