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Transparência

Sem licitação, TCE-MS contrata instituto de que André Mendonça saiu após escândalo no STF

Corte de Contas vai pagar curso para servidor em cargo de comissão lotado no gabinete de Flávio Kayatt
Gabriel Maymone -
Sem licitação, TCE-MS contrata instituto de que André Mendonça saiu após escândalo no STF
TCE-MS contratou Instituto Iter, fundado por André Mendonça. (Divulgação, TCE-MS / STF)

O TCE-MS (Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul ) firmou, por inexigibilidade de licitação, a contratação do Instituto Iter para a capacitação de um servidor público.

A instituição de ensino foi fundada pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), André Mendonça, que deixou a sociedade do grupo em setembro, após controvérsias e questionamentos sobre potenciais conflitos de interesse em contratos milionários firmados com o Poder Público, principalmente após o escândalo do Caso Master.

Ao todo, o Tribunal de Contas irá desembolsar R$ 28.620,00 para custear a vaga no curso de pós-graduação MBA Gestão Avançada em Contratações Públicas. A vaga é destinada a um servidor em cargo comissionado, lotado no Gabinete da Presidência, presidido pelo conselheiro Flávio Kayatt.

Fundado em 2023 por Mendonça, o Instituto Iter acumulou cerca de R$ 10 milhões em contratos públicos com tribunais, prefeituras e órgãos estaduais pelo país. A maioria viabilizada por meio de contratação direta (inexigibilidade), sob o argumento de notória especialização e singularidade dos treinamentos.

O avanço da empresa sobre verbas públicas passou a ser alvo de intensas críticas no meio jurídico e na imprensa, levando o ministro a se desligar da sociedade e a anunciar a transformação da empresa em uma entidade sem fins lucrativos.

A opção pelo contrato direto sem concorrência, contudo, gerou insatisfação nos bastidores da Corte sul-mato-grossense: “um contrato feito por ‘inexigibilidade’ que, segundo o próprio TCE deveria saber, é uma exceção, e não regra. Um órgão como esse que deveria justamente estar fiscalizando a aplicação do dinheiro público”, disse um funcionário.

André Mendonça antes de deixar a socidade do Iter. (Reprodução, Instagram)

‘Efeito manada’

No Estudo Técnico Preliminar usado pelo TCE-MS para validar a contratação, a equipe de planejamento do TCE-MS alegou que a contratação direta se justifica porque a solução metodológica e o corpo docente da instituição possuem características singulares, tornando inviável a comparação objetiva de preços via licitação tradicional.

O próprio documento do TCE-MS citou que tribunais de contas como o do Piauí, de Minas Gerais e de Goiás também contrataram o mesmo MBA do Instituto Iter por inexigibilidade.

Entretanto, levantamento realizado pela reportagem indica que especializações equivalentes em gestão de contratações públicas sob a Nova Lei de Licitações (Lei nº 14.133/2021) são ofertadas por instituições de reputação consolidada por valores consideravelmente inferiores. Na PUC Minas, por exemplo, o MBA com aulas ao vivo custa cerca de R$ 11,9 mil a R$ 13,2 mil, enquanto a modalidade EAD sai por R$ 5,8 mil — menos de um quarto do valor cobrado pelo Iter.

Viagens e custos extras para os cofres públicos

Além do valor fixo da matrícula de R$ 28,6 mil, a contratação gerará despesas adicionais para os cofres do Estado. Como o curso é estruturado em modalidade híbrida e prevê encontros presenciais ao término de cada módulo na cidade de (SP), o TCE-MS terá de custear passagens aéreas, diárias e hospedagem para o servidor ao longo dos 12 meses de formação.

O órgão reconhece a interdependência desses custos extras, mas não apresentou uma estimativa do impacto financeiro total dessas viagens no orçamento público.

O TCE-MS enviou nota sobre a contratação:

“O TCE-MS esclarece que a contratação foi precedida de Estudo Técnico Preliminar, que considerou as características específicas do MBA ofertado pelo Instituto contratado, especialmente sua matriz curricular, abordagem prática e estratégica, qualificação do corpo docente e experiência da instituição na área de contratações públicas. 

O levantamento de mercado também considerou contratações do mesmo curso realizadas por outros órgãos de controle, a exemplo dos Tribunais de Contas dos Estados do Piauí, de Minas Gerais e de Goiás, igualmente realizadas por inexigibilidade, além de contratações utilizadas como referência para aferição da compatibilidade dos preços praticados. 

Quanto à forma de pagamento, a Administração optou pelo pagamento parcelado, de modo a distribuir o desembolso ao longo do período de execução da capacitação. As eventuais despesas com deslocamentos não integram o valor da contratação e, caso necessárias, serão processadas separadamente, conforme as normas e procedimentos internos do Tribunal.  

O servidor designado para o curso está lotado na assessoria jurídica da Diretoria de Administração e Finanças“.

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(Revisão: Dáfini Lisboa)

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