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MS 49 ANOS: De receita da fazenda ao Guinness Book, Maracaju virou a Terra da Linguiça

Receita que nasceu entre famílias de fazendeiros no século XIX foi parar no Guinness Book
Karina Campos -

, a “Terra da Linguiça”, é uma cidade de pouco mais de 50 mil habitantes, mas que carrega uma tradição que ultrapassou as fronteiras do município e se tornou parte da identidade de Mato Grosso do Sul. Em um estado que completa 49 anos, a história da iguaria dá ênfase ao peso de Maracaju na cultura e na gastronomia sul-mato-grossense. A receita ganhou uma festa própria, colocou o nome da cidade no Guinness Book e, depois de anos de mobilização dos produtores, recebeu registro oficial que protege sua origem.

Mas por que uma linguiça fez uma cidadezinha do interior de Mato Grosso do Sul ficar mundialmente conhecida? Para entender como a iguaria se tornou tão especial para Maracaju e para o próprio Estado, é preciso voltar no tempo, quando o município ainda era uma pequena comunidade formada por famílias que chegaram à região em busca de novas terras e oportunidades de trabalho.

A história da receita começa no século XIX. Entre os moradores que chegaram à região, estavam famílias vindas principalmente de Minas Gerais e Goiás, que trouxeram costumes e conhecimentos culinários de suas terras de origem.

Naquele período, a carne bovina fazia parte da rotina das propriedades rurais. No entanto, o problema era como conservar o alimento e transportá-lo durante longas viagens. A solução encontrada foi transformar a própria carne em uma preparação que pudesse ser armazenada por mais tempo.

Por que ela tem identidade exclusiva?

Diferentemente das linguiças tradicionais feitas com carne moída ou suína, a receita de Maracaju passou a ter como uma de suas características o corte manual da carne, feito na ponta da faca. O preparo ganhou ainda temperos que ajudaram a construir o sabor que hoje é associado ao município. A receita tradicional reúne carne e gordura bovinas, alho, sal, pimenta dedo-de-moça, cheiro-verde e laranja, ingrediente que aparece na tradição local como laranja-azeda.

Era uma preparação da família Marcondes — pioneiros na culinária do prato — feita dentro das propriedades e compartilhada entre parentes, vizinhos e amigos. Não havia, naquele momento, a ideia de que aquela mistura de carne cortada à faca e temperos se tornaria uma das principais referências de Maracaju.

Mas foi justamente a repetição da receita, de geração em geração, que fez a tradição sobreviver. Aos 90 anos, o produtor Gerson Marcondes é uma das pessoas que ajudam a contar essa história a partir das próprias lembranças.

Há cerca de 68 anos, quando se preparava para o casamento, Gerson conta que um parente chamado Joaquim de Souza foi escolhido para produzir a linguiça que seria servida aos convidados. A ocasião acabou entrando para a memória da família não apenas pelo casamento. Segundo Gerson, foi Joaquim quem deu à receita o nome pelo qual ela passaria a ser conhecida.

A partir daí, o nome do município e o da receita ficaram cada vez mais ligados. O que antes era uma preparação presente nas casas e festas de famílias rurais começou a ganhar espaço fora delas. A linguiça passou a circular, ser comercializada e chegar a pessoas que não tinham relação direta com as famílias que mantinham a tradição.

Quando a linguiça ganhou uma festa

A cidade, pouco a pouco, passou a ser reconhecida pela receita. E o apelido de “Terra da Linguiça” deixou de ser apenas uma maneira informal de se referir a Maracaju.

Se a receita ajudou a construir a identidade gastronômica do município, uma festa foi responsável por transformar essa tradição em um evento capaz de atrair milhares de pessoas.

Em 1994, a linguiça já fazia parte das reuniões familiares e da vida dos moradores. Durante uma visita do governador do Rotary, Hélio Mandetta, e de sua esposa, Maria Olga, surgiu a ideia de transformar a iguaria em uma oportunidade para reunir pessoas e arrecadar recursos para ações sociais.

Alguns membros da Aptralmar (Associação dos Produtores da Tradicional Linguiça de Maracaju). (Divulgação, Semadesc)

A Festa da Linguiça

A primeira ideia era relativamente simples: realizar um almoço e utilizar a mobilização em torno da comida para arrecadar fundos. Mas a festa cresceu, como explicam Rogério Nodimatu e Juliano Ibba, presidentes do Rotary Club.

A cada edição, novos parceiros e atrações foram incorporados. O evento passou a reunir música, cultura, gastronomia e ações sociais, transformando a linguiça em uma espécie de cartão de visitas de Maracaju.

