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Transparência

Gaeco mira seis prefeituras de MS por repasses de R$ 2 milhões em nova fase da Gutenberg

Gaeco fez novas diligências e descobriu novos contratos firmados até as vésperas das primeiras prisões
Gabriel Maymone -
Desvio de R$ 27 milhões: grupo fazia ‘balcão de negócios’ na saúde para forçar venda de livros em MS
Operação Gutenberg foi deflagrada pelo Gaeco. (Pietra Dorneles, Jornal Midiamax)

Após apresentar à Justiça denúncia contra grupo criminoso acusado de desviar R$ 27,4 milhões da saúde e educação de prefeituras em Mato Grosso do Sul, o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) colocou mais seis prefeituras na mira da investigação da Operação Gutenberg.

Conforme relatório do Gaeco, novas diligências foram feitas após os primeiros pedidos de prisão — cumpridos no dia 7 de julho — e constataram novos repasses, que somam R$ 2.160.218,00, feitos pelos municípios à Editora Avante (CNPJ 44.284.055/0001-46), apontada como empresa controlada pelo clã Jafar para operar desvios milionários.

Então, em novo relatório de informações do Gaeco, consta: “Além disso, após ter sido feito pelo GAECO o pedido de decretação da prisão preventiva da requerente [Rossana Jafar] e demais integrantes da OrCrim [organização criminosa], foram empreendidas novas diligências com o objetivo de verificar eventuais contratos firmados pela organização criminosa em datas mais recentes, as quais restaram positivas, conforme se extrai dos seguintes documentos“.

O levantamento feito pelos investigadores do Gaeco revelou que o esquema continuava ativo até as vésperas da Operação Gutenberg, que levou 16 investigados para a prisão — sendo que um empresário continua foragido.

Dessa forma, o Gaeco reforça a capilaridade do grupo: “Conforme Relatório de Informações 036/SOI/GAECO/MPMS/2026, o grupo criminoso, no ano de 2025 e agora em 2026, realizou novas contratações com o Poder Público […] demonstrando que o esquema criminoso está em plena atividade“.

Confira abaixo os seis municípios que firmaram contratos recentes com a Editora Avante e que já entraram na mira do Gaeco:

  • Anaurilândia: R$ 232.530,00 — Vigência: 15/01/2026 a 15/01/2027
  • Japorã: R$ 226.480,00 — Vigência: 20/10/2025 a 19/04/2026
  • Fátima do Sul: R$ 244.020,00 — Vigência: 05/11/2025 a 05/05/2026
  • Deodápolis: R$ 474.876,00 — Datas: 09/01/2025 e 14/01/2025
  • Caarapó: R$ 589.392,00 — Vigência: 15/12/2025 a 15/04/2026
  • Juti: R$ 392.920,00 – Data: 30/04/2026

À reportagem do Jornal Midiamax, o prefeito de Deodápolis, Jean da Saúde (PSDB), disse que já rescindiu o contrato e que o município não chegou a repassar valores para a editora. “Este contrato já foi rescindido e enviado ao Ministério Público. Não teve aquisição de livros, apenas assinatura de contrato. Na época da contratação, não tínhamos conhecimento de que a empresa era investigada. Após tomar conhecimento dos fatos, rescindimos e remetemos todos os documentos ao Ministério Público.”

Já o prefeito de Juti, Gilmar Marcos da Cruz (PSDB), emitiu nota confirmando a compra, mas afirmando estar tudo dentro da legalidade e sem indicação: “A Administração Municipal informa que a aquisição dos materiais destinados aos alunos da Rede Municipal de Ensino foi realizado todo o processo administrativo formal, procedimento previsto na Lei Federal nº 14.133/2021, observando todas as exigências legais e administrativas pertinentes. Esclarece, ainda, que não houve qualquer ato de indicação. A decisão pela aquisição foi pautada exclusivamente no interesse público e na necessidade de oferecer melhores condições de aprendizagem aos alunos da Rede Municipal de Ensino, observando rigorosamente os procedimentos legais e administrativos aplicáveis“.

Por telefone, o prefeito de Anaurilândia, Rafael Gusmão Hamamoto (PP), confirmou ter feito contrato com a editora para compra de livros, que, segundo ele, já foram entregues. No entanto, ficou de enviar uma resposta formal.

