Ao sair da 1ª Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher), o médico cardiologista João Jazbik Neto, de 78 anos, culpou novamente o irmão da fisioterapeuta Fabíola Marcotti, de 51 anos, pela morte dela. O réu pelo feminicídio da ex-companheira voltou a ser preso na tarde desta quinta-feira (3) após o desembargador Emerson Cafure revogar a liminar que concedeu a liberdade provisória ao médico.
Após realizar os trâmites necessários na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, o médico foi encaminhado para a sede do Garras (Delegacia de Repressão a Roubo a Banco, Assaltos e Sequestros), onde aguardará a audiência de custódia.
Com exclusividade, ele falou com a reportagem do Jornal Midiamax. Enquanto estava caminhando até a viatura, no estacionamento da Deam, ele novamente voltou a afirmar que não matou a fisioterapeuta, mas culpou o irmão pela morte.
“Eu não matei a Fabíola. O episódio que aconteceu com a Fabíola, eu acho que foi um problema do irmão dela ser inimigo da família. A mãe dela tinha um aneurisma de barriga; ele veio de São Paulo de mão aberta e falou: ‘Eu vou cuidar disso’. Levou dois dias operando [a equipe], foi para o CTI e morreu”, disse João com exclusividade ao Jornal Midiamax.

Conforme o réu pelo feminicídio de Fabíola, a partir da morte da mãe, a vítima nunca mais teria sido a mesma. “A partir desse dia, a vida da Fabíola acabou; eu vivia em classe A com a Fabíola”, frisou.
‘Fabíola sempre foi respeitada’
Ele afirmou à reportagem que nunca agrediu nenhuma mulher. “Eu nunca dei um beliscão em mulher nenhuma, eu acho que as mulheres precisam ser respeitadas. A Fabíola sempre foi respeitada; ela tinha o problema dela. ‘Você cuida de mim, e eu cuido de você.’ Esse era o nosso projeto, até chegar o irmão dela e acabar com a vida dela”, pontuou.
Diário
Apesar de João dizer que Fabíola sempre foi respeitada, textos escritos a próprio punho no diário da vítima revelam ao contrário.
Era em folhas brancas de uma caderneta que Fabiola descrevia a violência psicológica sofrida rotineiramente no casamento. Os textos começaram a ser escritos em 2022; inclusive, em um deles, a fisioterapeuta chegou a mencionar que o caderno teria se tornado verdadeiramente um diário.
E era justamente nele que, desde 2022, a mulher registrava parte do seu dia a dia ao lado do cardiologista. O último texto foi escrito no dia 16 de maio deste ano, dias antes da sua morte.
O feminicídio de Fabiola foi antecedido por inúmeros pedidos de socorro silenciosos: “SOCORRO, SOCORRO, SOCORRO”.
Para a polícia, a violência psicológica, descrita por Fabíola, não é um crime menor ou acessório. Foi a base sobre a qual o feminicídio foi construído. “O agressor não matou Fabiola apenas com um golpe e um tiro: ele a matou lentamente, dia após dia”, é citado.

Relembre
Fabiola foi encontrada morta com um tiro na cabeça em sua casa, uma propriedade na Chácara dos Poderes, em Campo Grande. A mulher morava com o marido quando foi encontrada sem vida no dia 18 de maio deste ano. Na ocasião, o médico chegou a acionar a polícia e alegou que a esposa teria cometido suicídio.
Ao chegarem ao local, os militares encontraram o marido da vítima e equipes do Corpo de Bombeiros, que já haviam constatado o óbito. Aos policiais, o médico disse que a esposa fez atividades de rotina matinal e, em determinado momento, foi para o andar superior da casa, onde fica o quarto do casal.
Na ocasião, o médico contou ter estranhado a demora de Fabiola e decidiu subir para verificar a situação. Quando chegou, alegou ter encontrado a porta do quarto fechada. Ele bateu à porta, mas não foi respondido.
Em seguida, o cardiologista desceu até a cozinha e ligou para Fabiola, mas ela não atendeu. Pouco tempo depois, ele disse ter ouvido um disparo de arma de fogo e retornou ao andar superior, momento em que viu a porta do quarto aberta e a companheira caída ao chão. Ele não soube precisar o horário exato.
Segundo o registro policial, o médico acionou seu ex-caseiro, que chegou ao imóvel pelos fundos. Logo, ele e os atuais caseiros foram até o quarto e acionaram o 190.
A 1ª Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) instaurou inquérito para investigar o caso.
O cardiologista também foi preso, no dia da morte de Fabiola, por posse irregular de arma de fogo, após a polícia encontrar armamento sem documentação na casa.
Para os familiares da vítima, a decisão judicial assegura que os laudos periciais e os depoimentos das testemunhas sejam concluídos com “rigor técnico”. O caso segue sendo investigado.
📍 Onde buscar ajuda em MS
Em Campo Grande, a Casa da Mulher Brasileira está localizada na Rua Brasília, s/n, no Jardim Imá, 24 horas por dia, inclusive aos fins de semana.
Além da Deam, funcionam na Casa da Mulher Brasileira a Defensoria Pública; o Ministério Público; a Vara Judicial de Medidas Protetivas; atendimento social e psicológico; alojamento; espaço de cuidado das crianças – brinquedoteca; Patrulha Maria da Penha; e Guarda Municipal. É possível ligar para 153.
☎️ Existem ainda dois números para contato: 180, que garante o anonimato de quem liga, e o 190. Importante lembrar que a Central de Atendimento à Mulher – 180 é um canal de atendimento telefônico, com foco no acolhimento, na orientação e no encaminhamento para os diversos serviços da rede de enfrentamento à violência contra as mulheres em todo o Brasil, mas não serve para emergências.
As ligações para o número 180 podem ser feitas por telefone móvel ou fixo, particular ou público. O serviço funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana, inclusive durante os fins de semana e feriados, já que a violência contra a mulher é um problema sério no Brasil.
Já no Promuse, o número de telefone para ligações e mensagens via WhatsApp é o (67) 99180-0542.
📍 Confira a localização das DAMs, no interior, clicando aqui. Elas estão localizadas nos municípios de Aquidauana, Bataguassu, Corumbá, Coxim, Dourados, Fátima do Sul, Jardim, Naviraí, Nova Andradina, Paranaíba, Ponta Porã e Três Lagoas.
⚠️ Quando a Polícia Civil atua com negligência, má vontade ou comete erros, é possível denunciar diretamente na Corregedoria da Polícia Civil de MS pelo telefone: (67) 3314-1896 ou no Gacep (Grupo de Atuação Especial de Controle Externo da Atividade Policial), do MPMS, pelos telefones (67) 3316-2836, (67) 3316-2837 e (67) 9321-3931.









