A Editora Avante (CNPJ 44.284.055/0001-46) teve quatro donos desde sua constituição, em 2021, e um salto de R$ 360 mil no capital, em um período de três anos, enquanto mudava várias vezes sua sede. A família Jafar, principal alvo do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), seria a verdadeira dona do empreendimento.
Os investigadores apontam Rossana Paroschi Jafar, a matriarca do Clã Jafar, como a principal articuladora do esquema que desviou R$ 27 milhões em Mato Grosso do Sul. Ela agiria junto dos filhos, Felipe, Giovanni e Olívia Paroschi Jafar.
Inclusive, a Avante foi aberta no nome de Rhayane Souza Fanaia — então esposa de Giovanni e nora de Rossana. Eles se divorciaram em julho de 2025. Entretanto, Rhayane, que também é dona de brechó, saiu do ‘comando’ da empresa em 2024.
Rossana, os filhos e a ex-nora foram presos pelo Gaeco na Operação Gutenberg, deflagrada no dia 7 de julho. Giovanni chegou a ficar foragido durante uma semana, mas se entregou na última terça-feira (24).

Movimentação constante
A Avante foi aberta em novembro de 2021 com capital inicial de R$ 40 mil, com sede no centro de São Bernardo do Campo (SP). Assim permaneceu até setembro de 2023, quando foi parar no centro de Osasco.
Foi em março de 2024 que aconteceu uma grande alteração: Joatan Gomes Peixoto (também preso na operação) assumiu a editora no lugar de Rhayane, e o capital pulou para R$ 200 mil. Neste mesmo ano, em dezembro, o empreendimento se mudou para a Avenida Paulista, um dos principais polos corporativos e financeiros do país.
Quase um ano depois, em outubro de 2025, quem assumiu a Avante foi Valesca Thais Albuquerque Teixeira. Ela também foi alvo de busca e apreensão na Gutenberg, em sua casa, no Jardim Noroeste, em Campo Grande. Além disso, o capital subiu para R$ 300 mil.
As investigações do Gaeco apontam que, enquanto Valesca era ‘dona’ da Avante, ela trabalhava no pet shop do namorado e não tinha rotina alguma de atividade na editora. Ela ficou como proprietária até poucos dias antes da operação.
Quem entrou em seu lugar, conforme movimentação de 25 de junho de 2026, foi Reinam Francisco de Souza — que entrou na editora e elevou o capital para R$ 400 mil. Esse aumento em três anos representa um salto de 900% no capital da empresa.
Enquanto todas as movimentações aconteciam, o Gaeco averigou que a empresa continuou fechando contratos milionários com prefeitas do interior de MS e até fora do Estado.

‘Balcão de negócios’
Grupo criminoso acusado de desviar R$ 27 milhões em recursos públicos utilizava-se da estrutura da saúde pública para forçar a venda de livros em Mato Grosso do Sul. Os envolvidos foram alvo da Operação Gutenberg.
Conforme o Gaeco, empresários cooptavam servidores por meio do pagamento de propina para condicionar a liberação de serviços de saúde, como a realização de exames médicos e até a disponibilização de leitos em hospitais, para obrigar gestores locais a comprarem o material impresso das empresas do grupo.
Para os investigadores, o modus operandi era um verdadeiro “balcão de negócios” na estrutura da saúde, em que os integrantes do grupo usavam a liberação de exames como ‘moeda de troca’. O objetivo do esquema era obrigar o Poder Público a adquirir esses livros impressos.
Devido a essa forma de atuação, o Gaeco cumpriu mandados em diversos endereços, inclusive no Core (Complexo Regulador Estadual), onde as equipes apreenderam malotes.
Caminho do dinheiro
As investigações do Gaeco mostraram que o dinheiro que caía na conta da editora como pagamento das prefeituras era escoado para os demais integrantes do grupo criminoso.
Rhayane obedecia às ordens do clã Jafar — apontado como o líder do esquema de corrupção, tendo como membros a matriarca Rossana Jafar e os filhos, Olívia e Pedro, que estão presos, e Giovanni, ex-marido de Rhayane.
Os saques seriam realizados por Rhayane e distribuídos aos demais membros da organização criminosa a mando do clã Jafar, como destaca trecho do relatório de investigação do Gaeco.
Reportagem do Jornal Midiamax revelou detalhes de como Rhayane, uma estudante, dona de brechó, virou ‘laranja’ da sogra para ficar com cerca de 1% do lucro do esquema de corrupção.

Clã Jafar comandava esquema
O relatório de investigação do Gaeco aponta que, após a morte em 2021 do patriarca da família Jafar, Mirched, por covid, a viúva, Rossana Jafar, e os filhos, Olívia, Giovanni e Felipe, abriram outros CNPJs para continuar com operações de corrupção.
A Gráfica Alvorada, que ainda pertence ao clã, é implicada em lavagem de dinheiro no contexto da Operação Lama Asfáltica. Quebra de sigilo fiscal apontou que o clã recebia diversas transferências em sua conta pessoal da Editora Avante, que firmava contratos com os municípios.
Para o Gaeco, a matriarca da família, Rossana, era a verdadeira cabeça por trás do esquema e da Editora Avante — que levava o nome da então esposa de Giovanni, Rhayane Fanaia.
Durante o cumprimento dos mandados, Rossana foi flagrada com munições intactas e também responde pelo crime de posse de arma de fogo. Foram apreendidos mais de R$ 200 mil em espécie e R$ 3 milhões em cheques durante toda a ação.
Operação Gutenberg
O Gaeco cumpriu 16 mandados de prisão e 43 de busca e apreensão, para desmantelar esquema que fazia da Central Estadual de Regulação um ‘balcão de negócios’.
Confira a lista atualizada de presos na operação:
- Rossana Paroschi Jafar – dentista e dona de gráfica;
- Olívia Paroschi Jafar – médica e dona da Clínica Ross, que também foi alvo;
- Felipe Paroschi Jafar – ex-comissionado na Agesul;
- Giovanni Paroschi Jafar – empresário;
- Rhayane Souza Fanaia – ‘laranja’ do clã Jafar e ex-esposa de Giovanni;
- Ed Carlo Britto Burgatt – ex-chefe da regulação de saúde do Estado (Core);
- Jéssyca Duarte Burgatt – filha de Ed e dona da Capital Saúde (prisão domiciliar);
- Joatan Gomes Peixoto – empresário (prisão domiciliar);
- Matheus Oliveira Peixoto – empresário;
- Francisco Anízio dos Santos – empresário;
- Douglas Henrique de Melo – empresário;
- Paulo Rogério de Melo – empresário e pai de Douglas;
- Gabriel Taquino de Paula – advogado;
- Eronivaldo da Silva Vasconcelos Junior, o Junior Vasconcelos – ex-prefeito de Fátima do Sul e escrivão da Polícia Civil.
- Geancarlo Leal de Freitas – advogado e servidor público (prisão revogada).
Segundo o MPGO (Ministério Público de Goiás), em Abadiânia, foram cumpridos 1 mandado de prisão preventiva — que seria de Rhayane — e 1 mandado de busca e apreensão. Apenas o empresário Heyder Bartz continua foragido.
A Operação Gutenberg visa combater organização criminosa acusada de fraude em licitações, corrupção ativa, corrupção passiva, além de lavagem de capitais e outros crimes. O grupo agia em Campo Grande e tinha atuação espalhada em outras cidades do Estado.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)







