Em 2011, Marielly Barbosa Rodrigues foi encontrada morta, aos 19 anos, em um canavial na cidade de Sidrolândia, a 57 km de Campo Grande, após um aborto mal-sucedido. Mas como foram as investigações do caso à época? Experiência profissional, vida religiosa e até mesmo os sonhos marcaram as investigações conduzidas pela DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa).
A jovem foi encontrada morta no dia 11 de junho daquele ano. No entanto, a descoberta ocorreu três semanas após a mãe dela registrar o desaparecimento na 7ª DP (Delegacia de Polícia), em Campo Grande. Por fim, as investigações concluíram que a jovem foi vítima de um aborto mal-sucedido, cometido pelo enfermeiro Jodimar Ximenes Gomes.
Após 15 anos completos do caso que marcou Mato Grosso do Sul, o Jornal Midiamax conversou com um dos investigadores da Polícia Civil que atuou como chefe da equipe de investigação do caso Marielly Barbosa. Atualmente, o policial Eder Luis Flores, de 52 anos, atua como diretor jurídico do Sinpol-MS (Sindicato dos Policiais Civis de Mato Grosso do Sul), mas estava à frente da DHPP na época.

‘Peculiar’
Após a mãe da Marielly procurar a 7ªDP (Delegacia de Polícia) de Campo Grande, localizada na Avenida Júlio de Castilho, para registrar o desaparecimento da filha, o caso passou a ser investigado pela DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa). Assim, uma equipe composta por um delegado e três investigadores — sendo um deles Eder Luis — assumiu o caso.
Eder relata que a vida religiosa, a experiência profissional e até sonhos foram os elementos capazes de auxiliarem as investigações, que duraram cerca de 50 dias. Entretanto, o crime trouxe uma peculiaridade, isso porque um dos autores, Hugleice da Silva, fazia parte do núcleo familiar da jovem, sendo o cunhado dela.
“O caso da Marielly tem a peculiaridade de você tirar o culpado de dentro da proteção do núcleo familiar. Ele [Hugleice] não era um criminoso; ele não agiu para cometer um crime, ele agiu para tentar restaurar a moral dele e dela fazendo esse aborto, zerando o problema. A consequência da morte foi isso, o aborto. A intenção não era matá-la. Essa é a diferença, e a família protegia”, relatou o investigador.

Repercussão
O caso da jovem desaparecida, que foi posteriormente encontrada sem vida em um canavial em uma cidade no interior de MS, que na época tinha pouco mais de 43 mil habitantes, gerou grande repercussão. Inclusive, está entre os casos mais emblemáticos elucidados pela PCMS (Polícia Civil de Mato Grosso do Sul).
Para o investigador Eder, as investigações na época foram consideradas tensas, devido à pressão causada pela família, pela população e também pela própria imprensa, à procura de respostas para o caso.
“Tenso, porque a pressão era muito grande. Foi dedicação exclusiva. Eu deixei de viver, de ter um convívio familiar para dar essa resposta. Foi feito isso aí, dedicação exclusiva, a delegacia inteira dedicada a esse caso. Graças ao empenho de todos que foram envolvidos, nós conseguimos resolver esse caso, que foi muito complexo, muito fora da curva. Não é normal tudo isso”, relembrou.
O policial também comentou sobre o dia em que Hugleice foi indiciado. Segundo ele, não era possível entrar na Depac-Cepol (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário do Centro Integrado de Polícia Especializada), devido ao volume de jornalistas.
“Não dava nem para entrar na frente do Cepol, tínhamos que entrar correndo pela garagem, porque não conseguia, diante da imprensa e dos parentes todos lá. Eu chegava em casa, minha mulher questionava: ‘Como vocês fazem um negócio desse?’ Amigo cobrando, diretoria ligando, vai desmoralizar a polícia”, relembrou.

Ligações telefônicas
Durante a entrevista, o investigador revelou que um dos pontos-chave que indicaram o envolvimento de Hugleice no desaparecimento da cunhada foram as ligações telefônicas entre o acusado e a jovem, encontradas nos celulares. Eder revela que, nesse momento, a sua religião teria o auxiliado. Além disso, no primeiro contato com o homem, sentiu que ele tinha envolvimento na morte.
“Desde o primeiro dia que eu vi a dinâmica das ligações, na hora que eu olhei dentro do olho dele [Hugleice]. Eu sabia que ele tinha alguma culpa e sabia tudo, essa era intuição que eu tinha dentro de mim. Tinha uma ligação assim: 14h50, Hugleice ligou para ela, aí 14h52 ela ligou para o Hugleice. 14h54 ela ligou de volta. Então, isso causou estranheza na época; eu fiz a quebra de sigilo. Por que eles ligaram assim na sequência? Eu senti naquele dia que aqui tinha uma conversa. O escrivão até riu na época”, contou.

