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Cotidiano

Mesmo após as cheias, seca extrema e El Niño ameaçam o futuro do Pantanal

O fenômeno climático intensifica a previsão de calor acima da média e chuvas irregulares no bioma
Murilo Medeiros -
pantanal incêndio
Incêndio no Pantanal, em 2024. (Henrique Arakaki, Midiamax)

Focos de fogo no inverno acendem alerta no Pantanal, que pode enfrentar nova temporada crítica de incêndios. Por enquanto, o CBMMS (Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul) diz que não há situação extraordinária na região. O risco maior está nos próximos meses, diante da previsão de calor acima da média, chuvas irregulares e intensificação do El Niño.

Em junho, bombeiros atenderam 23 ocorrências de incêndio em vegetação no Pantanal de MS. No mesmo mês de 2025, foram 15. Houve um aumento de 770,7% da área queimada no bioma, quando comparado aos índices de 2025 nesse mesmo período do ano. Mesmo com o aumento, a corporação considera que os registros permanecem dentro do comportamento esperado para o período.

A presença de água na planície pantaneira ainda ajuda a limitar o avanço do fogo. Embora o Rio Paraguai esteja em nível inferior ao registrado em 2025, a situação é consideravelmente melhor que a enfrentada em 2024, ano marcado por seca severa e grandes incêndios. Há dois anos, 27,1 mil km² do Pantanal foram queimados por incêndios — o valor só é menor que em 2020 (39,7 mil km²).

Ou seja, neste momento, a água ajuda a evitar um quadro semelhante ao de 2024. No entanto, as condições podem mudar conforme a estação seca avança e a vegetação perde umidade. O fenômeno climático El Niño pode causar ondas de calor e tempo seco fora de época, o que poderia intensificar os efeitos de queimadas.

Chuva ou seca?

O alerta aparece em nota técnica do Cemtec (Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima), que aponta chuvas irregulares em Mato Grosso do Sul nos quatro primeiros meses de 2026. Entre os municípios analisados, nove tiveram precipitação acima da média climatológica e dez ficaram abaixo do volume histórico.

Apesar da distribuição desigual, houve melhora nas condições de seca. Em abril, por exemplo, a maior parte do Estado não teve estiagem. As exceções eram as regiões noroeste, leste e nordeste, onde a seca variou de fraca a moderada. Na comparação com abril de 2025, o Estado recebeu mais chuva e a seca reduziu.

Na porção norte do Rio Paraguai, próxima à divisa entre Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Bolívia, as águas começaram a baixar lentamente. Por outro lado, mais ao sul, o nível continua subindo. Chuvas fora de época na Bacia do Rio também abasteceram parte da planície ao sul.

“Mais água, menos território para o fogo. Comparativamente, temos menos água que em 2025, mas muito mais que no trágico 2024”, analisa Alcides Faria, diretor da ONG (Organização não Governamental) Ecoa.

Alcides Faria, diretor da Ecoa. (Foto: Pietra Dorneles, Jornal Midiamax)

Risco de fogo

No entanto, o cenário mais favorável no início do ano não afasta o perigo no restante da temporada. A previsão de julho a agosto indica temperaturas acima da média histórica e distribuição irregular das chuvas, segundo nota técnica emitida pelo Cemtec.

Dessa forma, o comportamento das chuvas será decisivo para o Pantanal durante o segundo semestre. Levantamento do Cemtec mostra uma relação inversa entre o volume de precipitação e a ocorrência de incêndios no bioma entre 2001 e 2025.

Anos com chuva abaixo da média histórica, estimada em aproximadamente 1,1 mil milímetros, tendem a registrar aumento expressivo dos focos de calor. A falta de água reduz a umidade do solo e da vegetação, formando material combustível mais suscetível à ignição e à rápida propagação das chamas.

Grande parte de Mato Grosso do Sul aparece nos níveis de “Atenção” — risco moderado, que recomenda o início de ações preventivas — e “Alerta” — risco alto, que exige prevenção coordenada, mobilização de equipes e campanhas de conscientização — na previsão sazonal de perigo de incêndios.

El Niño: chuva ou seca?

Os modelos climáticos analisados pelo Cemtec indicam alta probabilidade de desenvolvimento do El Niño no trimestre de junho a agosto. De julho a setembro, aumenta a possibilidade do fenômeno ser fraco a moderado. Já entre setembro e dezembro, cresce a chance de um El Niño forte ou muito forte.

Dessa forma, segundo Alcides, há previsão de chuvas acima da média no Centro-Oeste, com a chegada do El Niño, mas ainda não é possível saber se elas alcançarão de maneira consistente a Bacia do Rio Paraguai.

“Com o El Niño, a previsão de meteorologistas é que tenhamos chuvas acima da média para o Centro-Oeste para essa época do ano. Elas alcançarão a Bacia do Rio Paraguai e o Pantanal? Espero que sim”, afirma.

Alcides destaca que episódios fortes do El Niño, registrados entre 2019 e 2020 e entre 2023 e 2024, coincidiram com secas e incêndios no bioma. Para os próximos meses, a probabilidade considerada alta é de temperaturas acima da média.

“Se não vierem chuvas consistentes, podemos ter uma condição propícia ao fogo. Na parte final do ano, a previsão é a do Super El Niño. Podemos ter condições de fogo fora de época, como em 2023”, alerta.

Intensificação da prevenção

Diante da possibilidade de agravamento durante a estação seca, o Corpo de Bombeiros afirma que mantém o monitoramento da região pantaneira e o planejamento para ampliar a resposta caso as ocorrências aumentem.

“Para os próximos meses, a expectativa é de aumento do risco de incêndios florestais, em razão da intensificação dos efeitos do fenômeno El Niño. Diante desse cenário, o Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul mantém o monitoramento constante e o planejamento operacional para responder de forma rápida e eficiente às ocorrências”, informa a corporação.

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(Revisão: Dáfini Lisboa)

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