Pode ser para ir ao médico, fazer compras, caminhar, passear no shopping ou simplesmente sentar em algum lugar para tomar um café e conversar. Atividades comuns na rotina de qualquer família estão abrindo espaço para uma profissão ainda pouco conhecida em Campo Grande: a de “filho de aluguel”.
Apesar do nome intrigante, ninguém está alugando um novo integrante para a família. A proposta é oferecer companhia, principalmente para idosos cujos filhos e demais parentes nem sempre conseguem estar presentes durante compromissos do dia a dia. Em Campo Grande, Karina Cerqueira, de 48 anos, começou a trabalhar como “filha de aluguel” em 2025 e ainda está descobrindo as possibilidades desse ofício.
Formada em Marketing e com uma trajetória profissional ligada ao atendimento ao público, ela conta que a ideia surgiu depois de uma conversa com uma amiga, que lhe apresentou um tipo de serviço que Karina até então não realizava profissionalmente.
A oportunidade começou a fazer mais sentido quando Karina percebeu uma demanda entre mulheres com mais de 50, 60 e 70 anos com quem tinha contato enquanto trabalhava aos fins de semana em um salão de beleza. Entre um atendimento e outro, surgiam pedidos que iam muito além do cuidado com as madeixas.
“Elas começaram a me chamar para acompanhá-las em suas rotinas cotidianas: médicos, consultas, café, compras, mercado, shopping. Entrei nesse ramo porque sempre gostei muito de trabalhar com pessoas e de ajudar a todos a minha volta. Vi nesse trabalho uma forma de unir isso a uma necessidade que percebi no dia a dia com as clientes no salão onde presto serviço aos finais de semana.”, conta a “filha de aluguel” ao Jornal Midiamax.

Mas o que faz uma filha de aluguel?
Na prática, a lista de afazeres pode ser extensa justamente por envolver situações corriqueiras. Karina pode acompanhar uma ida ao salão de beleza, passeios e caminhadas ou estar ao lado dos “pais de aluguel” em outras atividades externas.
Em alguns casos, porém, não existe sequer um compromisso a cumprir. Companhia para um café, uma caminhada, uma ida à igreja ou simplesmente alguém disposto a conversar também pode fazer parte do trabalho. “Estar presente nesses momentos simples pode ter um significado enorme para quem está precisando de companhia e atenção”, diz.
A atividade, segundo Karina, não deve ser confundida com o trabalho de um cuidador de idosos. Ela explica que não realiza higiene pessoal, não administra medicamentos nem executa procedimentos relacionados à saúde. O ofício como filha de aluguel está concentrado na companhia.
Mesmo assim, a profissional diz estar fazendo um curso de primeiros socorros e pretende estudar para ser cuidadora de idosos, como forma de aumentar seus conhecimentos e estar preparada para diferentes situações. Segundo ela, mesmo com a formação adicional, pretende manter os limites do serviço que oferece. “Minha atuação continuará sendo exclusivamente de acompanhamento e companhia”, afirma.

Por que alguém contrata um ‘filho’?
Mas, se essas pessoas têm família, por que pagar alguém para acompanhá-las? Para Karina, a resposta está menos no abandono e mais na transformação da rotina das famílias.
“Hoje, os filhos trabalham, têm suas próprias famílias, compromissos e, muitas vezes, moram longe. Isso não significa falta de amor ou de cuidado”, avalia.
Uma consulta médica em horário comercial é um exemplo. O filho pode querer acompanhar o pai ou a mãe, mas estar trabalhando naquele momento. O mesmo vale para uma ida ao mercado, um exame ou outros compromissos que, para uma pessoa mais velha, podem ser mais confortáveis quando realizados ao lado de alguém.
Logo, Karina faz questão de afastar a ideia de ocupar o lugar dos familiares. “Minha proposta não substitui a família, mas funciona como um braço direito, ajudando a família a estar presente com segurança e responsabilidade, mesmo quando não consegue estar fisicamente”, explica.
“Eu acredito que esse serviço se tornou necessário justamente porque a vida mudou. Muitas vezes, os filhos gostariam de estar presentes em uma consulta, levar os pais ao médico, acompanhá-los ao mercado ou simplesmente tomar um café e conversar, mas não conseguem conciliar tudo. É aí que eu acredito que o meu trabalho pode fazer a diferença: não para substituir um filho, mas para oferecer presença, companhia e confiança quando a família não puder estar”. ressalta;

O melhor presente é a presença, diz filha de aluguel em Campo Grande
Ainda no começo da atividade, Karina está formando a clientela e mantém o trabalho como complemento de renda. Os atendimentos são cobrados por hora, conforme o tempo e a necessidade de acompanhamento, e ela também estuda formatos para períodos maiores.
O público que atende e pretende atender é formado principalmente por idosos, embora adultos que necessitem de companhia para realizar atividades cotidianas também possam procurar o serviço.
Por estar dando os primeiros passos, ela ainda não coleciona aquelas histórias inusitadas que poderiam surgir de uma profissão com nome tão peculiar. O que já percebeu, no entanto, é algo mais simples: conversar pode ser uma parte importante do trabalho.
“Algo que já me toca muito é perceber como uma pessoa pode se sentir valorizada simplesmente porque alguém parou para ouvi-la e estar ao seu lado. O melhor presente é a presença”, afirma.
Casada e conciliando a nova atividade com a própria família e os demais compromissos, Karina acredita que responsabilidade, ética, paciência, empatia e disposição para ouvir estão entre as características necessárias para quem pretende trabalhar dessa maneira.
Segundo a campo-grandense, “filho de aluguel” pode até ser uma profissão do futuro, porém, o ofício nasceu para atender a uma necessidade atual: famílias que continuam querendo cuidar, idosos que querem manter a própria rotina e uma agenda cada vez mais apertada entre os dois lados. Nessa dinâmica, até algo tão comum quanto acompanhar alguém para tomar um café acabou virando trabalho.

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(Revisão: Nichole Munaro)









