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Cotidiano

Com 6 casos avançados a cada 10, espera para tratar câncer de mama em MS chega a 3 meses

Em meio aos desafios do câncer de mama, Fabi encontrou no otimismo uma forma de encarar o diagnóstico
Lethycia Anjos -
Fabi Rezek
Fabi Rezek (Arquivo pessoal)

Quando recebeu o diagnóstico de carcinoma invasivo de mama, em maio de 2014, a publicitária Fabianne Rezek ouviu que teria apenas dois anos de vida. A doença já estava em estágio avançado, e o futuro era incerto. Mais de uma década depois, os casos avançados ainda representam uma parcela expressiva dos registros em Mato Grosso do Sul. Em 2025, seis em cada dez pacientes com câncer de mama estavam nos estágios 3 ou 4 da doença.

A demora para iniciar o tratamento também marca o cenário da assistência oncológica no Estado. A espera média entre a confirmação do câncer e o início do tratamento chegou a 94 dias, 34 dias além do prazo máximo de 60 dias estabelecido por lei.

Os dados são do Panorama do Câncer de Mama no SUS, elaborado pelo Instituto Natura em parceria com o Observatório de Oncologia e o Instituto Protea. A plataforma reúne informações sobre a doença no país com base em registros do SUS (Sistema Único de Saúde) e apresenta indicadores relacionados ao rastreamento, diagnóstico e tratamento.

Uma vida para além do diagnóstico: ‘você não vai me tirar de mim’

Fabi Rezek
Fabi Rezek (Arquivo pessoal)

Durante o tratamento no Hospital de Amor, em Barretos (SP), Fabi encontrou maneiras de preservar aspectos da própria identidade em meio à rotina de consultas, procedimentos e efeitos colaterais. O protocolo durou dois anos e meio, e a remissão foi confirmada em 2019.

O ponto de partida foi uma receita do seu médico Raphael Haikel, que acabou se tornando um ritual de força para Fabi, “para uso contínuo: usar brincos grandes e batom vermelho.”

O gesto ajudava a lembrar que ela continuava sendo a mesma pessoa, mesmo diante da doença. “Era o meu ritual de força. O meu lembrete diário de que eu ainda era eu e não apenas uma paciente, um diagnóstico”, conta.

A experiência também mudou a forma como ela enxergava o medo durante o tratamento.

“O medo paralisa. E quando estamos diante de um tratamento tão complexo, tão exigente e transformador, a paralisia emocional pode ser tão nociva quanto a própria doença. Enxergar o câncer apenas como dor tira do paciente a possibilidade de participar ativamente do próprio processo de cura.”

‘Busquei a luz, mesmo em um cenário sombrio’

Fabi chama de “positividade terapêutica” a postura que desenvolveu durante o tratamento. A ideia não é ignorar a dor ou fingir que tudo está bem, mas reconhecer as dificuldades sem deixar que elas definam toda a experiência.

“Não é fingir que está tudo bem. É escolher, todos os dias, um gesto que te lembre que você continua viva, presente e lutando”, explica.

Para ela, essa atitude não é uma fórmula para enfrentar o câncer nem uma garantia de cura, mas uma maneira pessoal de lidar com as dificuldades sem abrir mão da própria identidade.

“É possível falar de câncer de maneira positiva sem ignorar os momentos difíceis. O equilíbrio está em reconhecer a realidade, os medos, as perdas, os efeitos colaterais, mas, ao mesmo tempo, abrir espaço para a esperança, o humor e a beleza que ainda existem mesmo nos dias mais desafiadores”, afirma.

Mais de seis em cada dez pacientes em estágios avançados

exame de mama
Mamografia é oferecida pelo SUS. (Divulgação SES/Alejandra de Lucca)

Assim como Fabi, muitas pacientes enfrentam o câncer de mama em fases avançadas da doença. Em Mato Grosso do Sul, 384 das 623 mulheres incluídas nos dados de estadiamento estavam nos estágios 3 ou 4 em 2025, segundo o Panorama do Câncer de Mama no SUS. O número representa 61,6% do total, percentual superior à média nacional, de 51% (18.984 pacientes).

O estadiamento é a classificação que indica a extensão da doença no organismo. No estágio 3, o câncer é considerado localmente avançado, enquanto no estágio 4 já se espalhou para outras partes do corpo, como ossos, fígado ou pulmões.

O estágio 3 concentrou 278 pacientes, o equivalente a 44,62% dos registros, enquanto o estágio 4 reuniu 106 mulheres, o que corresponde a 17,01%. Já os estágios 0, 1 e 2 somaram 239 registros.

