A rapadura, um dos alimentos mais tradicionais da culinária brasileira, vai muito além do papel de adoçar receitas no Quilombo Furnas do Dionísio, em Jaraguari, cidade a 40 quilômetros de Campo Grande. Isso porque esse patrimônio gastronômico ganha novas interpretações pelas mãos da confeiteira Silvana de Souza Lucas Santos, de 43 anos, que decidiu usar ingredientes nativos e ancestrais, como a guariroba e o baru, nas receitas.
A criação surgiu do interesse em dar visibilidade à cultura do povoado, que fica na área rural e é geograficamente isolado. Silvana conta que os ingredientes são produzidos artesanalmente há gerações na região.
Apesar da recente formação em Teologia, Silvana decidiu se dedicar à confeitaria como forma de valorizar as origens quilombolas, incentivar os pequenos produtores e mostrar que ingredientes tradicionais também podem ocupar espaço na gastronomia contemporânea.
“A coleção Sabores do Quilombo nasceu do desejo de mostrar que a gastronomia também conta histórias. Eu queria que as pessoas provassem um doce ou um salgado e conhecessem um pouco da nossa cultura, da nossa identidade e das riquezas do Quilombo Furnas do Dionísio. Este lugar é um lugar que amo muito, de um povo simples e acolhedor. Em vez de fazer apenas receitas tradicionais, decidi criar produtos que valorizassem os ingredientes e a história da nossa comunidade, transformando cada receita em uma experiência”, pontua.

‘Palmito do Cerrado’
O ingrediente que dá identidade ao festival também é o coração da coleção. A rapadura aparece em doces como o Pudim Memória do Engenho, releitura do tradicional pudim preparada com rapadura artesanal, e no Brigadeiro Fruto Dourado, que combina o sabor intenso do doce de cana com a castanha de baru. Também está presente no bombom aberto Joia do Quilombo, que une brigadeiro de rapadura e baru tostado.
Mas a proposta vai além da confeitaria. A guariroba, conhecida popularmente como “palmito do Cerrado”, também ganha protagonismo em receitas salgadas como a Quiche Veredas do Quilombo e a Empada Raízes, mostrando a diversidade de ingredientes produzidos na própria comunidade.
“A rapadura faz parte da nossa história. Ela é produzida artesanalmente na comunidade, há muitos anos, e representa o trabalho de muitas famílias ao longo das gerações. Aqui plantamos a cana, fazemos o melado e, então, produzimos as rapaduras. Cada família está em um desses processos. Já o baru e a guariroba são ingredientes muito presentes no Cerrado, o bioma onde vivemos, e temos muito deles por aqui”, descreve.
“A guariroba é cultivada por famílias da comunidade e o baru é encontrado na nossa região. Minha ideia foi unir esses ingredientes em preparações que respeitassem o sabor original, mas os apresentassem de uma forma diferente, mostrando que a culinária quilombola também pode inovar sem perder suas raízes.”
Para chegar ao resultado, houve meses de estudos e experimentações até encontrar o equilíbrio entre tradição e sofisticação. Silvana afirma que, inicialmente, a ideia não foi produzir doces bonitos ou sofisticados, mas criar receitas com valor afetivo.
Matéria-prima
“Todas são especiais para minha família, pois trabalhamos juntos na confeitaria e cada teste era uma comemoração, ou contava com o apoio dos meus filhos e do meu esposo — e isso não tem preço. Porém, a rapadura tem um significado muito especial, porque faz parte da história da comunidade. Ela representa o trabalho, a união das famílias e a tradição passada de geração em geração.”
“Aqui, todos cresceram vendo a rapadura sendo produzida e consumida. E, talvez, por isso, o brigadeiro Fruto Dourado seja o mais significativo, por ter sido o primeiro a ser criado, o que mais precisou de testes e também foi o único que ‘evoluiu’ desde a sua criação.”
Consequentemente, Silvana acredita que a confeitaria pode fortalecer a economia local ao utilizar matérias-primas produzidas pelos próprios moradores do quilombo, como a rapadura, o melado e a guariroba.
“Além de gerar renda para minha família e ter me ajudado a voltar e terminar minha faculdade, a confeitaria também valoriza os produtores e os ingredientes da nossa comunidade. Sempre que utilizamos produtos locais, incentivamos outras famílias e mostramos que aquilo que é produzido aqui tem qualidade e merece reconhecimento. O melado das caldas dos bolos, a rapadura e a guariroba são tudo daqui mesmo. Então, eu faço meu produto adquirindo a matéria-prima da própria comunidade. Quero que cada produto conte um pouco da nossa história.”
Festival da Rapadura
Evento anual do calendário, o Festival da Rapadura acontecerá nos dias 5 e 6 de agosto. Além da comida boa, a programação conta com artesanato, música e muito mais.
Confira a programação
5 de agosto
- 8h – Abertura das barracas com produtos da comunidade e da praça de alimentação.
- 9h – Sessão solene, com apresentações culturais e lançamento do livro “Os Guardiões da Memória”.
- 12h – Almoço com churrasco e comidas típicas quilombolas.
- 19h – Início do baile, com apresentações de Gilson e Junior, Grupo Uirapuru e Trio Violada.
6 de agosto
- 9h – Apresentações culturais.
- 11h – Shows com artistas locais.
- 12h – Almoço com churrasco e comidas típicas quilombolas.
- 13h – Pagode.
- 15h – Baile com Tonho Cordeiro e Grupo Carandá.
Estarão à venda produtos da comunidade, como derivados da cana-de-açúcar, farinha de mandioca, hortifrúti, produtos de granja, além de artesanato e roupas.

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(Revisão: Dáfini Lisboa)









