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Cotidiano

Estudo traz novas conclusões sobre rochas de 544 milhões de anos encontradas em Corumbá

Novas conclusões mudam o entendimento da evolução da vida terrestre
Idaicy Solano -
Estudo traz novas conclusões sobre rochas de 544 milhões de anos encontradas em Corumbá
Filamentos fossilizados preservados em rochas do Grupo Corumbá, em Mato Grosso do Sul, formadas há cerca de 544 milhões de anos, no período Ediacarano. (Foto: Reprodução / Bruno Becker-Kerber)

Um novo estudo de fósseis encontrados em , no interior de Mato Grosso do Sul, e no Grupo Bambuí, que abrange parte dos estados de Minas Gerais e da Bahia, concluiu que os materiais registrados nessas regiões não pertencem aos primeiros animais que povoaram o fundo do mar, mas sim a comunidades de bactérias e algas. A nova tese corrige uma teoria difundida em 2017, que inicialmente indicava que os fósseis seriam uma das evidências mais antigas da presença de animais no oceano.

A revisão, publicada na revista Gondwana Research, muda o entendimento sobre um momento importante da evolução da vida na Terra, pois o povoamento dos mares é um dos marcos que definem a transição entre dois períodos geológicos, conhecidos como Pré-Cambriano e Cambriano, conforme explica o docente do Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Unesp (Universidade Estadual Paulista), Lucas Warren, que fez parte da pesquisa.

De acordo com o pesquisador, um dos principais marcos da evolução da vida terrestre foi a descoberta de evidências de que o fundo marinho começou a ser povoado por pequenos animais microscópicos, semelhantes a minhocas. Essas atividades deixaram registros preservados em rochas, que foram encontradas pelos cientistas em diferentes partes do mundo. No entanto, embora presentes em vários países, as rochas que guardam os indícios dos primeiros organismos complexos do planeta são raras e difíceis de serem estudadas.

Atualmente, há conhecimento dessas rochas em Namíbia, na China, na Espanha, no Paraguai, na Bolívia e no Brasil. Em território brasileiro, os principais registros desse período estão concentrados no Grupo Bambuí, que abrange parte dos estados de Minas Gerais e da Bahia, e outra próxima a Corumbá, em Mato Grosso do Sul.

Nova descoberta

Um grupo de pesquisadores liderado por Bruno Becker-Kerber, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, que contou com a colaboração do pesquisador da Unesp (Universidade Estadual Paulista) Lucas Warren, realizou novas análises no material encontrado no Brasil, após Becker-Kerber desconfiar de possíveis conflitos de dados em relação ao material analisado em 2017.

O novo estudo foi realizado por meio de tecnologias avançadas para auxiliar na caracterização morfológica dos registros encontrados. Durante a pesquisa, o grupo combinou três técnicas essenciais para chegar à nova conclusão, sendo elas:

  • Microtomografia: permite a reconstrução tridimensional do fóssil e a visualização de suas estruturas internas sem a necessidade de destruição da amostra;
  • Lâminas petrográficas: obtidas a partir de cortes extremamente finos do material, possibilitando a análise microscópica de sua composição e de possíveis estruturas preservadas em nível celular ou de tecido;
  • Microscopia eletrônica de varredura: que fornece imagens de altíssima resolução da superfície do fóssil, evidenciando detalhes morfológicos minuciosos, como texturas, poros e ornamentações não visíveis por microscopia óptica convencional.

As técnicas de microtomografia foram realizadas por meio da linha de luz Mogno do Sirius, um acelerador de partículas instalado no CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais), em Campinas (SP). O equipamento é capaz de produzir a chamada “luz síncrotron”, um feixe de radiação extremamente intenso que funciona como um raio-X de altíssima precisão.

Por meio da técnica, os pesquisadores conseguem visualizar o interior dos fósseis em três dimensões e identificar estruturas microscópicas sem a necessidade de quebrar ou danificar as amostras. A partir disso, os pesquisadores foram capazes de identificar paredes celulares preservadas e a organização interna dos filamentos, evidenciando que aquelas estruturas correspondiam aos corpos de microrganismos fossilizados, e não a túneis escavados por pequenos animais.

Dessa forma, foi concluído que o que os cientistas acreditavam ser evidências de organismos complexos são, na verdade, aglomerados de bactérias e macroalgas, seres simples que já povoavam esses terrenos há milhões de anos.

Imagem obtida por meio da técnica de zoom tomography, que permite visualizar fósseis em detalhes com resolução de até 20 micrômetros (0,002 cm). (Foto: Reprodução / Bruno Becker-Kerber)

Registros eram de algas e bactérias

A dúvida em relação ao estudo publicado em 2017 veio após os pesquisadores notarem que algumas das características presentes nos fósseis encontrados no interior de Mato Grosso do Sul e na região do Grupo Bambuí não correspondiam às dos animais que eles acreditavam terem deixado aqueles vestígios. Algumas das diferenças que mais chamaram a atenção foram a preservação de estruturas celulares, grandes variações no diâmetro dos filamentos e a ausência de marcas típicas de escavação ou de preenchimento por sedimentos.

