Neste Setembro Lilás, mês dedicado à conscientização sobre a doença de Alzheimer, o médico neurologista Pedro Levi, coordenador do Ambulatório de Cognição do Humap-UFMS (Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian), propõe um debate que vai além da perda progressiva da memória: a importância de preservar a história, a identidade e os vínculos de quem recebeu o diagnóstico.
Embora a doença possa comprometer diferentes funções cognitivas ao longo do tempo, lembranças e experiências construídas ao longo da vida não desaparecem de uma só vez. Dessa forma, reconhecer a pessoa que existia antes do Alzheimer é fundamental nesse processo e também faz parte do cuidado.
“Quem somos nós, se não sabemos onde nascemos, quem são nossos pais, com quem convivemos, nossas dores e felicidades? Felizmente, essa memória de longo prazo é tão bem protegida no cérebro que mesmo a doença de Alzheimer pode demorar anos para chegar a comprometê-la”, ressalta o médico.
Doença afeta diferentes tipos de memórias
O cérebro humano conta com estruturas chamadas hipocampos, responsáveis pela primeira consolidação das memórias. Segundo o especialista, é graças ao hipocampo que somos capazes de lembrar onde guardamos objetos ou se deixamos alguma panela no fogo, por exemplo.
Essa função é primordial para a independência de um ser humano na sua vida cotidiana, além de ser o primeiro mecanismo a ser degenerado na maioria dos pacientes com Alzheimer. Logo, a “perda de memória”, um dos principais sintomas relacionados à doença, refere-se à síndrome clínica que, na neurologia, é chamada de “amnésia anterógrada”, ou seja, o prejuízo da memória de curto prazo.
No entanto, ao contrário das memórias de curto prazo, que dependem principalmente dos hipocampos, as memórias biográficas e procedurais tendem a permanecer preservadas por mais tempo. A memória procedural é responsável por armazenar habilidades motoras, hábitos e ações automáticas, permitindo que sejam realizadas sem esforço consciente.
Esses tipos de memória estão associados a outras estruturas cerebrais, como regiões neocorticais frontais, o sistema límbico, os gânglios da base e o cerebelo, que são menos afetadas pela neurodegeneração nos estágios iniciais da doença. Dessa forma, apesar de a doença de Alzheimer destruir gradualmente a infraestrutura cerebral necessária para acessar memórias recentes, planejar o futuro e processar novas informações, isso não anula a biografia, a identidade profunda ou a essência do indivíduo, conforme explica o cirurgião.
“Ainda que até a personalidade da pessoa possa mudar drasticamente em alguns casos, a história de vida, os valores arraigados e o impacto que essa pessoa deixou no mundo permanecem intactos na memória e no afeto de quem convive com ela. Olhando por um prisma filosófico, alguém só pode ser esquecido se as pessoas ao seu redor se esquecerem dele”, explica.
Não lembrar não significa não sentir
Estudos já consolidados sobre a doença afirmam que, embora pacientes com Alzheimer possam não se lembrar do nome de alguém, eles ainda são capazes de reagir emocionalmente àquela pessoa, pois existe uma distinção neurológica entre a memória e a emoção.
“O reconhecimento cognitivo e a evocação de nomes dependem de redes corticais complexas de linguagem e identificação, que se deterioram com vários tipos de demência. Porém, a memória afetiva e o processamento emocional são mediados pela amígdala e pelo sistema límbico, estruturas primitivas que costumam ser muito mais resistentes, mantendo a integridade funcional por períodos prolongados. Por isso, o indivíduo perde o acesso racional à identidade de alguém, mas retém os sentimentos relacionados àquela pessoa”, explica o neurologista.
Por esse motivo, Pedro destaca que é importante manter na rotina do paciente os elementos que fizeram parte de sua história, visto que eles funcionam como símbolos capazes de ultrapassar o dano cognitivo de linguagem ou memória recente e até acessar redes neurais relacionadas aos sentimentos de bem-estar, conforto e segurança. “O cheiro de uma planta conhecida ou o som de uma música da juventude podem ser essenciais para controlar estados de agitação, facilitar o processo de adormecimento e manter positivo o estado de humor do paciente”, esclarece.
Preservar a autonomia é essencial
Segundo o especialista, os principais erros cometidos por familiares e outros membros da rede de apoio de um paciente com Alzheimer são a infantilização e a exclusão precoce de decisões cotidianas, o que acelera a perda de capacidades remanescentes, além de gerar frustração.
Além disso, as famílias costumam superproteger a pessoa diagnosticada, proibindo o paciente de realizar tarefas que ele ainda domina ou ignorando suas tentativas de comunicação por considerá-las incoerentes. Essas atitudes, conforme o especialista, devem ser evitadas, pois agravam as condições do paciente.
Para evitar cair nessas ‘armadilhas’, Levi aconselha adotar o princípio da validação emocional em vez de confrontar delírios, além de focar no que o indivíduo ainda consegue executar de forma independente e tratá-lo sempre com a dignidade correspondente à sua história de vida adulta.
Na prática, isso significa adaptar o ambiente para reduzir riscos, sem eliminar completamente a autonomia da pessoa. Atividades cotidianas, como escolher entre duas roupas previamente separadas ou decidir o horário do banho, são opções para garantir a autonomia. A recomendação é criar rotinas e antecipar possíveis perigos, permitindo que o paciente mantenha o máximo de independência possível dentro de uma margem segura.
Quando um esquecimento é sinal de alerta?
Um dos principais sinais de alerta, segundo o especialista, é quando os esquecimentos começam a comprometer a capacidade funcional. Se a pessoa passa a ter dificuldade para realizar atividades que antes fazia normalmente, pode haver um quadro neurológico que precisa ser investigado.
Além da avaliação clínica, a neurologia dispõe atualmente de exames simples que podem auxiliar na identificação precoce de alterações cognitivas. Por esse motivo, recomenda-se que pessoas com mais de 50 anos que percebam episódios recorrentes de esquecimento procurem um neurologista, mesmo quando os sintomas ainda não interferem na rotina. “Hoje temos ferramentas adequadas para chegar a conclusões melhores que antigamente, e isso pode mudar totalmente o quadro”, conclui o neurologista.
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(Revisão: Nichole Munaro)








