Para Silvia Morais, de 25 anos, a sensação é de estar vivendo um pesadelo. Irmã de Willian Douglas Souza Cabral, de 39 anos, morto no desabamento da estrutura de um supermercado na Avenida Rachel de Queiroz, no bairro Aero Rancho, em Campo Grande, ela soube da morte do irmão pelas redes sociais, na tarde de sexta-feira (5). Segundo Silvia, Willian tinha mais de 10 anos de experiência na área e vivia uma boa fase na carreira.
A família é natural da Capital sul-mato-grossense. No entanto, Silvia relata que o irmão era acostumado a viajar para trabalhar em empresas de pré-fabricados, especializadas na montagem de barracões em fazendas. Ele havia começado a trabalhar na construção do supermercado há 20 dias.
Silvia relata que a família descobriu a morte de Willian pelas redes sociais e pela imprensa e que a empresa responsável pela obra só entrou em contato no período da noite. A mãe da vítima, de 70 anos, chegou a passar mal e foi levada para uma unidade médica.
“O acidente aconteceu às 14h, quando vi o nome dele como uma das vítimas fatais. Minha mãe começou a ligar para ele; não atendia. Fui até a casa dele; os encarregados da obra tinham acabado de chegar para avisar minha cunhada do acidente”, descreve.
Trabalhador experiente
Silvia ainda ressalta que o irmão nunca havia registrado acidentes de trabalho antes do episódio. Contudo, ela narra que a atual empresa era conhecida por problemas de segurança em outras ocorrências.
“Não é o primeiro acidente que teve com funcionários. Para a empresa, é muito fácil falar em arcar com os custos funerários, mas é o mínimo. Até o momento, apenas encarregados [que entraram em contato], os proprietários não deram as caras até agora, nem para dar pesar, inclusive, não queriam nem vincular a empresa com os trâmites funerários”, pontua.
“Já estamos com assessoria jurídica. Vamos atrás dos responsáveis, porque eles tiraram o meu irmão da minha mãe. Eu nunca esperei ou imaginei ter que ver a minha mãe assinando o atestado de óbito do meu irmão. Eles tiraram a vida do meu irmão. Independe de quem negligenciou; nós vamos atrás”.
‘Dor imensurável’
Silvia e Willian têm 12 anos de diferença e cresceram juntos. Ela conta que o irmão era seu protetor na infância e que eram acostumados a se divertir juntos, no Jardim Centro-Oeste.
“Quando era criança, era grudada nele. Ele me levava quando ia jogar bola, andar de bicicleta, andar com o cachorrinho que tínhamos. Ele sempre foi uma boa pessoa. Tinha muitos amigos e conhecia todo mundo aqui da região. Todos assustados desde ontem. Ele tinha mandado um vídeo para a esposa em cima da estrutura [antes da fatalidade]”.
“Ele sempre foi muito apegado à minha mãe; todo dia, antes de ir trabalhar, mandava mensagem para ela dando ‘bom dia’, sempre muito conectado com a minha mãe, e para ela está sendo muito difícil. Meu irmão estava vivendo uma fase boa da vida dele, realizando sonhos e conquistando as coisas junto com a mulher. Fica uma dor imensurável, porque não tem nem cinco anos que perdi meu pai e agora meu irmão”, desabafa Silvia.
“Meus sobrinhos moram em outro estado: o mais velho, de 19 anos, mora no Mato Grosso, e meu sobrinho mais novo, de 8 anos, em Santa Catarina”.
Além da mãe e da irmã, Willian deixa duas enteadas, filhos e a esposa.
Por enquanto, não há informações sobre o horário do velório.
O acidente
A estrutura do supermercado em construção desabou na tarde desta sexta-feira (4), na Avenida Rachel de Queiroz, no bairro Aero Rancho, em Campo Grande. Nesta manhã (5), equipes do Crea, da perícia, engenheiros e responsáveis pela construção estiveram novamente no local para levantar informações sobre as circunstâncias do incidente.
Além de Willian, o desabamento também causou a morte de Joel Oliveira da Silva, de 41 anos, e deixou outros dois gravemente feridos. Segundo a avaliação do engenheiro Sidiclei Formagini, conselheiro do Crea-MS (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Mato Grosso do Sul), o acidente ocorreu durante uma das etapas consideradas mais críticas de uma obra com estrutura pré-fabricada de concreto.
Segundo Sidiclei, a obra estava na fase de montagem das estruturas pré-moldadas e fabricadas. De acordo com o engenheiro, o tipo de sistema é utilizado “há mais de um século” e, normalmente, é seguro quando todas as etapas são executadas de acordo com os procedimentos técnicos.
O processo, conforme o engenheiro, envolve quatro etapas: produção das peças, transporte até o local da obra, montagem da estrutura e, por fim, acabamento. O acidente aconteceu justamente durante a terceira fase.
“Prováveis causas, a gente tem que esperar a perícia técnica para apontar. Pode ser uma causa de projeto, pode ser uma causa de execução, pode ser uma outra causa que esteja desconhecida aí no momento”, afirmou ele.
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