Em nota, a prefeitura de Caarapó afirmou não ter recebido, até o momento, qualquer notificação do MP sobre o contrato, mas que a aquisição dos livros foi formalizada com parecer jurídico técnico e de acordo com as exigências da legislação sobre inexigibilidade de licitação. “A prefeitura reafirma que colaborará integralmente com qualquer diligência do Ministério Público caso venha a ocorrer ou serem solicitadas informações”.

A reportagem acionou todos os prefeitos e as prefeituras citados e aguarda respostas. O texto será atualizado assim que houver manifestações.

Gaeco apreendeu mais de R$ 200 mil em espécie. (Divulgação, Gaeco)

Nesta semana, 16 investigados se tornaram réus da Operação Gutenberg, que investigou todo o esquema. Confira a lista de réus:

  • Rossana Paroschi Jafar (presa) – dentista e dona de gráfica;
  • Olívia Paroschi Jafar (prisão domiciliar) – médica e dona da Clínica Ross, que também foi alvo;
  • Felipe Paroschi Jafar (preso) – ex-comissionado na Agesul;
  • Giovanni Paroschi Jafar (preso) – empresário;
  • Rhayane Souza Fanaia (presa) – ‘laranja’ do clã Jafar e ex-esposa de Giovanni;
  • Ed Carlo Britto Burgatt (preso) – ex-chefe da regulação de saúde do Estado (Core);
  • Jéssyca Duarte Burgatt (prisão domiciliar)– filha de Ed e dona da Capital Saúde (prisão domiciliar);
  • Joatan Gomes Peixoto (prisão domiciliar) – empresário;
  • Matheus Oliveira Peixoto (preso) – empresário;
  • Francisco Anízio dos Santos (preso) – empresário;
  • Douglas Henrique de Melo (preso )– empresário;
  • Paulo Rogério de Melo (preso) – empresário e pai de Douglas;
  • Gabriel Taquino de Paula (preso) – advogado;
  • Eronivaldo da Silva Vasconcelos Junior, o Junior Vasconcelos (preso) – ex-prefeito de Fátima do Sul e escrivão da Polícia Civil.
  • Heyder Bartz (foragido) – empresário.
  • Inácio da Silva Espíndola (não foi preso) – ex-vereador e ex-servidor comissionado da Casa Civil de MS

Prefeituras compravam livros em esquema comandado por clã Jafar

Família Jafar, da esquerda para a direita: Giovanni, Olívia, Rossana e Felipe. (Reprodução, Redes sociais)

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A primeira fase da Gutenberg, deflagrada no dia 7 de julho, revelou esquema comandado pelo clã Jafar, que usava o ex-chefe da regulação estadual de saúde, Ed Carlo Britto Burgatt, para liberar ou trancar procedimentos de prefeituras para comprar os livros da Editora Avante.

As investigações concluíram que Rossana exercia forte poder de decisão na gestão financeira e administrativa da Editora Avante, determinando pessoalmente para onde e para quem o dinheiro recebido das prefeituras deveria ser repassado. Ela responde pelos crimes de organização criminosa, lavagem de capitais e corrupção ativa.

O grupo familiar atuava originalmente por meio da empresa Gráfica e Editora Alvorada Ltda., envolvida em fraudes licitatórias e alvo da Operação Lama Asfáltica. Após a morte do patriarca, Mirched Jafar Junior, em 2021, a matriarca Rossana Paroschi Jafar e seus filhos teriam criado uma nova empresa de fachada, a Editora Avante (Souza & Fanaia Comércio de Livros), em nome de “laranjas”, como Rhayane Souza Fanaia.

A empresa fechava contratos milionários, sem licitação (por inexigibilidade), com diversos municípios de Mato Grosso do Sul, como Miranda, , , Ladário, Angélica e , para o fornecimento de livros paradidáticos.

A própria organização montava e enviava aos municípios os modelos de orçamento e as justificativas para direcionar a contratação direta.

Os valores recebidos das prefeituras eram pulverizados imediatamente via saques em espécie — abaixo de R$ 50 mil, para burlar órgãos de controle/COE — e transferências para familiares, empresas parceiras, como postos de combustível, distribuidoras de bebidas e empresas de veículos, e agentes públicos cooptados.

O esquema contava ainda com a participação de empresários que recebiam valores no esquema de lavagem de dinheiro. Entre eles, estão Douglas Henrique de Melo e seu pai, Paulo Rogério de Melo, donos de garagens e casas noturnas em Campo Grande.

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(Revisão: Nichole Munaro)

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