No bairro Tiradentes, em Campo Grande, surgia, em 1999, um menino humilde, de família simples, mas com um sonho grande: tornar-se jogador de futebol profissional. Éderson José dos Santos Lourenço da Silva via no esporte a chance de elevar sua vida a outro patamar e trabalhar com o que amava, que sempre foi o futebol.
Engana-se, porém, quem pensa que seu caminho para chegar à elite do esporte foi fácil. Hoje convocado para a disputa da Copa do Mundo de 2026, o campo-grandense chegou a pensar em desistir do futebol ainda na infância, foi rejeitado em testes em clubes grandes e enfrentou os desafios de quem tenta ser jogador de futebol em um estado com baixo investimento no esporte.
O jovem começou a treinar por volta dos seis anos no Instituto Bola de Ouro — na época, ainda chamado de Escolinha Bola de Ouro —, segundo contou o treinador Jairo César. “A vida toda ele morou aqui na região [Tiradentes]. Pequenininho, começou aqui com seis anos com a gente, foi até os 12 anos”, relembrou Jairo.
Na época, as acadêmicas de Jornalismo na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) Raphaela Potter e Cláudia Camargo realizaram um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) sobre as categorias de base do futebol em MS. Éderson já era destaque entre os jovens e foi um dos principais personagens do documentário produzido.
Estado de poucas oportunidades
Atualmente repórter do SporTV, Raphaela Potter tinha a ideia inicial de fazer um trabalho sobre o Operário Futebol Clube, mas mudou de tema e escolheu produzir um documentário sobre a formação dos jogadores. “Eu sempre gostei da base, porque eu sempre identifiquei naqueles meninos uma força, um sonho, e eu sabia que era muito difícil”, contou em entrevista ao Jornal Midiamax.
Éderson enfrentou as dificuldades de tentar seguir o sonho de ser jogador mesmo em um estado com baixo investimento no esporte e com clubes de menor relevância no cenário nacional. “Eu pensei: ‘Se já é difícil em um grande centro, imagina para meninos que moram em Campo Grande, em Mato Grosso do Sul'”, explica Raphaela.
Comprometido, tímido e sonhador

O técnico Jairo relembra que Éderson era muito comprometido e não faltava nenhum treinamento quando criança. “Nos treinos, estava [sempre] presente. Era um cara que queria vencer. Então, assim, eu até falo para as crianças: ‘É fácil você trabalhar com um jogador que quer vencer’. A gente vai só mostrando o caminho para ele e aí as coisas acontecem.”
Em um trecho do documentário, Edilene, mãe de Éderson, cita que seu filho treinava até mais do que o necessário. “Nesse assunto de físico, músculo, essas coisas, eu fico com medo, porque ele é muito esforçado. Ele quer treinar de manhã, à tarde e à noite, e, se deixar, ainda corre na lagoa”, contou a mãe.
O treinador afirmou que via um diferencial em Éderson ainda criança, que já jogava em categorias avançadas para sua idade. “Ele sempre jogava na categoria acima da dele. Ele era de 1999 e jogava na 1997. E a força física dele sempre foi a mais do que a dos [outros] meninos. Fora do campo, era um garoto extraordinário. Ele trabalhou até na horta aqui do asilo, aqui no campo do Tiradentes, era nosso gandula aqui no futebol […] estava sempre à disposição para ajudar o projeto”, reforçou.
Raphaela também relembra que Éderson era muito tímido nas entrevistas, vinha de uma família simples e humilde, mas sonhava alto e não abria mão de seu objetivo. “Ele era muito talentoso, porque todo mundo falava isso, mas era muito tímido, bem retraído. Mas sempre tentando, queria jogar. Você via que ele era um menino que não conseguia ter um outro sonho. O sonho dele era ser jogador de futebol. Era aquilo ou era aquilo.”
Quase desistiu do futebol
O sonho de Éderson quase foi interrompido após receber a negativa em um teste que fez no São Paulo Futebol Clube. Jairo diz que ele e a família de Éderson conversaram com o jogador e o aconselharam a não desistir.
“Ele teve a oportunidade de ir para o São Paulo na época, eu até falei que [ele] não estava pronto ainda, mas ele tinha um sonho. Então ele foi para o São Paulo e acabou sendo reprovado. Isso é normal de um atleta tentar, como o Cafu, várias vezes. Mas aí ele recomeçou novamente, fomos lá, conversamos com ele, ele estava desistindo realmente. E aí nós conversamos, [explicamos] que tem os degraus da vida. Então ele assimilou e se preparou melhor”, relembra.
Edilene também incentivou Éderson a continuar tentando, já que o período em que foi recusado no São Paulo foi registrado no documentário. “Ele não conseguiu agora, no primeiro teste, mas a gente tá incentivando, se é isso mesmo que ele quer”, disse a mãe em entrevista às acadêmicas.
“Depois que ele entrou no futebol, ele melhorou muito na escola. Acho que uma coisa puxa a outra; se ele tá bem no futebol, ele vai estar bem em outros lugares também”, completou.
Trajetória

