Da rua com pouca sombra ao quarto exposto ao sol da tarde, passando pelo calor que facilita queimadas no Pantanal, as altas temperaturas de Mato Grosso do Sul dependem da vegetação, do relevo e das escolhas na construção de casas. Há 49 anos “no coração da América do Sul”, a geografia ajuda a explicar por que o Estado esquenta tanto.
Muita gente reclama do ‘calorão’ em Mato Grosso do Sul, mas o frio também castiga. Em um estudo científico conduzido na Cidade Universitária de Dourados, a maioria dos entrevistados diz sentir conforto térmico em dias quentes. O resultado revela que parte dos sul-mato-grossenses prefere o suor ao agasalho.
Professora do curso de Geografia da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Edna Maria Facincani, especialista em Geociências e Meio Ambiente, explica que a posição no interior do continente, distante do mar, é um dos fatores que ajudam a explicar as temperaturas elevadas.
Por exemplo, em Corumbá, carinhosamente chamada de ‘Corumbrasa’ por quem já enfrentou até 40°C na cidade, a posição do município em uma região deprimida e cercada por morros é um fator para explicar a concentração das massas de ar quente.
No coração da América do Sul
No fim de setembro, quem vive em Mato Grosso do Sul sentiu uma severa onda de calor, com temperaturas próximas de 40°C em todos os 79 municípios. O Estado bateu recordes de temperatura, intensificados pela baixa umidade relativa do ar.
Para a professora Edna Maria Facincani, entender o calor sul-mato-grossense começa pela localização do Estado. “MS fica no coração da América do Sul. No meio do continente, a sensação térmica pode aumentar em função das correntes atmosféricas que circulam”, explica.
A especialista analisa que o Estado recebe influência de massas de ar vindas de duas direções. Do norte, chegam correntes da região amazônica, que trazem chuvas. Do sul, avançam massas de ar polar, que passam pela Argentina e pela região Sul do Brasil.
No entanto, essa circulação pode encontrar obstáculos. A formação de bolsões de ar quente dificulta o avanço das massas mais frias. “A não ser quando vem uma massa de ar muito forte e rompe o bolsão de temperaturas altas”, explica a professora, dizendo que esses bolsões podem permanecer por semanas ou até meses.
Calor agrada mais que o frio

Em Dourados, o calor recebeu avaliações mais positivas que o frio entre frequentadores da Cidade Universitária. É o que aponta um estudo da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), publicado em 2024 na Revista Brasileira de Climatologia.
Nos dias quentes, 82% dos entrevistados consideraram a situação térmica agradável. Já nos dias frios, o percentual foi de 57%. A parcela que classificou as condições como desagradáveis foi de 18% no calor e de 43% no frio. Os participantes eram, em sua maioria, estudantes, com médias de idade entre 23 e 24 anos.
A pesquisa reuniu 393 entrevistas, sendo 123 em quatro dias de frio, em maio de 2022, e 270 em três dias de calor, em dezembro do mesmo ano. Mesmo com a avaliação mais positiva nos dias quentes, a preferência geral nesse grupo foi por temperaturas mais baixas.
Árvores ajudam, mas não explicam tudo
“A cobertura vegetal é muito importante para amenizar as temperaturas”, afirma Edna Facincani. A professora cita a substituição da vegetação natural por cultivos como soja e milho na região de Dourados e em outras áreas de Mato Grosso do Sul entre as mudanças na paisagem do Estado que facilitam a elevação de temperaturas.
Pesquisadores da UFMS analisaram imagens de satélite de Campo Grande entre 1985 e 2022. O estudo, publicado em 2025 na revista Políticas Públicas e Cidades, encontrou uma associação entre um maior índice de vegetação e temperaturas menores na superfície. Ou seja, o termômetro cai onde há mais verde na Capital.
Essa relação explicou cerca de 5,5% da variação da temperatura da superfície terrestre no estudo. Os próprios autores reconhecem a influência de outros fatores, como urbanização e sazonalidade.
Copas maiores reduzem o calor

