Antes da maquiagem, dos vestidos e da faixa de miss, Isabella Catarino, de 26 anos, precisou vencer uma batalha que quase ninguém notava. Mãe solo de um menino autista, a Miss Águas do Pantanal e candidata ao Miss Golden Brasil 2026 enfrentou depressão pós-parto e síndrome do pânico.
Na preparação para o concurso, Isabella diz que um dos seus maiores objetivos é mostrar que Mato Grosso do Sul tem, sim, mulheres preparadas para ocupar espaço nos concursos nacionais. Nos últimos anos, o Estado tem sido representado em concursos de beleza por misses “turistas”.
Nascida em Camapuã, ela guarda da infância lembranças típicas do interior, como as brincadeiras na rua, os banhos de rio, as bicicletas, o tereré na casa dos amigos e as histórias de terror contadas no meio-fio. Ela deixou a cidade natal aos 17 anos, a caminho de Miranda, quando passou a ser notada por fotógrafos. Atualmente ela mora em Campo Grande.
“Tenho muito orgulho de ter crescido em Camapuã. Tudo o que vivi lá ajudou a construir a mulher que sou hoje. Saí de lá para estudar, movida pelo sonho de construir uma vida melhor. Queria conquistar meu espaço, ter independência e ser reconhecida por algo que eu realmente amasse fazer e no que fosse boa. Sempre acreditei que, com dedicação e trabalho, poderia transformar meus sonhos em realidade.”
Trabalhava até de graça
Isabella conta que o início da sua trajetória em Miranda foi marcado por muitas dificuldades. Na época, oferecia seu trabalho às lojas e, muitas vezes, realizava divulgações gratuitamente para conquistar espaço. Além disso, foi nesse período que enfrentou críticas, questionamentos sobre sua profissão e até ataques nas redes sociais, incluindo comentários ofensivos feitos por meio de perfis falsos.
Apesar das situações dolorosas, ela não desistiu. Pelo contrário, transformou as críticas em motivação para seguir em frente. Cada oportunidade recebida era encarada com seriedade e dedicação, como forma de demonstrar seu profissionalismo, comprometimento e capacidade de entregar resultados de qualidade.
No entanto, a experiência lhe ensinou que o reconhecimento é consequência de muito esforço, persistência e confiança em si mesma, mesmo quando outras pessoas não acreditam em seu potencial.
“Queria poder dizer que houve um momento exato [em que percebi que a carreira dava certo], mas a verdade é que, apesar das minhas inseguranças e das incontáveis vezes em que pensei em desistir, eu simplesmente não conseguia. Havia uma chama dentro de mim que nunca se apagava. Algo sempre me impulsionava a continuar, como uma voz silenciosa repetindo: ‘Vai dar certo. Vai dar certo'”, descreve.

A maternidade mudou tudo
A chegada do filho trouxe um novo propósito, mas também um dos períodos mais difíceis da vida. Ela afirma que a maternidade transformou profundamente sua forma de enxergar a vida e continua influenciando suas escolhas diariamente.
Consequentemente, a maternidade faz com que cada decisão fosse tomada com mais responsabilidade, considerando não apenas os próprios desejos, mas também o impacto que teria na vida dele.
“Criar um filho autista sozinha não é fácil. Existem desafios, renúncias, medos e uma carga emocional muito grande. Mas também existe um amor imensurável, capaz de nos tornar mais fortes do que imaginávamos ser. E, se hoje consigo continuar lutando pelos meus sonhos e pelos dele, é porque também tenho o apoio da minha mãe. Sem a ajuda dela, eu não conseguiria dar conta de tudo.”
Ainda assim, a maternidade não representou o abandono dos seus sonhos, mas sim uma nova razão para persegui-los. Sobre os desafios de conciliar a vida de mãe com os concursos de beleza, Isabella diz que leva a rotina com paciência e disciplina.
“A disciplina também é fundamental porque, com uma criança pequena, é muito fácil colocar os cuidados com a própria aparência em último plano, ou até mesmo negligenciá-los completamente. Encontrar tempo para treinar, cuidar da pele, do cabelo, da alimentação e de si mesma exige esforço e organização.”
