Com as “canetas emagrecedoras” liberadas para uso há pouco mais de dois anos, no Brasil, para tratar doenças como a diabetes tipo 2 e a obesidade, a popularização delas passou a despertar o interesse da psiquiatria, devido aos efeitos dos agonistas do GLP-1 no sistema de recompensa do cérebro.
Em Mato Grosso do Sul, relatos clínicos apontam para possíveis benefícios desses medicamentos, mas também levantam debates sobre seus efeitos na saúde mental. No Estado, essa discussão também é marcada pela preocupação com o acesso facilitado ao mercado paralelo, principalmente na fronteira com o Paraguai, o que reforça o alerta para os riscos do uso sem acompanhamento especializado.
Conforme explica a psiquiatra Monise Cristine Souza, os estudos acerca dos benefícios das canetas emagrecedoras no tratamento de compulsões ganharam força após a flexibilização do uso do medicamento, quando relatórios clínicos passaram a apontar que pacientes com histórico de compulsões, que realizaram algum tipo de tratamento com as canetas, começaram a demonstrar redução no craving* tanto por alimentos quanto por álcool.
“Os receptores do GLP-1 também estão presentes no sistema nervoso central, na região do núcleo accumbens. No geral, [as canetas] inibem uma resposta dopaminérgica no sistema nervoso central, então o paciente não vai ter tanto prazer diante de um estímulo, por exemplo, alimentar. Isso é um mecanismo que a gente já tem como validado, e, a partir disso, vêm sendo conduzidos estudos pra entender melhor como é que isso teria alguma repercussão dentro da psiquiatria, porque é um sistema que tá envolvido em todos os tipos de compulsões, de dependências e de vícios”, explica Monise.
*Craving é o termo utilizado para definir um desejo intenso ou difícil de controlar.
Como as canetas atuam na compulsão alimentar?
Segundo a psiquiatra Monise Cristine Souza, pacientes que sofrem de compulsão alimentar têm dificuldade em raciocinar e controlar o desejo diante de alimentos, principalmente os ricos em gorduras e açúcares, que causam descargas de dopamina. Dessa forma, as canetas emagrecedoras podem ajudar como um mecanismo para inibir esses impulsos.
Isso ocorre porque a atuação das canetas emagrecedoras não se restringe apenas ao sistema digestivo. Os agonistas dos receptores GLP-1 atuam, também, no sistema nervoso central, inibindo o sistema de recompensa. Ou seja, o paciente passa a não ter mais prazer em consumir alimentos de forma compulsiva.
“Quando a gente fala de compulsão, o paciente não tem tempo pra conseguir pensar sobre o que tá acontecendo e na sua escolha. Então, esses fármacos conseguem quebrar um pouco esse processo e o paciente passa a ter um tempo maior de decisão diante do desejo de comer alguma coisa”, explica.
Conforme explica a psiquiatra, essa linha de tratamento já é utilizada para compulsão alimentar, no caso de pacientes que utilizam esses medicamentos para tratar doenças como obesidade e diabetes. No entanto, as canetas não são a primeira opção. No tratamento em geral, são priorizados anfetamínicos e demais medicamentos com eficácia já comprovada pela ciência, sendo as canetas uma alternativa aos tratamentos já regulamentados.
Em quadros de anorexia e bulimia, por exemplo, as canetas não são uma opção. “Se a gente tem um transtorno alimentar mais grave, o uso desses medicamentos pode piorar alguns comportamentos mais restritivos.”

