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Polícia

Selfies, abraço e karaokê: relatório da PF revela intimidade entre delegado e traficantes

A Polícia Federal aponta que Hoffman teria lucrado cerca de R$ 15 milhões com a venda de cocaína
Layane Costa, Thatiana Melo -
Operação contra PCC e CV prendeu 10 criminosos em três cidades de MS
Delegado Hoffman D’Ávila. (Foto: Helder Carvalho, Midiamax)

Fotos anexadas ao relatório da Operação Ifrit, que tinha 29 alvos por integrar uma quadrilha de tráfico de drogas, com desvio de cocaína da Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico) durante o comando do delegado de Polícia Civil Hoffman D’Ávila Candido e Sousa, revelaram laços de intimidade entre o então chefe da especializada e integrantes do ‘Clã Haidar’.

As imagens mostram despedidas com abraços, momentos de descontração com direito a karaokê e até visitas noturnas dos traficantes na sede da Denar, localizada no Itatiaia, em . Tudo isso, segundo a Polícia Federal, evidencia a relação de proximidade pessoal entre Hoffman e os demais investigados de pertencer à organização criminosa.

A PF aponta que o Hoffman teria lucrado R$ 15 milhões com a venda de cocaína. Ainda, segundo informações, o delegado misturava fermento e farinha à droga. Ele teria vendido cerca de duas toneladas de cocaína desviadas do depósito da Denar, por valores entre R$ 8,5 mil e R$ 10,5 mil o quilo.

O delegado Hoffman, preso desde setembro, quando foi alvo da Operação Infiltrados, agora é apontado por ocupar papel central na blindagem investigativa e operacional da organização, funcionando como o principal agente público cooptado pelo grupo. Inclusive, seria responsável por fornecer informações sigilosas sobre o andamento de investigações e ações policiais, viabilizar a restituição de bens e veículos apreendidos em flagrantes de interesse da organização e, segundo indícios, participar do desvio e da revenda de entorpecentes apreendidos pela própria corporação policial.

Delegado Hoffman D’Ávila. (Foto: Arquivo/Madu Livramento, Midiamax)

Imagens revelam laço de intimidade

No relatório, são apontadas fotos aparentemente registradas no interior da Denar, por Adule Vasques Haidar, um dos filhos de Adel Hassan Haidar — visto como peça central da organização criminosa, com controle do núcleo de comando, operacional e financeiro de todo o grupo.

Conforme a Polícia Federal, as imagens foram registradas na noite de dezembro de 2025 e demonstram certa frequência na suposta visitação de Adule à sede da delegacia. Nas imagens, é possível ver Adule ao lado de outro investigado, Vitor da Silva, apontado como operacional da organização criminosa.

Em uma das fotos, tirada como selfie, ambos aparecem em frente a uma porta dentro da delegacia, na qual consta a inscrição “Arquivo Investigação”, acompanhada do logo da Denar. Inclusive, na imagem, Adule aparece apontando para a placa. Já em outra foto, em outro ângulo, Adule e Vitor da Silva aparecem novamente no interior da delegacia, sendo possível visualizar, ao fundo, o logotipo da Denar.

Denar. (Foto: Henrique Arakaki, Midiamax)

Adel Hassan e Hoffman

Há registros também de Hoffman, com Adel Hassan Haidar, ou seja, o pai de Adule. Dois encontrados foram registrados pela Polícia Federal, sendo em novembro de 2025 e março deste ano. Em um deles, Adel aparece ao lado de Hoffman empunhando uma arma longa, em um teste aparentemente de pontaria. Já no segundo encontro, Adel e Hoffman se despedem com um abraço.

Em um vídeo gravado em maio do ano passado, em (MS), o delegado aparece na companhia de Adel, em momento de aparente confraternização, enquanto ambos se divertem ao som de um aparelho de ‘karaokê’. Para a Polícia Federal, isso evidenciou a relação de proximidade pessoal entre eles.

