A ouvidoria do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) encaminhou para análise de promotoria de Justiça denúncia sobre possível favorecimento em licitação da Fiems (Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul).
A denúncia foi registrada em 7 de outubro, um dia antes da abertura de propostas do certame, e adiantava o possível vencedor do procedimento da entidade chefiada por Sérgio Longen para comprar uma usina solar no valor de R$ 18 milhões.
Conforme ofício assinado pelo ouvidor do MP, promotor de Justiça Renzo Siufi, o caso foi encaminhado para análise de uma promotoria de Justiça “para o devido conhecimento, análise e eventuais providências cabíveis“.
No documento, o ouvidor cita a Resolução nº 9/2026-CPJ, que estabelece que, quando a denúncia envolver fato sobre o qual o Ministério Público tenha o dever e a legitimidade para agir, o ouvidor determinará a remessa ao órgão de execução competente.
Agora, o próximo passo é a distribuição da manifestação para definir qual promotor irá analisar os dados repassados ao MP.
A partir daí, a autoridade ministerial poderá entender haver necessidade — ou não — de abrir procedimento para aprofundar as investigações contra a federação dos industriais, que somente neste ano deverá receber cerca de R$ 60 milhões em recursos de natureza pública, repassados pela Receita Federal.
Denúncia antecipou resultado de licitação suspeita na Fiems
O documento foi apresentado ao Ministério Público um dia antes da abertura das propostas da licitação e antecipou que a possível vencedora seria a Usina San Vito Solar (CNPJ 53.326.173/0001-60), administrada pela A. P. Gestão Empresarial (CNPJ 66.847.379/0001-88), controlada por Alessia Parisi.
A usina é ligada ao empresário Massimo Parisi, diretor da MS Energy – Parisi S.A. (CNPJ 08.075.240/0001-67), que passou a empresa para o nome da filha, Alessia, em abril deste ano — seis meses antes da licitação.
Conforme apurado pela reportagem, Massimo fundou a San Vito em dezembro de 2023, com investimento de R$ 8.422.034,00. Mas, em abril de 2026, passou por quatro CNPJs, inclusive da Usina San Vito, que tem como sócia a AP Gestão Patrimonial e Empresarial Ltda.
O documento adiantava que o acordo seria algo em torno de R$ 18 milhões e R$ 20 milhões. No sistema da Fiems, consta que apenas uma fornecedora participou da licitação e ofereceu uma usina de geração solar por R$ 18 milhões. Atualmente, a licitação consta com status ‘em julgamento’.

Agora, caberá ao MP analisar se o edital da Fiems teria sido elaborado por um engenheiro da MS Energy para incluir especificações técnicas que impeçam outras empresas de vencer a disputa e garantam a vitória da San Vito.
Reportagem anterior do Jornal Midiamax identificou coincidências entre características técnicas da San Vito e parâmetros previstos no edital, incluindo potência dos módulos fotovoltaicos e relação entre a potência dos inversores e a capacidade instalada.
O denunciante afirma ao MP que teria ouvido conversas entre Massimo e Longen “discutindo divisão de valores oriundos do faturamento da MS ENERGY, o que me causou estranheza, visto que não estão no contrato social do grupo”, diz trecho da manifestação.
Ligação com a diretoria da entidade

Na documentação apresentada pela própria empresa à Justiça, em sua recuperação judicial, consta como cliente, com valores a receber de R$ 700 mil, o vice-presidente da Fiems, Luiz Gonzaga Crosara Júnior.
Crosara aparece como administrador do CNPJ criado pela Fiems para o projeto ‘Em Conta Energia Renovável’ (32.050.357/0001-70), da entidade, para vender energia solar gerada por usinas pertencentes ao programa para consumidores.
Também teria valores a receber — de R$ 217 mil — a Alira Empreendimentos e Participações Ltda. (CNPJ 48.411.366/0001-80), que detém parte da Usina Flor do Campo, em Anastácio, e tem como controlador Jaime Verruck, ex-diretor da Fiems.

Silêncio sobre denúncias
A reportagem procurou a MS Energy para se manifestar diante da denúncia. Entramos em contato por telefone e fomos informados de que uma pessoa entraria em contato, o que não ocorreu até a publicação desta matéria. Também fizemos os questionamentos por meio do WhatsApp oficial, bem como através de e-mails cadastrados na Receita Federal e pelos perfis nas redes sociais.
O Jornal Midiamax também procurou a AP Gestão Patrimonial e a Parisi S.A., mas não obteve retorno.
Também procuramos a Fiems, através de e-mails institucionais devidamente registrados, bem como a assessoria jurídica da entidade para obtermos posicionamento sobre a denúncia. No entanto, não houve resposta.
A reportagem procurou Crosara para comentar a relação com a MS Energy e se não haveria um possível conflito de interesse, caso houvesse a participação da MS Energy ou de empresas ligadas ao empresário Massimo Parisi na licitação, além de esclarecer se ele teve alguma participação na elaboração do edital. Não obteve retorno.
Também buscamos Jaime Verruck, ex-secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação, sobre a ligação dele e da Alira com a MS Energy. Da mesma forma, não recebemos resposta.
Vale ressaltar que o espaço segue aberto para manifestações e o texto será atualizado assim que houver retornos.
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(Revisão: Nichole Munaro)