Outros tipos de compulsões
A partir do relato dos pacientes, que apontaram diminuição no desejo de consumir álcool ou na necessidade de fumar, os psiquiatras observaram que esses fármacos reduzem a resposta dopaminérgica no sistema nervoso central e o paciente tende a sentir menos prazer ou satisfação diante de determinados estímulos.
Essa resposta aos medicamentos tem sido observada e estudada por especialistas e foi um dos pontos de partida para o avanço das pesquisas sobre seus possíveis efeitos na psiquiatria. Embora a ideia seja promissora, a psiquiatra ressalta que ainda são necessários estudos no longo prazo para determinar a eficácia, a segurança e a dose adequada desses medicamentos no tratamento de compulsões.
“É preciso que existam estudos conduzidos a longo prazo. A partir da condução desses estudos, a gente vai tentar entender qual a melhor dose, o que significa esse tratamento, se vai funcionar como um tratamento de manutenção, se é um tratamento a curto prazo”, explica Monise.
Uso off-label
A psiquiatra reforça que o uso das canetas emagrecedoras para essas finalidades ainda não possui protocolo estabelecido e não é considerado tratamento de primeira linha para dependências que já contam com terapias formalmente estabelecidas. Por enquanto, não é possível estimar quando esse uso será regulamentado e liberado, uma vez que os estudos ainda estão em uma fase prematura.
Dessa forma, o uso off-label* desses fármacos no tratamento de compulsões e vícios parte da hipótese de que comportamentos compulsivos de diferentes naturezas (alimentares, uso de álcool, cigarro etc.) compartilham mecanismos relacionados ao sistema de recompensa do cérebro, conforme explica a psiquiatra Monise Cristine Souza.
*Um tratamento off-label é a prescrição de um medicamento para uma finalidade diferente daquela aprovada oficialmente na bula. Isso ocorre quando a prática clínica e a ciência comprovam um benefício não previsto inicialmente pelo fabricante.
Efeitos colaterais no tratamento psiquiátrico
Segundo a psiquiatra Monise Cristine Souza, relatos de alterações em pacientes que fazem uso das canetas também têm motivado estudos para entender como os medicamentos podem influenciar diferentes transtornos mentais.
Em sua prática clínica, ela afirma ter acompanhado casos de agravamento de quadros psiquiátricos após o início do tratamento, principalmente entre pacientes que já apresentavam histórico de transtornos mais graves. Além disso, há relatos de pacientes sem histórico prévio de tratamento psiquiátrico que apresentaram quadros graves após emagrecimento súbito e sem acompanhamento regular.
No entanto, a especialista ressalta que não é possível afirmar que as canetas sejam a causa desses episódios. O que existe, conforme sua experiência, é uma correlação clínica entre a perda rápida de peso sem acompanhamento e a manifestação ou o agravamento de problemas de saúde mental. Por isso, o uso exige acompanhamento multidisciplinar.
“Existe uma alteração de todo o tratamento psiquiátrico diante do uso das canetas. E aí, nesse planejamento, a gente vai acompanhando a dose das canetas e, normalmente, ocorre um ajuste das nossas medicações também. [Como isso vai ocorrer] vai depender muito do quadro de base. Em transtornos muito graves, transtornos de humor mais psicóticos, a gente tem uma descompensação um pouco mais evidente, então tem que ter um cuidado ainda maior”, explica.
Segundo Monise, o desafio está em equilibrar os benefícios metabólicos e a manutenção da perda de peso com o acompanhamento da saúde mental, reforçando a necessidade de uma atuação conjunta entre psiquiatria, endocrinologia e nutrição.

Riscos do uso sem acompanhamento médico
A psiquiatra Monise Souza alerta que o uso das canetas emagrecedoras por conta própria pode provocar efeitos colaterais graves, como descompensação de transtornos mentais e interações medicamentosas (situação em que o efeito de um remédio é alterado pelo uso simultâneo de outro fármaco).
Doses elevadas ou utilizadas sem orientação podem causar vômitos intensos, desidratação, alterações hidroeletrolíticas e até necessidade de internação. A pancreatite também é apontada como um risco previsto em bula.
O retardamento do esvaziamento gástrico, que pode interferir na absorção de outros medicamentos, especialmente os psiquiátricos, também é outro efeito pontuado pela psiquiatra. Por esse motivo, pacientes que fazem tratamento com canetas emagrecedoras precisam de acompanhamento conjunto com psiquiatra e nutricionista.
Mercado paralelo
Uma grande preocupação, tanto para os médicos quanto para os órgãos reguladores, é a proximidade de Mato Grosso do Sul à fronteira com o Paraguai. A presidente do CRF-MS (Conselho Regional de Farmácia de MS), Daniely Proença, destaca que a fronteira facilita a circulação de produtos irregulares, incluindo as canetas emagrecedoras.
Daniely explica que medicamentos contrabandeados não têm garantia de qualidade, tampouco de origem e conservação. “Medicamentos devem ser adquiridos apenas em locais regulares, com orientação farmacêutica. O farmacêutico é essencial na proteção da saúde pública.”
O acesso de pacientes ao mercado paralelo também preocupa a psiquiatra Monise Souza. “Essa questão do mercado paralelo é bem grave, porque a gente não tem nenhum controle sobre quais drogas estão sendo usadas, as doses, a eficácia e tudo mais.”
A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) reforça que monitora diariamente anúncios de produtos irregulares na internet. A Agência alerta os consumidores a não tomarem decisões com base em influenciadores ou vendedores, já que produtos indicados para uma pessoa podem não ser adequados para outra.

Onde comprar de forma segura
Os análogos de GLP-1, conhecidos como “canetas emagrecedoras”, só podem ser comercializados em farmácias e drogarias regularizadas, além de serem vendidos somente mediante apresentação de receita médica.
A Anvisa reforça que o acompanhamento médico é necessário para avaliar contraindicações, dosagem, efeitos adversos, interações medicamentosas e condições específicas de cada paciente.
Riscos de produtos clandestinos ou importados
Segundo a Agência, o uso de canetas falsificadas, clandestinas ou contrabandeadas pode provocar desde falha no tratamento até problemas graves de saúde causados por substâncias de origem desconhecida.
No caso de produtos importados sem registro no Brasil, há ainda riscos como:
- Ausência de responsável no país por eventuais intercorrências;
- Dificuldade de rastreamento e fiscalização;
- Bulas e orientações em língua estrangeira, aumentando o risco de erros de administração;
- Maior dificuldade de ação regulatória em casos de falsificação ou adulteração.
- A Anvisa recomenda verificar o registro do medicamento, conferir lote, validade, embalagem, lacres, nota fiscal e sinais de falsificação, como erros de ortografia, impressão de baixa qualidade e preços muito abaixo do praticado no mercado.
Retatrutida
A Anvisa alerta que a substância não possui registro sanitário em nenhum país e ainda está em fase de pesquisa. Portanto, produtos comercializados com essa substância apresentam risco à saúde.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)