Além disso, o painel aponta aumento de 6,23% no indicador de pacientes nos estágios 3 e 4 em relação a 2024. Os dados, porém, não permitem determinar, isoladamente, por que tantas pacientes estavam em fases avançadas da doença.

Em MS, início do tratamento ultrapassa lei dos 60 dias

A Lei Federal nº 12.732/2012, conhecida como “Lei dos 60 dias”, está em vigor desde maio de 2013 e estabelece que pacientes com câncer atendidos pelo SUS (Sistema Único de Saúde) devem iniciar o primeiro tratamento oncológico em até 60 dias após a confirmação do diagnóstico, independentemente do tipo de neoplasia.

No entanto, o tempo médio entre o diagnóstico e o início do tratamento do câncer de mama em Mato Grosso do Sul foi de 94 dias em 2025. Embora o período represente uma redução em relação aos 119 dias registrados em 2024, a espera ainda ficou 34 dias acima do prazo estabelecido pela legislação.

A série histórica indica que o tempo médio de espera foi de 174 dias em 2020. O período caiu para 121 dias em 2021, voltou a subir para 128 dias em 2022 e recuou para 115 dias em 2023. Em 2024, a média aumentou novamente, atingindo 119 dias, antes de cair para 94 dias em 2025.

No Brasil, o tempo médio entre o diagnóstico e o início do tratamento do câncer de mama foi de 86 dias em 2025. O resultado ficou oito dias abaixo da média registrada em Mato Grosso do Sul.

Os dados, porém, representam médias e não significam que todas as pacientes tenham esperado esse tempo. Conforme o levantamento, enquanto algumas iniciaram o tratamento em menos de 60 dias, outras podem ter aguardado períodos ainda maiores.

Mamografia (Divulgação)

Cobertura de mamografias em MS fica abaixo da média nacional

Mato Grosso do Sul realizou 46.847 mamografias em 2025, um aumento de 5.730 exames em relação ao ano anterior. Campo Grande concentrou o maior volume, com 19.256 procedimentos, seguida por Dourados, com 4.912, e Três Lagoas, com 2.600.

Entre as pacientes que realizaram o exame, 37% tinham entre 50 e 59 anos, faixa etária com maior número de mamografias aprovadas no Estado. Mulheres autodeclaradas brancas representaram 54% dos procedimentos.

Apesar do aumento no número de exames, a cobertura do rastreamento em Mato Grosso do Sul foi de 18,8% no biênio 2025-2026, segundo o painel. O indicador considera a população-alvo de 50 a 69 anos e é calculado com base em períodos de dois anos. No Brasil, a cobertura média foi de 22% em 2025, quando foram realizados 3.967.329 exames.

Os dados mostram que o aumento no número de procedimentos não significa que todas as mulheres que precisam do exame consigam realizá-lo.

Falta de acesso local obriga pacientes a buscar atendimento em outras cidades

Um dado que chama a atenção para o acesso ao serviço é que, em 2025, 38% das pacientes em Mato Grosso do Sul precisaram se deslocar para outro município para realizar a mamografia. No Brasil, o percentual foi de 33%, uma diferença de cinco pontos percentuais.

A necessidade de deslocamento também ocorre na etapa do tratamento. Segundo o painel, em 2025, 48,6% dos pacientes incluídos no indicador de tratamento hospitalar precisaram se deslocar para outra cidade para receber atendimento. O percentual é ligeiramente inferior à média nacional, de 49,9% dos pacientes que precisaram se deslocar para realizar o tratamento.

Apesar de não detalhar os motivos dos deslocamentos, as distâncias percorridas ou os custos das viagens, os dados mostram que grande parte dos pacientes depende de serviços de saúde fora do município onde mora.

Internações oncológicas somam 1,1 mil autorizações em MS

Em 2025, o tempo médio de internação hospitalar em Mato Grosso do Sul foi de dez dias, igual à média nacional. No mesmo ano, o Estado registrou 1.169 autorizações de internação hospitalar (AIH) no SUS, 97 a menos que em 2024, com média de 1,2 autorizações por paciente.

O painel também aponta que 417 pacientes realizaram procedimentos sequenciais em oncologia, 23 a mais que no ano anterior, e contabiliza 99 no indicador de internações apresentado na plataforma. O tempo de permanência considera apenas os dias no hospital, e não a duração total do tratamento contra o câncer.

