A negociação adiantada do acordo de colaboração premiada de João Carlos Mansur, ex-dono da gestora Reag Investimentos, pode revelar teia de laranjas que contava com empresários e produtores rurais em Mato Grosso do Sul.
No início do mês, Mansur foi ouvido por um juiz auxiliar do gabinete do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça. Esse é o último passo antes de o pedido de colaboração, já firmado com a PGR (Procuradoria-Geral da República), ser homologado. É a 1ª delação firmada pela Procuradoria na Operação Compliance Zero.
A Reag, que chegou a administrar R$ 300 bilhões em ativos, funcionou como a principal engrenagem financeira para fraudes do Banco Master, de Daniel Vorcaro — que está preso desde março —, e também em esquemas de lavagem de dinheiro investigados na Operação Carbono Oculto — ambos com implicações diretas no Estado.
Reportagem publicada em abril pelo Jornal Midiamax revelou que empresas e produtores estavam na lista da Polícia Federal por terem tomado empréstimos suspeitos por meio da Reag.
‘Recrutador’ da Reag para esquema do Banco Master em MS

Conforme apurado pela reportagem, uma das supostas ‘vítimas’ do esquema em MS teria tomado um empréstimo no valor de R$ 400 milhões. O dinheiro de fato entrou numa conta bancária, mas para o empresário ‘sobrou’ cerca de R$ 10 milhões na conta.
O restante do dinheiro era ‘reinvestido’ em fundos administrados pela gestora Reag e, segundo as investigações, esses recursos eram usados para bancar créditos podres e inflar ativos financeiros.
Em outro caso, produtor rural obteve empréstimo de R$ 40 milhões. Mas, na verdade, a ‘parte’ dele era R$ 2 milhões, que foi o valor indicado como parte de uma propriedade que deixou como garantia.
Empréstimo de R$ 600 milhões em MS foi parar na Justiça
Um dos casos mostrados pela reportagem mostrou a situação de um empresário do setor frigorífico de Mato Grosso do Sul, que move ação contra o BRB (Banco de Brasília) por estar sendo cobrado por uma dívida de R$ 600 milhões, referente a um empréstimo feito por intermédio da Reag.
Para adquirir novas plantas frigoríficas, o empresário tomou o empréstimo. A operação foi estruturada de forma a contar com garantia fiduciária lastreada em cotas do fundo de investimento Titânia, administrado pela Reag.
No entanto, o empresário alegou que enfrentou empecilhos para conseguir aprovação do conselho do fundo para comprar plantas frigoríficas. “Sempre apontavam algum problema e não aprovavam a compra”, disse, afirmando que, durante esse tempo, o dinheiro ficou sob os domínios do fundo da Reag.
A expectativa é de que a delação de Mansur detalhe se os fundos administrados pela Reag desenharam propositalmente as cláusulas contratuais e as trocas de títulos que sufocaram os grupos produtivos locais.
O corredor de R$ 3 bilhões do crime organizado em MS

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As apurações policiais revelam que a malha de fundos estruturada pela Reag serviu de blindagem para lavar recursos do crime organizado, utilizando MS como corredor estratégico. Investigações apontam que chefias ligadas à facção criminosa PCC usaram empresas de fachada e distribuidoras de combustíveis no Estado para movimentar e ocultar mais de R$ 3 bilhões somente em Mato Grosso do Sul.
A engenharia financeira da gestora permitia transformar dinheiro vivo oriundo do tráfico em cotas de fundos imobiliários e de investimentos em participações, escondendo os reais beneficiários sob camadas de papéis e CNPJs mantidos em sigilo.
Tudo está sendo apurado na Operação Carbono Oculto, da PF, que recentemente apresentou mais uma denúncia contra o empresário Mohamad Hussein Mourad, conhecido como ‘Primo’, e seu parceiro de negócios Roberto Augusto Lemes da Silva, o ‘Beto Louco’.
Conforme as investigações, Moahamad ‘Primo’ operava distribuidoras de combustíveis em Mato Grosso do Sul para blindar e diluir o patrimônio da facção. Os dois continuam foragidos da Justiça.
A defesa de Mohamad ‘Primo’, representada pelo advogado Conrado de Almeida Prado enviou nota: “A denúncia repete todo o estratagema que a Operação Carbono Oculto vem desenvolvendo desde que foi deflagrada, uma estratégia especulação sobre fatos não provados e tirados de contexto. Uma acusação de 300 páginas, mas a partir da qual é impossível sequer apontar qual é o crime que teria sido antecedente da suposta lavagem de dinheiro. Ora a denúncia fala de contexto, ora fala de outros processos em curso, de operações investigatórias que vieram antes, para no fim repetir aquela narrativa especulativa: de que há um grande processo de lavagem sem explicar que dinheiro sujo está sendo lavado, onde existe crime e qual a relação dos acusados com as diversas situações que a denúncia apresenta sem qualquer contexto ou concatenação“.
Já a defesa de Roberto Augusto Lemes da Silva, representada pelo advogado Celso Vilardi, se manifestou: “A defesa provará, no curso do processo, a improcedência da denúncia ofertada, demonstrando, outrossim, a nulidade do feito que tramita em Juízo Estadual, o que à toda evidência contraria os termos legais”.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)







