Um tenente da Polícia Militar lotado no interior de Mato Grosso do Sul foi denunciado por agredir uma mulher e jogá-la ao chão dentro do BPM (Batalhão da Polícia Militar) na última terça-feira (6). O caso foi denunciado à Polícia Civil, ocasião em que a vítima pediu medidas protetivas de urgência contra o militar, que recebe salário de R$ 17 mil, conforme o Portal da Transparência.
O relacionamento entre a mulher e o tenente durou cerca de três anos e foi marcado por brigas, discussões e ameaças. Apesar de a relação ter começado com o militar demonstrando ser um “príncipe encantado”, com o tempo, a vítima passou a viver um verdadeiro pesadelo. Ela era ameaçada constantemente pelo tenente, que dizia: “Tem pessoas que fazem as coisas por ele e que não precisaria fazer nada”.
O relato recebido pelo Jornal Midiamax é de que a vítima chegou a pedir demissão do trabalho e teve roupas rasgadas. Segundo a mulher, o tenente justificava determinadas atitudes como cuidado, zelo e proteção. Quando pensava em terminar o relacionamento, acabava sendo manipulada e, por acreditar que era amada, chegou a normalizar algumas ameaças.
“Com o tempo, porém, minha vida começou a mudar. Aos poucos, tudo foi perdendo a cor. Cheguei a pedir demissão do meu trabalho. Em outras situações, tive minha roupa rasgada. E, quando eu questionava determinadas atitudes, ele dizia que aquilo era cuidado, zelo, proteção. E eu acreditei”, relatou.
Decidida a encerrar a relação, a vítima relatou que as discussões se intensificaram. Nos últimos dias, disse ao tenente que contaria tudo à esposa dele, pois iria escrever a palavra “corna” no carro da mulher — o que teria aumentado a tensão entre os dois. Em seu relato, a vítima reconhece que a história começou de forma errada e afirma: “um erro não justifica outro”.
Agressão no batalhão
Na noite de terça-feira (6), após uma discussão, a mulher foi até o batalhão para conversar com o tenente a pedido dele. Os dois estavam discutindo porque ela disse há algumas semanas que iria embora da cidade, mas o militar não teria aceitado.
Já na unidade policial, a mulher estranhou o fato do militar estar armado e, por medo, recusou-se inicialmente a entrar em uma sala reservada.
“Naquele momento, inclusive, tentei brincar: ‘Você está armado? O que está acontecendo? Você, com quase dois metros de altura, está com medo de mim, com menos de um metro e meio? Eu ri. Mas hoje entendo que meu corpo já estava me avisando que havia alguma coisa errada”, disse.
Ao afirmar que não entraria na sala reservada a pedido do militar, ele foi até a porta do carro da mulher e retirou a chave, ordenando que desembarcasse do veículo. Foi quando ela desceu, mas logo o tenente pediu o celular da mulher, afirmando que ligaria para o companheiro dela. Ele se abaixou para pegar o aparelho, mas a vítima segurou.
“Foi quando senti o primeiro golpe no rosto. Foi tão forte que fiquei tonta. Ainda assim, tentei me levantar e recuperar meu celular. Ele começou a me empurrar em direção ao interior do batalhão e prendeu minha mão em um dos portões. Acredito que, naquele momento, percebeu que havia pessoas observando pela sala do COPOM (Centro de Operações da Polícia Militar)”, contou.
A mulher foi agredida novamente com dois golpes e caiu ao chão. Ela tentou reagir, mas sofreu um tapa no rosto, momento em que dois policiais intervieram.
“O nervosismo dele, naquele dia, não era apenas porque eu iria embora da cidade. Era também porque eu havia dito que contaria tudo à esposa dele. E foi justamente isso que tornou tudo ainda mais assustador para mim”, lembrou a mulher.
Inicialmente, a vítima optou por não fazer nada, mas saiu do batalhão passando mal e decidiu ir até o hospital da cidade. “Consegui chegar ao hospital e, por medo, menti. Disse que havia caído. Eu não me sentia segura. Na minha cabeça, naquele momento, era a própria equipe que ele comandava”, relatou.
Por volta das 5h da manhã, contou à médica que havia sido agredida e, depois, decidiu ir até a Dam (Delegacia de Atendimento à Mulher) para denunciar o tenente.
“Hoje eu me pergunto: onde vamos chegar? Quem deveria nos proteger acaba sendo justamente a pessoa que nos machuca? Quem imaginaria que, dentro de um batalhão da Polícia Militar, eu viveria uma situação de violência justamente pelas mãos de um homem que eu amei por três anos, que dizia me amar, que dizia querer me proteger e que tantas vezes me fez acreditar que tudo aquilo era cuidado?”, questionou a vítima.
‘Escolhi não me calar’
À reportagem, a mulher deixou claro que não decidiu tornar o caso público por vingança, mas para alertar outras mulheres sobre os sinais de um relacionamento abusivo.
“Estou compartilhando porque talvez outra mulher esteja vivendo algo parecido e ainda não consiga enxergar. Se o meu relato servir para que uma única mulher reconheça os sinais antes que seja tarde, então talvez falar sobre tudo isso tenha valido a pena. Eu demorei para enxergar. Mas hoje eu escolhi não me calar”, finalizou.
Após a agressão, a vítima disse ter questionado o tenente se as coisas iriam ficar daquela maneira e ele teria respondido que ela deveria tomar as medidas que quisesse, pois “estava muito difícil a situação para ele no batalhão”.
Diante dos fatos, o Jornal Midiamax acionou a PMMS (Polícia Militar de Mato Grosso do Sul) e aguarda um posicionamento. O espaço segue aberto para manifestações futuras.
📍 Onde buscar ajuda em MS
Em Campo Grande, a Casa da Mulher Brasileira está localizada na Rua Brasília, s/n, no Jardim Imá, 24 horas por dia, inclusive aos fins de semana.
Além da Deam, funcionam na Casa da Mulher Brasileira a Defensoria Pública; o Ministério Público; a Vara Judicial de Medidas Protetivas; atendimento social e psicológico; alojamento; espaço de cuidado das crianças – brinquedoteca; Patrulha Maria da Penha; e Guarda Municipal. É possível ligar para 153.
☎️ Existem ainda dois números para contato: 180, que garante o anonimato de quem liga, e o 190. Importante lembrar que a Central de Atendimento à Mulher – 180 é um canal de atendimento telefônico, com foco no acolhimento, na orientação e no encaminhamento para os diversos serviços da rede de enfrentamento à violência contra as mulheres em todo o Brasil, mas não serve para emergências.
As ligações para o número 180 podem ser feitas por telefone móvel ou fixo, particular ou público. O serviço funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana, inclusive durante os fins de semana e feriados, já que a violência contra a mulher é um problema sério no Brasil.
Já no Promuse, o número de telefone para ligações e mensagens via WhatsApp é o (67) 99180-0542.
📍 Confira a localização das DAMs, no interior, clicando aqui. Elas estão localizadas nos municípios de Aquidauana, Bataguassu, Corumbá, Coxim, Dourados, Fátima do Sul, Jardim, Naviraí, Nova Andradina, Paranaíba, Ponta Porã e Três Lagoas.
⚠️ Quando a Polícia Civil atua com negligência, má vontade ou comete erros, é possível denunciar diretamente na Corregedoria da Polícia Civil de MS pelo telefone: (67) 3314-1896 ou no Gacep (Grupo de Atuação Especial de Controle Externo da Atividade Policial), do MPMS, pelos telefones (67) 3316-2836, (67) 3316-2837 e (67) 9321-3931.