“[A Festa da Linguiça] funciona como vitrine de Maracaju. Reúne moradores e visitantes em torno de uma história que a cidade reconhece como sua, divulga o produto regional e fortalece o turismo gastronômico. Na perspectiva dele, sua importância também está no serviço à comunidade: a organização do Rotary permite destinar resultados a ações assistenciais locais. Já foram doados mais R$ 1 milhão nos últimos três anos, atendendo às entidades do nosso município”, diz Rogério.

Linguiça é mascote e patrimônio cultural da cidade. (Petter de Oliveira, Clube Rotary)

Tradição

Com o tempo, a programação cresceu, incorporando atrações culturais e parceiros públicos e privados. Hoje, a dimensão do evento é muito diferente daquela primeira reunião.

“O público varia conforme o ano e a programação; não há um total único que represente todas as edições. Registramos mais de 40 mil pessoas em quatro dias na edição de 2026. Estima-se que, no município, movimenta mais de oito toneladas de linguiça comercializadas”, completa Juliano.

“O evento movimenta também serviços diretos e indiretos. São mais de cinquenta empresas contratadas e mais de quinhentas diárias para que o evento aconteça. A circulação de visitantes beneficia produtores e vendedores de alimentos, hospedagem, comércio e serviços. Esses dados indicam alcance e atividade econômica.”

Ou seja, a festa ainda gera emprego, já que empresas são contratadas e são geradas diversas diárias de trabalho para que o evento aconteça. Além disso, hotéis, restaurantes, vendedores de alimentos, comércio e prestadores de serviços também entram nessa movimentação.

Assim, a linguiça acabou criando uma espécie de círculo: uma tradição familiar virou evento, o evento atraiu visitantes, e a mobilização em torno dele passou a financiar ações voltadas para a própria comunidade.

Gerson Alves Marcondes e sua esposa Armezinda Alves Marcondes, em 1977. (Arquivo Pessoal)

Do quintal de casa ao Guinness Book

A história ganhou um capítulo ainda mais curioso em 1997. Produtores de Maracaju decidiram mostrar o tamanho que a tradição poderia alcançar. Foi produzida uma linguiça contínua com mais de 30 metros de comprimento, sem emendas, que entrou para o Guinness Book. O feito colocou o nome de Maracaju em um dos livros de recordes mais conhecidos do mundo e ajudou a ampliar a visibilidade da cidade.

A fama, no entanto, trouxe uma nova preocupação para quem mantinha a tradição. Se a linguiça de Maracaju estava ficando conhecida, como garantir que qualquer produto vendido com esse nome realmente tivesse as características da receita tradicional?

Segundo Rogério, a Aptralmar (Associação dos Produtores da Tradicional Linguiça de Maracaju) passou a trabalhar pela proteção da identidade do produto e buscou o reconhecimento no Inpi (Instituto Nacional da Propriedade Industrial). O processo levou anos, mas, em 24 de novembro de 2015, Maracaju recebeu o registro de Indicação de Procedência para a linguiça.

Linguiças preparadas na brasa. (Petter de Oliveira, Clube Rotary)

Na prática, o reconhecimento estabelece uma ligação oficial entre o produto e o território onde sua tradição foi construída. Para os produtores, significa também uma forma de proteger o nome e estabelecer características que permitem identificar aquilo que é, de fato, a tradicional linguiça de Maracaju.

A ficha técnica do Inpi estabelece características do produto e de sua produção, incluindo a utilização de carne e gordura bovinas e ingredientes naturais como alho, sal, pimenta dedo-de-moça, cheiro-verde e laranja. A carne cortada manualmente também permanece como uma das marcas da receita.

Certificação

Um dos desafios da tradição é justamente preservar a identidade da linguiça sem apagar as histórias particulares das famílias que aprenderam a fazer o produto de seus pais e avós. Cada produtor carrega sua própria experiência. Mas, para que o produto possa ser reconhecido pela Indicação de Procedência, existem características e regras que precisam ser observadas.

A Aptralmar é a associação requerente do registro, e o caderno técnico estabelece critérios de produção, identificação e controle. Assim, as diferenças de prática entre os produtores podem conviver com características comuns verificáveis, que permitem ao consumidor reconhecer a origem e a autenticidade do produto certificado.

É uma tentativa de equilibrar duas coisas que caminham juntas na história da linguiça: a tradição familiar e a necessidade de preservar uma identidade coletiva. “Há espaço para a memória e a experiência de cada família, mas o uso da Indicação de Procedência exige a observância de especificações coletivas”, pontua Juliano.

“Ao colocar o produto no centro da celebração, a festa mantém visíveis a memória das famílias produtoras e o modo de fazer transmitido entre gerações. A origem está associada a famílias vindas do Triângulo Mineiro, que adaptaram a tradição da linguiça caseira à carne bovina abundante na região; a preservação técnica depende também dos produtores, da associação e das regras da Indicação de Procedência”, conclui.

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(Revisão: Dáfini Lisboa)

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