Durante anos, muitas mulheres ouviram que dor nas pernas era exagero, que os hematomas surgiam por “qualquer coisa” ou que o aumento de volume era apenas consequência do excesso de peso. Algumas ainda foram orientadas a fazer mais dieta ou exercício, sem que ninguém investigasse a verdadeira causa dos sintomas.
Por trás dessas queixas pode estar o lipedema: condição clínica inflamatória de característica genética e hereditária, relacionada aos hormônios femininos. O tema ainda é cercado por dúvidas e desinformação, porém anda ganhando espaço em discussões médicas e também nas redes sociais.
Ao Jornal Midiamax o cirurgião vascular e professor universitário José Lacerda Brasileiro, que atua no tratamento de lipedema e varizes, disse que o primeiro passo é diferenciar a doença de outras condições. “Às vezes, o que é obesidade é tratado como lipedema, e vice-versa, às vezes lipedema sendo tratado como obesidade”, inicia.
O médico explica que o lipedema provoca o desenvolvimento de uma gordura diferente da gordura corporal comum, principalmente nos membros inferiores. Sendo assim, esta condição pode provocar aumento de volume em regiões como quadril, coxas e pernas, acompanhado de processo inflamatório e sintomas que vão muito além da aparência.
Dor, sensibilidade e hematomas podem ser sinais de alerta
Entre os sintomas estão dor, sensibilidade aumentada, sensação de peso nas pernas, indisposição e aparecimento frequente de hematomas. A pele também pode apresentar irregularidades e aquilo que parece ser apenas celulite pode, na verdade, estar relacionado ao lipedema.
“Além da dor, dos sintomas correlacionados, o lipedema também traz um trauma estético muito grande, porque evolui com uma forma de gordura irregular, com depressões, região de coxa e quadril, trazendo o que nós chamamos de muitas celulites dolorosas”, explica Brasileiro.
De acordo com o especialista, a celulite associada ao lipedema possui características diferentes da celulite comum, principalmente pela dor e pela sensibilidade. Outro sinal que merece atenção é o surgimento frequente de manchas roxas. A mulher pode perceber hematomas nas pernas mesmo sem se lembrar de ter sofrido alguma pancada.
“Ela bateu, não bateu em muita coisa e aparece muito roxo na perna. Quando isso acontece, muito provavelmente essa mulher está passando por um processo inflamatório que está trazendo uma série de sintomas”, afirmou o médico
Quando a mulher é chamada de ‘gorda’ ou acusada de frescura
Além dos sintomas físicos, o lipedema pode provocar impactos emocionais e sociais. Uma das dificuldades enfrentadas por muitas pacientes é justamente não serem ouvidas.
O médico conta que, durante muito tempo, mulheres com dores nas pernas chegaram a ser tratadas como pessoas exageradas ou até como pacientes que inventavam sintomas. “Muitas das vezes, até mesmo por especialistas da minha área, no passado isso acontecia muito. A paciente chegava reclamando e ouvia que aquilo era frescura”, relata.
Segundo Brasileiro, algumas mulheres também eram associadas a transtornos psicológicos ou vistas como pessoas que não queriam trabalhar por relatarem dores e indisposição. Para ele, o acolhimento é parte fundamental do atendimento.
“O bom médico é aquele que escuta. Se você não escuta o paciente e faz uma conexão com ele, jamais você vai fazer um diagnóstico correto”, destacou Brasileiro.
Por isso, antes mesmo de qualquer conduta, o especialista afirma que dedica tempo para ouvir a história da paciente e compreender todos os sintomas relatados.
Nem sempre o lipedema está ligado à obesidade
Um dos principais equívocos sobre a condição é acreditar que ela aparece somente em mulheres acima do peso. Conforme o cirurgião vascular, isso não é verdade. Ele afirma que até 50% das mulheres com lipedema podem ser magras.
A característica pode aparecer, por exemplo, em uma mulher com tronco mais fino, que mantém a cintura definida, mas percebe aumento de volume nas pernas e coxas que não diminui mesmo com dieta e exercícios.
“No lipedema, essa gordura fica represada, fica localizada. Então, a mulher perde o tronco, fica magrinha e a perna lá, gordinha, acompanhada de dor, sensibilidade aumentada e hematoma”, argumentou.
Por isso, a combinação entre gordura localizada nas pernas, dor, sensibilidade e hematomas pode ser um sinal de alerta para a busca por avaliação profissional.
Doença pode começar ainda na adolescência

O lipedema está diretamente relacionado aos hormônios femininos e os primeiros sintomas podem aparecer ainda na puberdade. “Os sintomas do lipedema já começam a aparecer na adolescência, na puberdade, ou seja, nas primeiras menstruações”, explicou o médico.
As alterações hormonais durante a gravidez também podem intensificar os sintomas. Segundo Brasileiro, a menopausa é outro período em que a condição pode se tornar mais sintomática devido às mudanças hormonais.
A doença é crônica e evolui por estágios, do primeiro ao quarto, podendo apresentar agravamento conforme os gatilhos inflamatórios. Por isso, identificar os sinais ainda no estágio inicial pode ajudar a iniciar o acompanhamento adequado.
Dor que pode ser confundida com fibromialgia
Outro desafio está na semelhança entre alguns sintomas do lipedema e outras condições. Segundo o especialista, algumas mulheres foram tratadas durante anos como pacientes com fibromialgia devido às dores e à sensibilidade pelo corpo. “Muitas dessas pacientes não eram portadoras de fibromialgia e sim do lipedema”, afirma.
O processo inflamatório pode causar dores nos membros e indisposição, fazendo com que algumas mulheres tenham dificuldade até mesmo para realizar atividades cotidianas. “É uma dor que incomoda, dá um certo desânimo, a mulher torna-se indisposta”, enfatizou.
O especialista ressalta, porém, que a fibromialgia possui características próprias e que cabe ao profissional capacitado realizar a diferenciação durante a investigação clínica.
Tratamento envolve diferentes profissionais
O lipedema não tem cura, mas, segundo o médico, pode ser controlado por meio de tratamento adequado. A abordagem não se limita a um único profissional. O acompanhamento pode envolver médico, nutricionista e fisioterapeuta, entre outras áreas, de acordo com as necessidades de cada paciente. “Com o tratamento clínico hoje, a maioria das mulheres já refere uma melhora significativa”, afirma Brasileiro.
Segundo ele, mudanças na alimentação, orientações adequadas e medicamentos podem contribuir para a redução dos sintomas. A fisioterapia também pode fazer parte do acompanhamento, especialmente em estratégias voltadas ao sistema linfático.
A alimentação, segundo o médico, é outro ponto importante no controle da inflamação. Ele destaca a necessidade de avaliação individualizada e acompanhamento nutricional. “O tratamento do lipedema é multifacetado, ele não é só um especialista vascular que trata”, finalizou.
Confira a entrevista completa:
Entre em contato pelo telefone: (67) 99233-1285