Conforme o relatório, além dessas relações mais íntimas, Hoffman também integraria reuniões de alinhamento com a cúpula da organização para tratar de ameaças, conflitos internos e represálias contra desafetos, recebendo, em contrapartida, valores pecuniários repassados por meio de contas de terceiros a ele vinculados.

Conheça os 29 alvos da operação:

  • Adel Hassan Haidar
  • Adule Vasques Haidar
  • Andrey Elesbão Silva
  • Bassam Hassan Haidar Ahmed
  • Brendo Benega Pereira
  • Bruno Banega
  • Bruno Leonardo Bergamasco
  • Daniel Ecleverson da Silva Barbosa
  • Daniel Jonatas Ferreira
  • Douglas Tobias
  • Eduardo Greco
  • Fahd Haidar
  • Hector Salinas Esquivel
  • Hoffman D’Ávila Candido e Sousa
  • Ireneo Ramom Acosta
  • João Fernando Andrade de Carvalho
  • Jorge Adalid Granier Ruiz
  • José Miguel Vela Caprioli Junior
  • Mamede Alhaj Haidar
  • Maroan Fernandes Haidar Ahmed
  • Nasser Haidar
  • Pedro Henrique Flores Camargo
  • Rafael Rodas Neto
  • Renan Braiana Garcia Presotto
  • Salazar José Batista
  • Valdeson Pereira dos Santos
  • Valter Ulisses Martins Silva
  • Victor Hugo Santos Queiroz
  • Vitor da Silva

Grupo criminoso é alvo de operação em 7 estados

A Operação Ifrit cumpre 76 mandados judiciais, sendo 25 deles de prisão, e é realizada em Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Goiás e Rondônia. Três policiais civis foram afastados das funções.

O grupo de traficantes usava Mato Grosso do Sul como porta de entrada para o mercado clandestino de armas e drogas, utilizando um sofisticado esquema para lavar cerca de R$ 500 milhões em dinheiro do crime, que foram movimentados em dois anos.

A PF investiga a atuação da organização criminosa transnacional liderada por um núcleo familiar e associada a facções criminosas, com participação de policiais civis e militares e um policial da PRF.

O grupo é investigado pelos crimes de tráfico transnacional de drogas, tráfico internacional de armas, lavagem de dinheiro e delitos violentos, como sequestros, torturas, atentados e homicídios. Eles usavam armas, estruturas de apoio e carros blindados para exercer o controle territorial e intimidar rivais.

As investigações revelaram que o grupo atuava principalmente na região de fronteira entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, com ramificações em outros estados. As drogas e as armas eram obtidas na Bolívia, no Peru e no Paraguai, abastecendo as redes de distribuição no Brasil e as rotas de tráfico de entorpecentes destinadas à Europa, especialmente Espanha e Portugal.

Diante do mandado contra o delegado Hoffman na Capital, o Jornal Midiamax acionou a defesa, representada pelos advogados José Roberto Rodrigues da Rosa, João Pedro da Silva Fialho, Lucas de Nobrega Fuzinatto e Jakson Gomes Yamashita, que, em nota, disse:

“O Delegado Hoffman já se encontrava submetido a custódia cautelar em razão de outro procedimento e, após o cumprimento da nova ordem judicial, foi encaminhado à unidade prisional competente.

Até o presente momento, a Defesa não obteve acesso integral aos autos, à decisão que fundamentou a nova prisão preventiva, tampouco ao conjunto de elementos probatórios que embasaram as medidas cumpridas nesta operação.

Por essa razão, qualquer manifestação sobre o mérito das novas imputações seria prematura e incompatível com o exercício responsável da defesa técnica.

ssim que for franqueado acesso integral ao procedimento, a Defesa realizará a análise jurídica e probatória do caso e adotará todas as medidas processuais cabíveis, assegurando ao Delegado Hoffman o pleno exercício do contraditório, da ampla defesa e das demais garantias constitucionais.

A Defesa reitera que prisões cautelares e medidas investigativas não representam juízo definitivo de responsabilidade penal, devendo os fatos ser examinados no devido processo legal e à luz das provas efetivamente produzidas.”

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(Revisão: Dáfini Lisboa)

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