Nos últimos anos, a retomada dos bares na Rua 14 de Julho, entre os cruzamentos com as avenidas Afonso Pena e Mato Grosso, devolveu ao Centro de Campo Grande parte da antiga atmosfera boêmia. A região passou a ser novamente frequentada por quem buscava convivência descontraída, conversas sem pressa e opções de cultura e lazer.
No entanto, episódios recentes de violência, incluindo mortes e brigas, têm preocupado quem frequenta a região e colocado em xeque a tranquilidade que marcou a retomada. Na noite do último sábado (8), Kayke Juliano dos Santos Theotônio, de 21 anos, foi assassinado com um golpe de faca, no cruzamento com a Rua Maracaju.
O influenciador digital Pablo Alves, do perfil Eita Pega Vei, fazia uma gravação para as redes sociais quando o assassinato aconteceu nas proximidades. Frequentador da Rua 14 de Julho, ele afirma que os episódios de violência ameaçam a tradição boêmia do corredor.
‘Salvem a 14’
“Hoje, a Rua 14 é o lugar mais visto de Campo Grande, como a Avenida Mato Grosso e a Afonso Pena foram antigamente. O problema está nas pessoas que vão com outra intenção. Lá, quem quer se divertir vai; é um lugar bom”, pontua.
“Frequento a 14 desde o começo. Esses fatos podem mudar a rua, que é o atual coração de Campo Grande. Se a gente não fizer nada, não mostramos que a cidade é limpa, correta e que pode ser visitada. As pessoas precisam se conscientizar.”
Pablo divulgou um vídeo fazendo um apelo: “salvem a Rua 14”. “A Rua 14 é de todo mundo. Se a gente não cuidar, a noite da 14 acabar. Não podemos deixar que a atitude de poucos estrague o rolê de tantos. Vai pra 14? Vá para somar, respeitar e curtir. Viu confusão? Não alimente, não espalhe e acione a segurança, polícia”, descreve.
Depende do horário?
Uma frequentadora, que preferiu o anonimato, relata que a insegurança aumenta após as 22h. A servidora pública conta que costuma frequentar bares da região desde 2024, seja para ouvir música ao vivo ou beber com os amigos. No entanto, nos últimos dias, tem preferido ir para outros bares, longe do Centro.
“Você consegue perceber que os ‘ares’ da 14 começam a mudar quando os comércios vão desligando o som, recolhendo mesas para iniciar o fechamento. Nisso, vão ficando nas esquinas umas turmas que ficam justamente querendo confusão. Quem realmente vai para encontrar os amigos, se divertir, sabe que esse horário é o que deixa o local”, pontua.
“Antes das pessoas mal-intencionadas passarem a trazer essa insegurança, a noite na rua era muito boa. Foi uma época que as pessoas ficavam na rua com a verdadeira intenção de se divertir, jogar conversa fora, conhecer gente, sentar na mesa do bar e tomar sua cerveja tranquilamente. Antes você se preocupava com a polícia exigindo o bar fechar, agora, você teme assistir um assassinato no meio da rua, como já está acontecendo”.

Comerciantes contratam segurança
De acordo com um comerciante da região, que não será identificado para evitar represalias, a falta de segurança pública tem deixado frequentadores e estabelecimentos vulneráveis na Rua 14 de Julho. Vale lembrar que a região recebe constantemente fiscalizações sobre som alto, perturbação do sossego e aglomerações.
“A 14, hoje em dia, é passagem para a polícia intimidar os bares e deixar a segurança da população e dos clientes abandonada. Zero segurança pública ali! A gente coloca segurança [privada] na casa para proteger os nossos, porém não é muita garantia. O Centro está abandonado, sem nenhum projeto de segurança, e isso reflete, logicamente, na 14”, relatou.
Gustavo Santos da Costa, conhecido como DJ Gutto, afirma ter a sensação de que as vistorias na região servem apenas para garantir o cumprimento da Lei do Silêncio, enquanto as fiscalizações voltadas à segurança e à prevenção de crimes violentos são frágeis.
“Ontem, com esse acontecimento, a gente tem a sensação de que estamos vulneráveis a todo momento, mesmo com a viatura ali, que está somente para dizer que está ali, e não para proteger de fato. Agora, para fiscalizar se o bar tem alvará, mesmo já sabendo que tem, se os decibéis estão corretos do som, fiscalizam tudo, menos, de fato, a segurança. Quando a gente diz que falta policiamento, não é para a polícia ter 10 viaturas jogando spray de pimenta, igual já fazem. É realmente para a população se sentir segura e os vândalos entenderem que existe uma ordem e que não é o local de brigas…
“Eu, como DJ, mesmo em palcos, sei que estou vulnerável a ter uma briga ao meu lado. A gente não tem segurança, e o pessoal acha que podem, por exemplo, dar uma facada em alguém e achar normal.”
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