O BC (Banco Central) decretou nesta quinta-feira (3) a liquidação extrajudicial das distribuidoras de títulos Banvox DTVM e Trustee DTVM. A medida interrompeu imediatamente as atividades das duas instituições financeiras em São Paulo, bloqueou os bens dos seus controladores e abriu um novo capítulo no escândalo que envolve o colapso do Banco Master, disputas bilionárias com gigantes do agronegócio e conexões que chegam a Mato Grosso do Sul.
Reportagem publicada em abril pelo Jornal Midiamax já havia revelado que empresários e produtores rurais de MS estavam entre supostos ‘laranjas’ do esquema bilionário do Banco Master.
Segundo o órgão regulador, o encerramento forçado das operações foi motivado por “graves violações às normas legais que disciplinam as atividades das instituições”. Ambas integravam o mesmo conglomerado financeiro.
Apesar de a Banvox e a Trustee representarem uma fração pequena do sistema bancário nacional, os nomes por trás das instituições estão na teia de negócios que envolve a queda do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro (preso desde março), a família Rezende Barbosa (ex-dona do Banco Voiter e com forte presença no agronegócio) e fundos operados em Mato Grosso do Sul.
A Banvox DTVM e a Trustee DTVM funcionavam como “engrenagens” para estruturar e administrar fundos de investimento, debêntures e operações de crédito de mercado.
A família Rezende Barbosa (do Banco Voiter) controlou por muitos anos o banco Indusval, que aparece como credor em diversas recuperações judiciais do agro em MS, como o caso do Grupo Sperafico, por exemplo, que declarou dívida de R$ 1 bilhão em ação que tramita na Justiça de Mato Grosso do Sul.
A ligação da família Rezende Barbosa com o escândalo envolve uma operação financeira de R$ 470,5 milhões estruturada para a capitalização do Banco Master. Para viabilizar o negócio, a Banvox Holding Financeira emitiu debêntures (títulos de dívida) que contavam com a fiança solidária dos ex-sócios do Master (como Vorcaro) e com a Trustee DTVM atuando como agente fiduciária para fiscalizar a operação.
No entanto, após o não pagamento do valor combinado, a família acionou a Justiça de São Paulo para cobrar uma dívida restante de R$ 247,3 milhões e destituiu a Trustee do papel de fiscal, acusando a distribuidora de omissão e conflito de interesses — já que Maurício Quadrado figurava simultaneamente como fiador do débito e controlador da holding da própria Trustee.
Com disparada de recuperações judiciais, banco de Vorcaro afundou gigantes do agro em MS
Impactos em Mato Grosso do Sul
A liquidação da Banvox e a derrocada do ecossistema do Banco Master trazem desdobramentos diretos para Mato Grosso do Sul.
O grupo de Daniel Vorcaro e os fundos geridos por essas distribuidoras possuíam operações de crédito, títulos e garantias atrelados a grandes empresas do setor agropecuário, com forte presença no Estado, incluindo grupos em recuperação judicial bilionária.
Para entender como essas distribuidoras operavam na prática em MS, basta olhar um processo que tramitou no TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul). A Trustee DTVM (atuando em nome de um fundo de investimentos) tentou registrar no Cartório do 1º Ofício de Corumbá a penhora de uma propriedade de uma indústria no município para garantir o pagamento de dívidas.
No entanto, o cartório barrou o pedido por causa de um bloqueio judicial. O mesmo imóvel já estava bloqueado por uma ordem de arresto vinda da 5ª Vara Cível de Dourados.
Esse bloqueio é desdobramento da falência da Usina São Fernando (antigo complexo sucroalcooleiro), que deixou uma dívida de R$ 2,2 bilhões com bancos e fornecedores. Na prática, a distribuidora tentou ficar com a garantia do imóvel, mas esbarrou no bloqueio da megafalência de Dourados que já protegia os bens para pagar a lista geral de credores. O impasse foi parar na Vara de Fazenda e Registros Públicos de Corumbá.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)