Sonhos
Durante os 50 dias de investigações, Eder, em uma madrugada, teve um sonho com o caso. No sonho, ele estava justamente na casa do enfermeiro Jodimar e ouviu uma voz dizer várias vezes: “Me tira daqui”.
“Sonhei que eu estava vendo uma tela de TV, e era um sistema de segurança. Olhei para a tela da TV, aquelas câmeras que filmam. Aí a pessoa chegou, colocou um rosto perto da câmera, apareceu aquele rosto certinho [rosto de Jodimar]. Na hora que eu vi o rosto dele, que ele olhou, eu escutei aquela voz: ‘Me tira daqui, me tira daqui, me tira daqui’. A imagem cortou e foi para a frente de uma casa, aí eu vi que a casa tinha uma grade vermelha baixinha, e a casa era amarela. Eu falei: ‘Ela está nessa casa’”, contou.
Durante as buscas, as equipes foram 25 vezes para Sidrolândia. Em um primeiro momento, a equipe não foi à residência porque Jodimar era considerado “muito ligeiro” e poderia fazer “uma limpeza” no local. Às 6h da manhã de outro dia, no entanto, resolveram ir até lá fazer buscas com a perícia. Assim, o outro investigador percebeu que a cor da casa era a mesma do sonho de Eder. “A casa é o que você falou do sonho, grade vermelha e amarela”, falou o colega do investigador-chefe do caso.
Como Hugleice conheceu Jurandir?
Segundo o investigador, Hugleice teria feito uma viagem a Campo Grande. Cerca de dez dias antes do acontecimento, ele teria levado uma caminhonete para a Capital, vindo de uma usina em Maracaju, onde trabalhava na época. Assim, ele retornou de ônibus para a Sidrolândia, mas já ciente de que a cunhada estava à espera de um filho dele.
Durante o retorno de ônibus, ele teria se sentado ao lado de uma pessoa que também morava em Sidrolândia. Naquele momento, Hugleice informou que tinha uma amiga com a intenção de fazer um aborto. Foi quando o passageiro indicou o enfermeiro para ele. Por fim, ele procurou Jodimar e marcou para levar a vítima ao local para realizar o procedimento.

Aborto marcado
Na data dos fatos, Jodimar estava com visita em casa, ocasião em que ficaram cerca de 20 minutos em um banco. Posteriormente, Marielly e Hugleice foram até a residência do enfermeiro. Dentro do imóvel, havia uma mulher fazendo limpeza na casa; Jodimar disse que não tinha problema, pois era uma pessoa de confiança.
Momentos depois, o enfermeiro foi para o quarto — composto por uma maca, instrumentos e anestésicos — com Marielly, enquanto Hugleice ficou na sala aguardando. Assim, o enfermeiro aplicou xilocaína nas partes íntimas da jovem e passou a perfurar o feto com uma agulha de crochê, em uma espécie de curetagem. Foi quando tudo aconteceu.
“Ela tinha pressão baixa. Por conta da dor, a pressão baixou mais ainda. Quando ele mexeu, deu hemorragia nela e ele levou ela para a sala; nisso, a menina da limpeza viu. Ele gritou para Hugleice que Marielly estava ruim. Hugleice já estava com a caminhonete, mas, como a carroceria era pequena, ele pegou uma tampa do material de uma estufa de bronzeamento, tirou a tampa, amarrou ela num lençol, colocou meio pendurado para dentro. Lacraram o corpo e levaram para os canaviais”, esclareceu.
Condenação
Em setembro de 2022, após 11 anos do caso que repercutiu até fora do Brasil, o enfermeiro e o cunhado de Marielly foram condenados a nove anos de prisão em regime inicial semiaberto. O julgamento da dupla durou cerca de 11 horas em Sidrolândia.
Ao Jornal Midiamax, o advogado José Roberto da Rosa, que atua na defesa de Hugleice, explicou que seu cliente foi condenado a quatro anos de reclusão pelo crime de instigação ao aborto com resultado morte.
Também tentou matar a esposa
Há alguns anos, a pena de Hugleice foi somada à pena por tentativa de homicídio contra a esposa dele, ocorrida em Mato Grosso. Portanto, ele cumpriu a primeira etapa no semiaberto e, agora, cumpre no regime aberto.
Inicialmente, o cunhado de Marielly negou participação no aborto. Já durante o julgamento em 2022, Hugleice confessou toda a participação, mas negou a paternidade e afirmou que não esteve no local durante o procedimento.
“Hoje ele trabalha na própria cidade, cumpre pena e, ao que tudo indica, nunca mais se envolveu em nenhum evento. Deve o livramento condicional no ano que vem. Não foi fácil fazer essa defesa, porque tínhamos a opinião pública contra e, principalmente, porque houve essa mudança de versão. Foi um caso muito difícil, muito triste”, lembrou o advogado José Roberto da Rosa à reportagem.
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(Revisão: Nichole Munaro)








