CPI do Crime: fronteira com MS é ‘eixo’ de líderes de facções, Rota Caipira e ‘repelente’ de operações Pular para o conteúdo
Política

CPI do Crime: fronteira com MS é ‘eixo’ de líderes de facções, Rota Caipira e ‘repelente’ de operações

Diretor de inteligência da PF e promotor especialista em PCC participaram da CPI do Crime
Dândara Genelhú -
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Diretor da PF, Leandro Almada da Costa. (Foto: Geraldo Magela, Agência Senado)

A fronteira seca com a Bolívia — que possui trecho em Mato Grosso do Sul — é apontada como ‘eixo’ de líderes de facções, da Rota Caipira e como ‘repente’ de operações. As afirmações foram feitas nesta terça-feira (25), durante oitivas na CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Crime Organizado.

O promotor Lincoln Gakiya, que investiga o PCC (Primeiro Comando da Capital) desde o início da década de 2000, destacou que “parte da cúpula do PCC está em liberdade, está na Bolívia”. MS possui 1,5 mil quilômetros de fronteira com países vizinhos.

Entre eles, citou “Patrick Velinton Salomão — o ‘Forjado’ —, que é o integrante da Sintonia Fina, que tem autonomia para tomar decisões estratégicas”. Além disso, apontou também “Pedro Luiz da Silva, que é o ‘Chacal’, que também está na Bolívia”.

Aos senadores, o promotor especialista disse que os integrantes vivem de forma luxuosa na fronteira com o país. “Através de um smartphone, eles conseguem comandar o crime organizado aqui no Brasil com bastante tranquilidade”, pontuou.

Luxo na fronteira

Ademais, o promotor demonstrou revolta na CPI. Isso porque os criminosos vivem na ‘ostentação’. “Nós temos criminosos procurados, em difusão na lista vermelha da Interpol, que estão na Bolívia. Chegou num ponto de revolta, em que você sabe que os indivíduos moram em Santa Cruz de la Sierra”, disse.

Gakiya detalhou as condições dos líderes de facções: “Condomínios extremamente luxuosos, levando vida de milionários, com documento falso, com proteção de autoridades da Bolívia, proteção policial, e às vezes até das Forças Armadas”. Em seguida, afirmou que “nada disso reflete, por exemplo, em uma extradição ou mesmo uma prisão”.

Logo, criticou a falta de ajuda do país vizinho e expôs esperança com o novo governo boliviano. “Então, eu acho que o Brasil precisa cobrar isso, estreitar esse relacionamento, esse intercâmbio, e exigir o cumprimento de mandados de prisão, que estão reabertos há décadas, às vezes”.

⏱️ Resumo:

  • Líderes do PCC na Bolívia: o promotor Lincoln Gakiya confirmou que a cúpula do PCC comanda as operações do crime organizado no Brasil a partir de vidas luxosas na Bolívia.
  • Impunidade e proteção: Gakiya lamentou na CPI que criminosos procurados vivam em ostentação na Bolívia, protegidos por autoridades locais (polícia e Forças Armadas).
  • Vazamento de operações: o diretor de inteligência da PF, Leandro Almada da Costa, apontou dificuldade na cooperação com a Bolívia e disse que as operações ‘vazam’ no país.
  • Controlar a fronteira é utopia: O diretor-geral da PF, Andrei Augusto Passos Rodrigues, alertou que o controle total dos 17 mil km de fronteira do Brasil é “utópico”.
  • Investimento e Cooperação: Almada e Gakiya destacam a necessidade do investimento urgente em recursos, inteligência, maior integração e cooperação entre as forças de segurança nacionais e internacionais.
PCC, CV, TCP
Imagem ilustrativa do PCC em MS. (Foto: Henrique Arakaki, Jornal Midiamax)

Rota Caipira e ‘repelente de operações’

Além de ‘eixo’ dos líderes, a fronteira com a Bolívia integra a Rota Caipira, caminho do tráfico de cocaína. O diretor de inteligência da PF (Polícia Federal), Leandro Almada da Costa, apontou a fronteira boliviana como rota de entrada.

“A gente tem toda aquela Rota Caipira, a gente tem a divisa com Bolívia, a Bolívia é um país terrível para a gente trabalhar hoje”, lamentou. Assim, aproveitou os apontamentos de Gakiya para reforçar: “A gente tem dados de lideranças grandes, dados concretos e firmes de localização”.

No entanto, admitiu desafio na região: “A gente não consegue virar operações lá, porque 90% vazam. Espero que mude o cenário lá, enfim, mas a gente está tendo muita dificuldade de atuar lá”, lamentou.

Estados fronteiriços

Costa apontou caminhos para melhorias da atuação nas fronteiras. “A gente tem que sair dessa armadilha da terceirização de responsabilidade, porque o Brasil também não é um país com 16 mil quilômetros de membrana em que entra uma coisa só. Nós temos 700 mil policiais”, citou.

Contudo, disse que o efetivo se divide entre tarefas administrativas e práticas no combate ao tráfico. “Os estados fronteiriços fazem parte dessa luta com a gente”, pontuou.

Por fim, destacou aos senadores: “Não tem mágica: é investimento em capacidade investigativa, troca de informações, cooperação”. Reforçou que “o desafio é gigantesco”. Por isso, “tem que ter muito mais suporte, muito mais recurso e tem que realmente entender que isso é um problema de todos”.

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Instalação da CPI do Crime Organizado. (Foto: Andressa Anholete, Agência Senado)

Desafios da fronteira

Na primeira oitiva da CPI, em 18 de novembro, o combate às facções nas fronteiras secas do país foi assunto. Mato Grosso do Sul possui 1,5 mil quilômetros de fronteira com países vizinhos. O controle absoluto das faixas de fronteiras é “utópico”, afirmou o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Augusto Passos Rodrigues.

Então, ao presidente da CPI, senador Fabiano Contarato (PT), o diretor da PF lembrou que o Brasil possui 17 mil quilômetros de fronteira. São 3,4 mil quilômetros apenas com a Bolívia.

Em contraponto, disse que os Estados Unidos possuem 3,1 mil quilômetros de fronteira com o México. “Então, os Estados Unidos e o México têm uma fronteira menor que a nossa fronteira”, pontuou Rodrigues.

‘Devassa’ em dados

Um pedido de dados sobre conflitos na fronteira está entre os primeiros requerimentos aprovados pela CPI do Crime Organizado. Assim, o Ministério da Justiça e Segurança Pública receberá pedido para fornecer dados sobre facções nos últimos cinco anos — de 2021 até 2025.

CPI foi instalada no Senado em 4 de novembro, com eixos de investigação centralizados no crime organizado. Para isso, os parlamentares devem investigar o tráfico, a milícia, o uso de fintechs, bancas de advocacia, criptomoedas para a lavagem de dinheiro e a necessidade de integração entre os órgãos de segurança pública e as Forças Armadas.

O senador Alessandro Vieira (MDB) também é autor do requerimento. Logo, na sessão de abertura dos trabalhos, pontuou que requer “todos os dados referentes a relatórios de inteligência policial; dados estatísticos consolidados, especialmente de apreensões de drogas, de armas de fogo — com distinção por calibre, origem e localização”.

Além disso, o senador destacou o pedido de informações sobre “crimes patrimoniais ligados a organizações criminosas — como roubo de carga, roubo a banco, extorsão mediante sequestro — e conflitos em área de fronteira; dados da PRF e PF de operações policiais”.

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(Revisão: Nichole Munaro)

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