Campo Grande registrou cerca de 2.165 acidentes de trânsito envolvendo motos no primeiro semestre de 2026. O número de ocorrências também reflete no número de mortes recentes nas ruas e avenidas da Capital. O caso mais recente envolveu o jovem Gabriel Moreira de Rezende Bertipalha, de 28 anos, que morreu em um acidente na Avenida Bandeiras, no dia 6 de julho.
Segundo dados da Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito), o levantamento referente ao período de 1º de janeiro a 29 de junho aponta que os homens representam 75% das vítimas. A maior concentração de casos está entre jovens de 21 a 25 anos, que somam 538 registros.
Nas últimas semanas, o trânsito da Capital fez novas vítimas graves. Além de Gabriel, Alaine Amanda Alves Riveira, de 31 anos, voltava do primeiro dia como garçonete de uma empresa quando bateu a motocicleta que conduzia contra um meio-fio. Ela morreu no local.
Batidas em cruzamentos de avenidas movimentadas e contra postes resultaram não só em mortes, mas também em vítimas graves.
O Jornal Midiamax conversou com Nédis Gonçalves, instrutor do curso de Reciclagem, uma capacitação exclusivamente teórica voltada para condutores infratores, do Detran-MS. Nédis, que também ministra aula de direção defensiva, ressalta que o comportamento no trânsito é um trabalho coletivo.

Além disso, ele explica que a liderança dos jovens nas estatísticas também está associada ao excesso de autoconfiança. “A juventude é aquele momento de você ter o seu corpo na plenitude, na plena forma, e acreditar que é uma pessoa que tem todos os reflexos e não vai ser acometida por sinistro algum”, afirma.
O risco sobre duas rodas
O instrutor destaca que, no trânsito, o motociclista é sempre o mais vulnerável. Dados da Abramet (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego) mostram que quem anda de moto tem 26 vezes mais chances de sofrer lesões em acidentes do que ocupantes de carros. “O que a gente tenta colocar para as pessoas é que a pressa nunca vai compensar, porque o risco é muito grande. As leis da física a gente não consegue quebrar”, pontua o professor.
Sobre o tráfego no corredor de veículos, entre carros e ônibus, por exemplo, Nédis esclarece que a prática não é descrita como infração pelo CTB (Código de Trânsito Brasileiro). No entanto, o perigo de acidente aumenta de forma drástica quando as motocicletas circulam em alta velocidade nesses pontos cegos.
Nos corredores, as autuações mais frequentes registradas pelas equipes de fiscalização envolvem o excesso de velocidade, ultrapassagens pela direita e o uso do celular. Para o especialista, essas atitudes demonstram a imprudência de quem decide ignorar as normas para tentar ganhar tempo.
Espaço disputado
Com a frota de Campo Grande superando a marca de 700 mil veículos rodando por ruas ainda pensadas para o fluxo do passado, o espaço nas vias ficou pequeno demais. “Os espaços são os mesmos de tempos atrás, então a gente vai precisar negociar muitas coisas no bom sentido. Precisamos nos colocar no lugar do outro, ter entendimento de que quem está no outro veículo não é nosso inimigo, é outro ser humano tentando ir para casa”, explica Nédis.
Para tentar mudar essa realidade, o curso de reciclagem teórica adota o conceito de “Visão Zero”, alinhado às diretrizes da Senatran (Secretaria Nacional de Trânsito).
“A visão zero é a ideia de que nenhuma morte no trânsito é aceitável. A gente precisa entender que o ser humano vai cometer erros, e a engenharia de tráfego e a construção dos automóveis precisam ter mecanismos para absorver esse erro”, explica.

Essa mudança passa também pela linguagem: o termo “acidente” foi substituído tecnicamente por “sinistro”, para reforçar a responsabilidade do condutor no ocorrido. No fim, a orientação pedagógica foca em mostrar que a pressa para avançar um semáforo ou cortar caminho não compensa o risco de perder a vida.
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(Revisão: Nichole Munaro)