Superação da depressão
Isabella enfrentou depressão pós-parto, síndrome do pânico e chegou a pensar em tirar a própria vida. Ela lembra que houve momentos em que sequer conseguia reconhecer o próprio bebê. A recuperação foi lenta e levou mais de um ano.
“Quando estamos nesse lugar, muitas vezes não conseguimos pedir ajuda, porque nem sabemos como fazer isso. A sensação é de invisibilidade. Eu cheguei a um ponto em que não queria sair de casa para nada. Sentia medo o tempo todo.”
“Houve momentos ainda mais difíceis, em que eu olhava para o meu bebê e não conseguia reconhecê-lo como meu filho. Era como se a depressão tivesse distorcido completamente a minha percepção da realidade. A dor era tão grande que parecia que meu corpo inteiro era uma ferida aberta. A vida perdia a cor, a comida perdia o sabor, e eu já não conseguia enxergar esperança.”
Brilho do filho
Em determinado momento, a miss passou a refletir sobre o quanto havia desejado ser mãe e sobre todas as vezes em que pediu a Deus por um filho. Ao compreender a dimensão desse desejo, também entendeu a responsabilidade e o amor envolvidos na decisão de trazer uma criança ao mundo.
Foi a partir dessa percepção que decidiu enfrentar os próprios medos e pensamentos, iniciando uma intensa batalha interna. O processo de recuperação foi longo e durou mais de um ano, marcado por desafios, recaídas e momentos de grande dificuldade. Ainda assim, ela persistiu, encontrando forças para continuar lutando e seguir em frente, apesar dos obstáculos que surgiam ao longo do caminho.
“O que foi fundamental para a minha recuperação foi a minha fé, o amor pelo meu filho e a decisão de não desistir de mim mesma. Hoje, ao compartilhar essa história, espero que outras mães entendam que a depressão pós-parto e a síndrome do pânico não definem quem elas são. Pedir ajuda, aceitar apoio e continuar lutando é um ato de coragem. E existe vida, esperança e recomeço depois da dor.”
A faixa de MS
Aclamada como Miss Águas do Pantanal, Isabella tem o título que representa a identidade pantaneira nos concursos de beleza sul-mato-grossenses. A faixa é o caminho para disputar o Miss Brasil Golden, concurso nacional que reúne candidatas dos 26 estados e do Distrito Federal sob o lema “Beleza com Propósito”.
A preparação para a fase nacional exige dedicação integral, disciplina e comprometimento. Com o acompanhamento constante de seu preparador, ela mantém uma rotina rigorosa para cumprir todas as etapas planejadas para o concurso.
O cronograma de treinamento reúne desfile de passarela, desenvolvimento da oratória, fortalecimento de projetos sociais e aprimoramento de características essenciais para uma miss, como postura, comunicação, propósito e responsabilidade.
Falta de representatividade sul-mato-grossense
A miss acredita que a baixa participação de mulheres sul-mato-grossenses em concursos nacionais está relacionada à pouca divulgação e visibilidade desse universo no Estado. Segundo ela, muitas jovens desconhecem as oportunidades existentes ou não sabem como funciona o processo de seleção e preparação para essas competições.
Ela também destaca que, em alguns casos, candidatas convidadas por coordenadores de concursos acabam recusando a oportunidade por receio de golpes ou pela falta de informações que transmitam confiança e segurança.
“Vejo, com frequência, mulheres de outros estados vindo representar Mato Grosso do Sul em concursos nacionais, enquanto muitas vezes não temos candidatas sul-mato-grossenses ocupando esses espaços. E eu sei da força da nossa gente.”
“Sou sul-mato-grossense e conheço a determinação, a garra e o propósito das mulheres da nossa terra. Quando queremos algo, lutamos de verdade para conquistar, como verdadeiras onças. Acredito que, com mais visibilidade, incentivo e oportunidades, veremos cada vez mais mulheres do nosso estado ocupando esses títulos e levando suas histórias para o Brasil inteiro”, conclui.
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