Os olhos lacrimejados durante o anúncio do fechamento da Barraca da Niria, na Feira Central, indicam que foi difícil para Tadashi Gabriel Nishihira Katsuren tomar a decisão de encerrar a tradição do estabelecimento pioneiro na venda de sobá de Campo Grande.
Mas o que levou o herdeiro, de 33 anos, da terceira geração da Barraca da Niria a fechar o restaurante? Apesar de relatar brevemente nas redes sociais que o encerramento acontece por motivos pessoais, a razão é muito mais profunda. Tadashi abriu mão do legado na gastronomia da Capital sul-mato-grossense justamente para cuidar de quem o manteve até agora: seu pai, Takeshi Katsuren, de 77 anos.
Ao Jornal Midiamax, Tadashi conta que o pai enfrenta complicações da diabetes. Ele teve um pé amputado e perdeu a visão. Além disso, o senhor Katsuren não se adapta a cuidadores.
“Meu pai estava com 40% e caiu para 10% da visão. Ou seja, ele está praticamente cego. Isso aconteceu faz pouco tempo. Então, no dia a dia, com a gente trabalhando na feira, que demanda muito tempo, principalmente à noite, de certa forma, estava falhando em conseguir cuidar do meu pai”, descreve.
“Ele é uma pessoa difícil; não gosta de ser tratado por cuidador, fora o custo bem alto [para pagar um profissional]. Eu sou filho único, não tenho com quem contar para dividir a tarefa de cuidar dele. Cuidar dele me afastou de cuidar do negócio como eu gostaria. Nos últimos anos, temos dividido a atenção entre o negócio e o meu pai. São decisões que acabam pendendo para algo que a gente não vai se arrepender, que é tentar tomar a escolha certa: cuidar dos entes queridos.”

Encerramento de um capítulo
A Barraca da Niria ajudou a construir a história do sobá na Feira Central. Logo, Tadashi entende que está fechando um capítulo importante para a família. No entanto, ele diz que tanto a feira quanto a cidade têm comerciantes que representam bem o sabor da iguaria. Inclusive, vizinhos da barraca são primos e continuarão trabalhando no ponto turístico.
“A história do sobá é muito maior que a gente hoje. A gente foi a primeira família a começar a vender na Feira Central, mas o crescimento, a fama, a força que o sobá vem tendo, ela vem junto com a força dos imigrantes da ilha de Okinawa. Então, encerra-se um restaurante, mas a colônia ainda vende.”
Ele diz que o prato tem origem na ilha de Okinawa, mas existe outro prato com o mesmo nome na ilha principal do Japão. As histórias das duas receitas acabam sendo misturadas, o que gera versões incorretas. Para ele, esse é um problema que dificilmente será possível corrigir por completo.

“Os imigrantes, os descendentes, ainda mantêm viva a história e a conexão do sobá com o seu passado, e a conexão do sobá com o futuro, com Campo Grande. Os clientes, com as pessoas que são apresentadas ao sobá hoje, que foram apresentadas 40, 60 anos atrás”, conta.
“A colônia okinawana de Campo Grande nunca perdeu a força, pelo contrário. A gente vem ganhando mais força com o tempo. Os eventos da cultura da colônia são expressivos. A colônia japonesa de Campo Grande tem uma porcentagem enorme dela, que veio toda da ilha de Okinawa, que é de onde veio o prato do sobá.”
Colecionando histórias
Tadashi cresceu na feira. A barraca tem 44 anos e ele, 33. Logo, coleciona histórias, conhecendo pessoas, famílias e guardando recordações. Foi por meio do atendimento que também criou amigos ao longo das últimas décadas.
“Sou uma pessoa muito ruim de memória, eu esqueço muita coisa, mas é engraçado porque decoro o pedido de vários clientes que frequentam a barraca. Tem cliente da mesma família que eu sei qual prato gosta. Então, a gente lembra com carinho dos clientes e a gente trata com carinho, como se fossem amigos. No final, é o que eles se tornam quando a gente conhece uma pessoa por tanto tempo e revê de forma tão constante como a que a gente faz.”
“A gente conhece muita gente, muitas histórias engraçadas, tristes, cômicas, que dão medo, que emocionam. São clientes que eu acompanho por uma vida inteira. O ato de reunir a família ou amigos para comer é um dos atos mais fraternos que tem. E foi isso que o restaurante trouxe nesses 44 anos para muitas famílias.”

Últimos dias
Filho da saudosa Níria Nishihira Katsuren, que faleceu em decorrência de um câncer, em 2020, Tadashi informou que o último atendimento está previsto para domingo (23).
Neste fim de semana, a barraca atende no almoço e no jantar, das 11h30 às 14h30 e das 18h30 às 22h30.
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(Revisão: Nichole Munaro)









