Ao longo de seus 127 anos, completados nesta quarta-feira, 26 de agosto, Campo Grande (MS) conquistou um jeitinho próprio de falar.
Agregando culturas de povos vindos de todos os cantos do Brasil e de algumas partes do mundo, a capital de Mato Grosso do Sul desenvolveu um vocábulo considerado uma verdadeira mistura de dialetos, com um toque sul-mato-grossense no pronunciar de cada palavra.
Mas, entre as inúmeras expressões características usadas no dia a dia do campo-grandense, quais são as principais, responsáveis por representar a maneira de o município se comunicar?
Em busca dessa resposta, o Jornal Midiamax convocou a população a eleger as “gírias” regionais mais usadas por quem vive na cidade, e o resultado foi um “Glossário dos 127 anos da Capital”.
Além disso, a reportagem conversou com uma pesquisadora de Sociolinguística que elabora um projeto justamente sobre “como o campo-grandense acha que fala”. Em seu trabalho, ela pretende destacar as influências de outros estados na linguagem local e documentar que muitas expressões, que os moradores creem ser exclusivas da Capital, na realidade, repetem-se em outros lugares do Brasil.
Desse modo, por meio de depoimentos e palpites instantâneos, foi possível chegar a uma lista de palavras citada pelos moradores que simbolizam a forma de o campo-grandense se comunicar. Em alguns pontos, a relação chega a ser endossada pela pesquisadora que investiga o dialeto da cidade.
Você usa todas? Confira a seguir o “Glossário dos 127 anos” e escolha sua expressão campo-grandense preferida:
1. Eita pega
Para os entrevistados, esta é a expressão que mais representa Campo Grande e também é considerada a mais “exclusiva” da Capital.
Usada para expressar surpresa, espanto, susto ou admiração diante de uma situação inesperada ou impressionante, “Eita pega” funciona como uma alternativa mais “leve” ou educada a palavrões como “eita p*rra”, “eita c*ralho”, ou até mesmo para substituir um sonoro “Minha nossa senhora!”.
Aplicação em uma conversa:
— Fui mordido por um cachorro hoje. Olha o rasgo que ficou!
— Eita pega! Feio, mesmo, hein.

2. Alas
Basicamente, o termo “alas” expressa pesar, tristeza, lamento ou decepção. Simples, sem rodeios.
Aplicação em uma conversa:
— Perdi o horário e não consegui fazer a prova do concurso.
— Alas! Mas o que aconteceu?

3. Voti
Embora não seja exclusiva de Campo Grande, a expressão “vote” foi apontada de maneira espontânea como uma das expressões que mais representam o linguajar da Capital.
Em resumo,”Vôte” (ou “vôti”) é uma interjeição popular usada para expressar espanto, surpresa, repulsa, indignação ou susto. Ela funciona para demonstrar que algo chamou atenção, foi desagradável ou surpreendeu muito.
Tem o mesmo sentido de “vixe!” e “credo!”.
Aplicação em uma conversa:
— Vi uma assombração ontem aqui em casa.
— Voti! Tá amarrado!

4. Vamo lá na 14
Pra que falar “Vamos sair pra tomar uma?” se, na língua do campo-grandense, tem “Vamo lá na 14?”. A expressão se refere à Rua 14 de Julho, um dos principais — senão o principal — points do encontro da galera. É onde a turma, de todas as idades, reúne-se para tomar cerveja, bater papo, ouvir música e se expressar culturalmente.
Em suma, o “Vamo lá na 14?” é um convite para ir até o local.
Aplicação em uma conversa:
— Queria sair pra beber e espairecer hoje.
— Vamo lá na 14, então!

5. Levar uma guampa
Por que dizer “ele foi traído” se posso dizer que fulano “levou uma guampa”? A expressão, não exclusiva de Campo Grande, mas muito usada na cidade, também foi mencionada por quem vive nela.
“Levar uma guampa”, para quem não sabe, significa ser traído pelo parceiro amoroso, ou seja, “levar um chifre”. A palavra “guampa” é um regionalismo muito usado no Sul e no Centro-Oeste do país para se referir à traição, infidelidade conjugal. É o ato de ser corneado ou enganado no relacionamento.
Guampa é justamente o chifre de um boi ou outro animal, que também serve como um copo tradicional para beber água ou o famoso tereré.
Aplicação em uma conversa:
— Nunca mais quero namorar ninguém!
— Você fala isso porque levou uma guampa!

6. Larga mão
Praticamente literal, a expressão “larga mão” (ou “largar mão”) significa desistir, parar de fazer algo, deixar para lá, desencanar de uma situação. Muitas vezes, é usada como um conselho ou ordem para alguém mudar de atitude.
Aplicação em uma frase:
— Vou largar mão desse projeto.
Ou ainda:
— Larga mão disso!

7. Pior
Usado em diversos lugares do Brasil, o “pior” também ocorre em Campo Grande e é muito citado pelos moradores como expressão comum na cidade.
Embora na língua portuguesa formal a palavra “pior” seja usada para representar algo ruim, inferior, a gíria transforma o dialeto em expressão coloquial para concordar com um fato que alguém acabou de dizer.
Aplicação em uma conversa:
— Por que eu fiz isso?
— Pior, hein…

8. Vazou na braquiária
Difundido em várias partes do Brasil, o termo “vazou na braquiária” também foi mencionado por moradores como queridinho na Capital.
A expressão “vazou na braquiária” é uma gíria regional do Centro-Oeste brasileiro que significa sair correndo, fugir ou ir embora de forma rápida. Ficou muito popular em todo o país por causa da música sertaneja homônima.
Basicamente, como gíria, significa sumir, escapar com rapidez. Além disso, braquiária é um tipo de capim muito comum em pastagens no Brasil, por isso o termo remete a alguém que entra correndo no mato (no pasto de braquiária) para desaparecer de vista o quanto antes.
Aplicação em uma frase:
— Tava cansado ontem. Vazei na braquiária daquela festa.