Mortes por câncer de mama bate recorde em 2025

O câncer de mama é o tipo mais incidente entre as mulheres sul-mato-grossenses, excluídos os tumores de pele não melanoma. Embora seja mais comum entre mulheres cisgênero, a doença também pode atingir homens cisgênero, homens trans e mulheres trans. O risco varia conforme fatores individuais e o histórico de saúde.

Em 2025, Mato Grosso do Sul registrou 274 mortes pela doença, o maior número da série apresentada no painel. Em 2020, foram 190 mortes; em 2021, 219; em 2022, 204; em 2023, 265; e, em 2024, 250. Na comparação com 2020, o aumento foi de 44,2%. A taxa de mortalidade chegou a 18,6 mortes por 100 mil mulheres em 2025.

No Brasil, foram registrados 21.360 óbitos no ano passado, o equivalente a uma taxa de mortalidade de 19,5 mortes por 100 mil mulheres e um aumento de 5% em relação ao ano anterior.

As projeções de novos diagnósticos também acendem um alerta. Mato Grosso do Sul deve registrar 930 novos casos de câncer de mama por ano no triênio de 2026 a 2028, segundo estimativa do Inca (Instituto Nacional de Câncer).

Desse total, 390 casos anuais devem ocorrer em Campo Grande, cerca de 42% das ocorrências previstas no Estado. No país, a estimativa é de 78.610 novos casos por ano no mesmo período. No Brasil, as estimativas apontam 78.610 novos casos por ano, com uma taxa estimada de 30,26 casos por 100 mil mulheres.

Rede de apoio fez diferença na vida de Fabi

Fabi Rezek
Fabi Rezek (Arquivo pessoal)

A experiência também levou Fabi a criar a hashtag #amigossalvam nas redes sociais. A iniciativa nasceu como agradecimento às pessoas que a apoiaram emocionalmente, mas se transformou em um convite para que outros pacientes reconhecessem a importância dos vínculos afetivos.

“Amigos salvam. Salvam a sanidade, a coragem, salvam a esperança”, afirma Fabi, que encontrou na rede de apoio uma maneira de compartilhar a própria história e ajudar outras pessoas.

Durante o tratamento, manter hábitos que a conectavam à vida antes da doença, encontrar espaço para o humor e cuidar da aparência foram formas de preservar a rotina e a autoestima. Para ela, esses gestos não curam o câncer, mas ajudam a manter o bem-estar emocional enquanto o corpo enfrenta o tratamento.

A publicitária também deixa uma mensagem para quem acabou de receber o diagnóstico. “O medo é natural, mas não precisa ser o protagonista da jornada. Pense que você não está sozinha. Que existe tratamento, existe ciência, cuidado e principalmente vida durante o processo”, diz.

Aos familiares, o conselho é não exigir força o tempo todo nem impor uma maneira de reagir à doença. “Sejam presença, não pressão. O paciente não precisa de frases prontas; precisa de acolhimento, de respeito ao ritmo, de companhia verdadeira”, afirma.

Hoje, mais de uma década depois do diagnóstico, Fabi resume o significado que essa postura ganhou em sua vida. “A positividade terapêutica não foi uma cura milagrosa, foi a forma que encontrei de caminhar com dignidade, coragem e esperança ao lado do tratamento médico.”

Sinais de alerta

A maioria dos casos de câncer de mama é percebida inicialmente pelas próprias pacientes, que identificam alterações nas mamas e procuram atendimento médico. Conforme o Ministério da Saúde, reconhecer os sinais de alerta e buscar avaliação profissional são medidas importantes para favorecer o diagnóstico precoce e aumentar as chances de sucesso do tratamento.

Entre os principais sinais de alerta estão:

  • Retrações na pele ou no mamilo, que podem deixar a mama com aspecto semelhante ao de uma casca de laranja;
  • Saída de secreção aquosa ou sanguinolenta pelo mamilo, capaz de sujar o sutiã;
  • Vermelhidão na pele da mama;
  • Pequenos nódulos palpáveis nas axilas ou no pescoço;
  • Inversão do mamilo;
  • Inchaço da mama e dor local.

No entanto, essas alterações não confirmam, por si só, o diagnóstico de câncer, que depende de avaliação médica e, quando necessário, de exames complementares.

Além disso, a identificação precoce da doença é fundamental para aumentar as chances de sucesso do tratamento e reduzir o risco de mortalidade. Segundo o levantamento, as chances de cura podem chegar a 95% quando o câncer de mama é descoberto precocemente.

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