Dois anos depois, em 2013, o volante foi para o Desportivo Brasil, time de Porto Feliz, em São Paulo, que tem como foco o desenvolvimento de jovens atletas. Em 2018, foi emprestado ao Cruzeiro, seu primeiro clube da elite nacional.
Éderson estreou no mesmo ano pelo profissional, mas foi só em 2019 que ganhou mais espaço no Cabuloso. Ele foi um dos poucos destaques do time, que terminou rebaixado no Brasileirão, e foi vendido ao Corinthians em 2020.
No Timão, viveu uma situação desagradável e, no mínimo, incomum. Em uma partida contra o Fluminense, pelo Brasileirão, o volante começou como titular, mas aos sete minutos o time saiu atrás do placar. Aos 17 minutos de jogo, Éderson foi substituído, por opção técnica, e deu lugar ao atacante Everaldo.
Ele havia tentado, minutos antes de sair, dribles mal sucedidos no meio de campo. A partida terminou em 2 a 1 para o Tricolor das Laranjeiras. Depois, com pouco espaço no clube paulista, foi emprestado ao Fortaleza, em 2021.
No Leão, Éderson apareceu para o Brasil ao ser peça fundamental da campanha da equipe, que terminou na 4ª posição do Brasileirão. Seu desempenho chamou a atenção da Salernitana, da Itália, que o comprou por 6,5 milhões de euros em janeiro de 2022.
Após 15 jogos, dois gols e uma assistência, o campo-grandense ajudou a evitar o rebaixamento do clube e deu um salto na carreira: foi vendido à Atalanta, também da Itália, por 15 milhões de euros.
Auge

Em sua primeira temporada no time, Éderson jogou 37 partidas e contribuiu para a equipe terminar na 5ª posição, o que garantiu vaga na Europa League. Seria justamente na competição europeia, no ano seguinte, que ele teria o maior destaque.
A temporada 2023/24 foi artilheira para o volante, que marcou sete gols em 53 jogos. Com ele, a Atalanta terminou na 4ª colocação do Campeonato Italiano, foi vice-campeã da Copa Itália e conquistou a Europa League pela primeira vez.
O bom desempenho de Éderson rendeu convocação para a Copa América de 2024, chamado pelo então técnico Dorival Júnior. No entanto, o volante entrou em apenas uma partida, vindo do banco.
Na temporada seguinte, seguiu como titular incontestável da Atalanta e chegou a marcar em um jogo de Champions League, contra o Barcelona, no empate por 1 a 1 na fase de grupos. A equipe também alcançou a 3ª posição da liga italiana, classificando-se novamente para a Champions seguinte.
Na última temporada, de 2025/26, Éderson perdeu um pouco de espaço, com cerca de 500 minutos a menos jogados no Campeonato Italiano. A Atalanta terminou na 7ª posição da liga, mas Éderson vive especulação de transferência para o Manchester United, da Inglaterra, em negociação que pode envolver 45 milhões de euros (cerca de R$ 265 milhões).
Convocação para a Copa

Com a troca no comando da Seleção Brasileira, o campo-grandense também perdeu espaço na equipe. Éderson esteve presente apenas na primeira convocação de Ancelotti à frente da Canarinho. No entanto, uma reviravolta ocorreu uma semana antes da estreia do Brasil na Copa do Mundo de 2026.
No amistoso contra o Egito, sete dias antes da estreia contra Marrocos, que ocorre neste sábado (13), o lateral Wesley, da Roma, se machucou. No domingo (7), a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) anunciou o corte do jogador e surpreendeu ao anunciar Éderson como substituto.
Presente na pré-lista, o volante estava apto a ser convocado e estava em Campo Grande no momento da convocação. Ele veio à Cidade Morena para celebrar o casamento de Rômulo Zwarg, também campo-grandense e jogador do Tigres, do México.
A convocação do campo-grandense foi celebrada, inclusive, pelo Ministério dos Povos Indígenas. Isso porque o jogador tem raízes Terena, descendente de familiares indígenas, de Aquidauana, cidade distante 139 km da Capital.
Agora, Éderson pode ser o segundo jogador nascido em Campo Grande a vencer uma Copa do Mundo. Em 1994, Müller esteve presente no time que venceu o tetracampeonato com o Brasil. Cria do Tiradentes, o menino que sonhava em ser jogador de futebol vai realizar o sonho de toda criança que gosta do esporte: vestir a ‘amarelinha’ em um Mundial.
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(Revisão: Nichole Munaro)