9. Trombar no farpado
Nada exclusiva de Campo Grande, a expressão “trombei no farpado” também foi citada como muito usada na cidade.
“Trombar no farpado” (ou “trombar no arame farpado”) significa se dar mal, encontrar resistência, esbarrar em um obstáculo ou se “f*der”.
O termo faz referência a uma cerca de arame farpado. Aplicação numa frase:
— Eles acharam que iriam me enganar, mas trombaram no farpado!

10. Pura bucha
Conhecido como expressão gaúcha, o termo pura bucha também aparece na lista dos eleitos pelos campo-grandenses.
A expressão “pura bucha” é uma gíria popular usada para descrever uma situação muito difícil, um “abacaxi pra descascar”, um problema grande ou um trabalho chato e cansativo.
Aplicação em uma frase:
— Pura bucha aquela viagem!

Pesquisadora vai investigar como os campo-grandenses falam
Docente do curso de Letras da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) em Campo Grande, Mircia Hermenegildo Salomão Conchalo está desenvolvendo uma pesquisa justamente sobre o vocábulo dos campo-grandenses, com destaque para o uso de expressões como as destacadas acima.
Ao Jornal Midiamax, a doutora em Estudos Linguísticos explica que seu projeto pretende analisar a identidade e a percepção linguística do falante campo-grandense e adianta detalhes sobre o objetivo da investigação, que ainda está em fase de elaboração científica.
“Como temos uma influência muito grande de outros estados, mineiros, paranaenses, paulistas, goianos… a ideia é fazer um levantamento desses fenômenos linguísticos que estão presentes na Capital e que acabam reverberando pelo Estado. Mas com destaque para os que se tornaram típicos em Campo Grande, porque muitos fenômenos são característicos de várias outras regiões, e não só daqui”, comenta, ressaltando a pluralidade e a mistura do dialeto campo-grandense.
No momento, Mircia está terminando de redigir o projeto e a meta é iniciar a execução até o final deste ano. “Vou começar fazendo o levantamento por meio de formulários nas redes sociais, e-mail… depois, farei gravações de falantes de outras variedades do português, como cariocas, gaúchos, nordestinos… e aí eu vou escolher, a partir dos critérios da sociolinguística e das regiões que nós temos em Campo Grande, os falantes daqui para serem juízes e observar como eles avaliam os falantes de outras variedades, esses diferentes sotaques do Brasil”, relata.

Como o campo-grandense percebe o próprio dialeto e o sotaque dos outros?
A docente frisa que muitas das palavras populares consideradas “de Campo Grande” também ocorrem em outras partes do país. No entanto, sua pesquisa busca descobrir o que o campo-grandense tem de único em sua fala. “Certamente, teremos algum fenômeno próprio. Já são quase 50 anos de criação do Estado. São pelo menos duas gerações já nascidas em Campo Grande, Mato Grosso do Sul”, afirma.
Paulista, natural de São José do Rio Preto (SP), a pesquisadora já morou em outros estados e vive há 7 anos na capital sul-mato-grossense. Esse tempo foi o suficiente para ela observar e descobrir um pouco sobre como o próprio campo-grandense se percebe, sendo esta mais uma abordagem de seu trabalho.
“Uma coisa que observei é que, mesmo tendo características do interior de São Paulo na fala, o campo-grandense não tem essa percepção. Uma vez eu entrei no Uber e, quando eu respondi, ele falou ‘Nossa, mas o seu ‘R’ é super do interior’. Aí eu fiquei pensando: ‘Tá, mas o seu ‘R’ é igual o meu’. Ele falou: ‘Acha?’. Eu falei: ‘É! Seu ‘R’ é a mesma realização do meu’ e aqui também é interior. É uma capital, mas no interior do Brasil”, recorda, aos risos.
Mircia reforça que seu projeto também tem essa proposta: não só levantar as características regionais, mas também registrar como o campo-grandense analisa outros dialetos e sotaques.

Estudiosa confirma: ‘Eita pega’ é muito Campo Grande
O trabalho tem o título prévio de “Estudo de percepção e identidade linguística: como os campo-grandenses acham que falam” e nasceu, conforme a autora, da ausência de pesquisas locais nesse sentido.
“MS é uma área que tem muitas lacunas de pesquisa para a Sociolinguística, há trabalhos muito fortes em outras áreas, mas, por exemplo, não temos um banco de dados linguístico. Isso está sendo desenvolvido, bem no início ainda. Então, pensando nisso, no desenvolvimento desse projeto de que sou colaboradora, pensei em fazer esse recorte sobre Campo Grande, até porque é uma área que os alunos se interessam, porque se trata da fala local, traz curiosidades e acaba envolvendo os acadêmicos. O motivo já se justifica, por não haver estudos nessa área”, explica.
Questionada sobre já ter identificado algumas “gírias” próprias de CG, a pesquisadora responde: “Eu não sistematizei ainda as expressões, mas sei que tem algumas. ‘Eita pega’, por exemplo, no interior de São Paulo não chega. Mas meu foco maior nem é na variedade do léxico, a ideia inicial é ver o que o campo-grandense acha que é marca típica”, finaliza.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)











