Sob o sol escaldante e os 33°C registrados em Campo Grande na tarde desta quinta-feira (8), uma cena que deveria fugir do cotidiano, mas retrata a crescente ocupação da população em situação de rua na Capital, chama a atenção de motoristas e pedestres no cruzamento das avenidas Guaicurus e Gury Marques, vias importantes que ligam a região das Moreninhas a outras áreas da cidade.
No canteiro central da Avenida Guaicurus, logo abaixo da torre de transmissão, um barraco improvisado com sacos plásticos, mantas e pedaços de MDF se tornou o “teto” de Ana*. A própria torre de transmissão também ganhou outra função: virou um varal improvisado.
Ao ser abordada pela reportagem, a mulher tirava um cochilo dentro da moradia improvisada. Apesar do vento que soprava no local, o espaço estava bastante quente e desconfortável. Aos poucos, conforme conquistava a confiança da mulher, a reportagem ouviu sua história.
*Para não identificar a vítima, a reportagem optou por utilizar um nome fictício na matéria.

Ana relata que vive há quatro anos nas ruas de Campo Grande, migrando de região para região, e está há cerca de três meses no local onde o barraco foi instalado. A mulher conta que foi vítima de violência doméstica e, por isso, fugiu do ex-companheiro. Antes de ficar totalmente desamparada, chegou a morar por algum tempo na casa do pai.
No entanto, após a morte dele, a irmã vendeu a casa e Ana acabou indo parar na rua depois de um tempo. Ela diz que a vida nas ruas é difícil, ainda mais sendo mulher e sozinha. “Não é fácil, não [viver na rua], ainda mais com os perigos em que você se coloca”, explica. Questionada se já sofreu alguma violência, a mulher resumiu: “Sim, de ex-parceiros”.
Uma das violências sofridas, inclusive, deixou seu sorriso marcado, após perder um dente devido a um episódio de agressão. “Ele me deu um soco, o dente ficou mole, aí ele foi amolecendo, amolecendo, e um dia fui escovar e caiu.”

Ana conta, ainda, que tem duas filhas, de 2 e 6 anos, que estão sob os cuidados da irmã, em outro estado. Questionada se a irmã sabia das condições em que se encontra, explicou que perdeu o contato com a família e não possui celular para contatá-los. Ana também está sem os documentos, pois foi furtada depois de ir parar na rua.
Ela expressa que precisa regularizar sua documentação para resolver a situação dos benefícios sociais que recebia, mas que foram cortados devido à falta de atualização no cadastro.
Para Ana, ter os documentos novamente é o primeiro passo para conseguir os auxílios de volta e um aluguel social, que permitiria a ela ter uma moradia. Ela também almeja um dia poder voltar a trabalhar como balconista, função que desempenhava antes de ir parar na rua.
“O que eu preciso agora é dos meus documentos, pra conseguir um auxílio e uma casa. Eu quero voltar a trabalhar e sair das ruas. Se eu tiver meus documentos logo, eu vou sair daqui. Eu guardei ele [o dente], porque se tiver o dente, sai mais barato o serviço no dentista. O sorriso é importante para o atendimento ao público”, resume.

Segundo Ana, ela chegou a receber visitas da SAS (Secretaria Municipal de Assistência Social), mas recusou-se a ir para o abrigo. A última visita teria ocorrido, de acordo com a mulher, há cerca de um mês. “Eu já falei que só saio daqui se for pra uma casa.”
A reportagem procurou a SAS para questionar a respeito da regularização dos documentos da mulher, além dos demais serviços de amparo que podem ser oferecidos para ajudá-la a conseguir emprego e sair das ruas, e aguarda retorno.
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(Revisão: Nichole Munaro)