Já em Naviraí, um estudo da UFMS publicado em 2026 na Revista de Geografia simulou a substituição de árvores pequenas por maiores em um trecho da Rua Alagoas, região comercial da cidade. No verão, os autores apontaram redução de 1°C na temperatura máxima do ar na comparação com o meio-dia.
O resultado é uma estimativa de computador, sem uma intervenção real executada na rua. A área simulada tem 100 por 100 metros, e o trabalho considerou duas datas de 2023, uma de verão e outra de inverno.
Variação de mais de 3°C à noite
Em Campo Grande, as diferenças de temperatura aparecem até durante a noite. Um trabalho de pesquisadores da UFMS identificou ilhas de calor e de frescor em percursos por áreas centrais e periféricas, além de regiões de transição entre a cidade e o campo.
Publicado em 2025 nos anais do Simpósio Brasileiro de Climatologia Geográfica, o levantamento usou equipamentos acoplados a veículos em dois trajetos de aproximadamente 21,5 quilômetros cada. As medições ocorreram entre 21h e 22h, em duas noites, uma em janeiro e outra em julho de 2024.
Na noite de 29 de janeiro de 2024, por exemplo, as pesquisadoras encontraram pontos até 3,3°C mais quentes e outros até 2,7°C mais frios que a região de transição entre as áreas urbana e rural.
As áreas com menos vegetação e mais construções, como o Centro e bairros da região sul de Campo Grande, apresentaram temperaturas mais elevadas. Já outros bairros periféricos e fundos de vale, com maior presença de vegetação, tiveram temperaturas mais amenas.
Em Corumbá, relevo explica calor

Para explicar as temperaturas de Corumbá, cidade conhecida no Estado pelo ‘calorão’, a professora Edna Facincani dá destaque à topografia — ciência que estuda, mede e descreve a superfície de uma porção de terreno, incluindo seus acidentes naturais e artificiais.
Segundo a professora, a posição de Corumbá numa região deprimida, cercada por morros, interfere na concentração e na dispersão das massas de ar. “Quando a massa de ar quente chega a essa região, ela tem dificuldade de se dissipar”, explica. A configuração do relevo também interfere quando chegam massas de ar frio.
Se a distância dos oceanos, chamada de continentalidade, interfere no aumento do calor, a presença de água doce ajuda a esfriar o clima. “O Rio Paraguai é um grande condutor da entrada dessas massas de ar”, destaca a professora.
Sobre os minérios de Corumbá, a especialista explica que rochas de coloração mais escura absorvem mais calor, mas considera esse fator menos relevante para a explicação das temperaturas locais. “O que determina ali, geralmente, é o fator topográfico e a própria circulação atmosférica”, afirma.
Sua casa está preparada?
O calor dentro de casa também passa por decisões tomadas antes do morador entrar pela porta. A professora do curso de Geografia da UFMS aponta o material da construção, o tipo de telhado, a presença de laje e a espessura das paredes entre os fatores que interferem no conforto térmico.
“Se é de Eternit, muito quente. Se é só de telha, é outra temperatura. E, se tiver com laje, é outra temperatura”, compara Edna Facincani.
Outro ponto é o posicionamento dos cômodos. Quartos voltados à luminosidade da manhã são mais frescos. Já as paredes expostas ao sol da tarde podem elevar a temperatura dos ambientes. “As temperaturas ficam altíssimas nesses cômodos”, diz, sobre os ambientes voltados ao sol da tarde.
A cor também entra nessa conta. Conforme a professora Edna Facincani, cores claras tendem a refletir os raios solares, enquanto as escuras absorvem calor. “Até para pintar uma casa tem que saber, principalmente em locais tão quentes como a região de Corumbá”, afirma.
El Niño eleva calor e é risco à economia
Em 2026, Mato Grosso do Sul se preocupa com os efeitos do El Niño, fenômeno climático extremo que eleva a temperatura e muda os regimes de chuva. No entanto, o efeito varia a cada episódio.
Por exemplo, o El Niño de 2023 e 2024 — considerado forte, como o esperado para este ano — elevou significativamente o calor, mas teve impacto modesto nas chuvas acima da média. Episódios do fenômeno registrados em 2019, 2023 e 2024 coincidiram com secas e incêndios no Pantanal.
Para ambientalistas, o temor maior é com relação ao Pantanal sul-mato-grossense. “Se não vierem chuvas consistentes, podemos ter uma condição propícia ao fogo. Na parte final do ano, a previsão é a do Super El Niño. Podemos ter condições de fogo fora de época, como em 2023”, alerta Alcides Faria, diretor da Ecoa.
Além disso, economistas alertam que o calor do Super El Niño pode encarecer alimentos e pressionar a inflação em MS. O fenômeno pode reduzir a previsibilidade da produção agrícola, elevar custos e afetar principalmente a oferta de milho, insumo essencial para a criação de aves, suínos, bovinos e para a produção de leite.

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(Revisão: Nichole Munaro)