Essas evidências indicavam que os fósseis não eram túneis produzidos por pequenos animais, mas sim os próprios corpos de organismos. Assim, os pesquisadores concluíram que aqueles organismos correspondiam a uma comunidade de microrganismos filamentosos, formada principalmente por cianobactérias e algas. A conclusão foi tirada com base na espessura dos filamentos, no formato das células e na ausência de estruturas características de animais complexos.

Os exemplares mais finos eram compatíveis com cianobactérias semelhantes às do gênero Oscillatoria, enquanto os maiores provavelmente pertenciam a algas ou a bactérias filamentosas. “E isso, em si, não é uma novidade para a história da Terra porque as cianobactérias habitavam o oceano há 3,5 bilhões de anos antes destas supostas evidências de trilhas fósseis”, aponta Warren. 

Rochas foram datadas em 544 milhões de anos

Outra descoberta da pesquisa foi que as rochas pertencem ao grupo das rochas sedimentares, formadas pela acumulação e posterior compactação de fragmentos de outras rochas, minerais e restos de organismos. Devido a essa característica, a datação desses materiais é bastante complexa, já que, em muitos casos, o material analisado não indica a idade da rocha sedimentar em si, mas a das rochas que deram origem a ela. 

“No trabalho, nós conseguimos datar esse material em um nível de cinza vulcânica, ou seja, quando as rochas estavam se formando, há 550 milhões de anos, algum vulcão explodiu e depositou minerais possíveis de datar junto delas. Quando você encontra uma situação como essa, com um nível de cinza vulcânica, concomitantemente à época em que o fundo marinho estava se desenvolvendo, é uma sorte muito grande e é também saber procurar essas coisas”, conta Warren.

Conforme detalha o pesquisador, as rochas foram datadas em 544 milhões de anos, época em que já existia uma série de microrganismos simples habitando o fundo marinho. “Essa região já havia sido habitada por diferentes gerações de organismos, algumas inclusive que foram extintas. Mas, nessa época, ainda não existia uma ‘bagunça’ no fundo marinho, com a presença de animais complexos colonizando, andando, comendo e vivendo nesse ambiente.”

(Foto: Reprodução / Bruno Becker-Kerber)

Conflito de dados

Conforme Warren, uma das principais dificuldades enfrentadas pelos paleontólogos é a ausência de material genético preservado, já que, sem os vestígios de DNA, os pesquisadores precisam recorrer principalmente à morfologia, ou seja, à análise da forma e da estrutura dos organismos fossilizados. Durante anos, esse processo foi realizado de forma predominantemente manual, com base na observação minuciosa e na comparação entre características anatômicas feitas com o auxílio de lupas e microscópios.

Detalhes dos fósseis, como tamanho, largura, densidade, formato e outras características morfológicas, servem como referência para que pesquisadores em diferentes partes do mundo possam comparar novos achados e estabelecer relações de parentesco entre os organismos fossilizados, além de identificar se pertencem a espécies já conhecidas ou a espécies ainda não descritas.

Foi a partir dessa comparação, inclusive, que o grupo de Becker-Kerber começou a reavaliar o conjunto de amostras de fósseis encontrados em Corumbá (MS), que inicialmente indicavam a presença dos primeiros animais a povoar o fundo marinho. As rochas sedimentares encontradas no interior de Mato Grosso do Sul apresentavam trajetos ondulados, o que, na época, foi interpretado como evidências de trilhas produzidas pela passagem de invertebrados.

“Esse processo se chama bioturbação. Isso ocorre quando o registro nas rochas não é necessariamente do fóssil do organismo, mas da evidência de que o animal esteve ali. Até então, acreditava-se que esses organismos primitivos teriam povoado o sedimento das rochas encontradas em Corumbá e teriam colonizado o fundo marinho”, explica Warren.

Por fim, o pesquisador reforça que a revisão faz parte do processo do desenvolvimento científico, em que hipóteses são formuladas a partir das evidências disponíveis e, à medida que novas tecnologias surgem e novos dados são descobertos, interpretações aceitas anteriormente podem ser revistas.

“Esse trabalho tem essa graça. É uma pesquisa que ajuda a eliminar parte do ruído em torno de interpretações que acabam se consolidando por algum tempo e, ao mesmo tempo, oferece novos critérios para que outros pesquisadores avaliem materiais semelhantes que venham a encontrar”, conclui.

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(Revisão: Dáfini Lisboa)

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