Na era pré-histórica, o domínio do fogo passou a iluminar os caminhos de quem vagava pela Terra temendo os perigos da noite, modificando a maneira como os primeiros grupos hominídeos se organizavam e viviam em comunidade. A descoberta do fogo abriu novas possibilidades de convivência, comunicação e fortalecimento dos vínculos sociais, além de ampliar a possibilidade de ocupação de diferentes territórios.
A partir daquele momento, as fogueiras passaram a iluminar a escuridão e a oferecer segurança e proteção contra o perigo desconhecido da noite, além de criar espaços de convivência e interação. Muito antes das relações humanas ganharem palavras para definir o afeto, a chama já aproximava pessoas e ajudava a moldar o conceito de sociedade que conhecemos atualmente.
Com o passar do tempo, a relação dos seres humanos com as chamas foi ganhando novos significados, influenciada pelas diferentes culturas, localizações geográficas e tradições religiosas que atravessaram a história. Em algumas delas, o brilho incandescente da chama passou a representar a esperança de continuidade da vida após a morte, a presença espiritual, a memória de quem partiu e até mesmo a possibilidade de iluminar o caminho entre o mundo dos vivos e o dos mortos.
Uma chama, diferentes maneiras de interpretar a morte

Todos os anos, no dia 2 de novembro, data em que se comemora o Dia dos Finados no Brasil, os cemitérios de Mato Grosso do Sul ficam repletos de velas acesas em homenagens aos mortos. O gesto antigo e carregado de simbolismos atravessa gerações e ganhou diferentes significados a partir do encontro entre as tradições religiosas trazidas pelos colonizadores portugueses, as crenças e práticas dos povos africanos escravizados e os saberes espirituais dos povos indígenas, que já habitavam o território muito antes da colonização.
Segundo a historiadora Nathalia Esteves, antes da colonização, os povos originários já praticavam suas próprias crenças e rituais, muitos deles ligados à natureza, à transformação e à valorização dos ancestrais.
Com a chegada dos colonizadores portugueses, o catolicismo introduziu uma visão do luto marcada pelo sofrimento, pelo silêncio e pelas orações. Já os povos africanos escravizados, apesar das perseguições e proibições às suas práticas religiosas, preservaram suas próprias homenagens aos antepassados, que também contribuíram para a formação da cultura brasileira.
Essa diversidade se manifesta nos rituais de Finados, em que algumas pessoas fazem orações e permanecem em silêncio nos cemitérios, enquanto outras cantam e celebram a memória dos que já partiram dessa vida.
“Por mais que a gente fale de um processo de colonização, de aculturação, quando os portugueses chegaram aqui no Brasil, eles não conseguiram eliminar tudo. O Brasil é uma miscigenação de culturas, e essa mistura fez com que a gente tivesse, justamente, uma cultura única, uma comemoração diferente de outros países do Dia de Finados”, pontua a historiadora.
A chama que iluminou a vida passou a guiar a morte

Desde o domínio do fogo, que possibilitou a sobrevivência e a proteção contra perigos desconhecidos, as chamas passaram a ocupar um lugar simbólico na experiência humana, ganhando novos sentidos no decorrer dos séculos, principalmente nos rituais ligados à morte e aos espíritos, conforme explica a historiadora Nathalia Esteves.
Essa transferência de significados ocorreu, pois antigas simbologias relacionavam a luz à esperança, à proteção e a destinos considerados felizes, enquanto a escuridão era associada ao medo e ao sofrimento, conforme a historiadora. Dessa forma, iluminar o caminho dos mortos poderia garantir uma passagem tranquila ao outro mundo, conforme algumas crenças.
Antes da ascensão do cristianismo, Nathalia explica que diferentes povos com tradições ligadas à natureza compreendiam a morte como parte do ciclo da vida e uma transformação. Embora houvesse tristeza pela partida de um ente querido, a morte era vista como um momento para recordar e honrar os ancestrais em rituais fortemente associados a fogueiras e velas.
Tratando-se especificamente do dia 2 de novembro, Nathalia explica que muito do que conhecemos e praticamos atualmente nesta data possui raízes no Samhain, festival celta celebrado no hemisfério norte no fim de outubro e início de novembro, que marca a transição entre o outono e o inverno.
Acreditava-se que, entre a passagem de outubro para novembro, os limites entre o mundo dos vivos e dos mortos eram enfraquecidos, possibilitando que os espíritos vagassem livremente pela Terra. Dessa forma, o fogo era visto como uma forma de proteger os povos celtas dos “maus espíritos”, conforme explica a historiadora.
Ascensão do cristianismo

Conforme detalha a historiadora, com a ascensão do cristianismo na Europa, práticas religiosas já existentes passaram a ser perseguidas em virtude da imposição de uma nova religião. Neste processo, a Igreja Católica também incorporou e ressignificou celebrações preexistentes, incluindo o Samhain, relacionando-as ao calendário cristão, devido à dificuldade em simplesmente apagar toda uma história já construída antes de seu surgimento.
“Em determinado momento, a Igreja Católica decide que, já que não tem como eliminar essa cultura, então ela se apropria. No século VIII, o papa Gregório III decide se apropriar do Samhain e então é criado o Dia de Todos os Santos, que é celebrado no dia primeiro [de novembro]. Posteriormente, no século X, é criado o Dia de Finados, que seria, então, um dia pra valorizar os mortos”, explica a historiadora.
Com o tempo, as crenças cristãs também passaram a se misturar com as antigas simbologias do fogo, nas quais a luz passou a representar também a fé, a salvação e a possibilidade de alcançar a vida eterna.
O Deus Sol e a linha tênue entre a vida e a morte
O fogo assumiu diferentes significados nos rituais ligados à morte ao longo dos séculos, em diferentes civilizações. Nas regiões onde os povos eram bastante ligados à natureza e cultivavam práticas politeístas, a luz era fortemente associada à vida. O Deus Sol simbolizava segurança, alegria e renovação, enquanto a escuridão era ligada ao medo.
Essa valorização do Deus Sol, segundo a historiadora, ajudou a moldar os significados simbólicos atribuídos à chama que conhecemos atualmente. Enquanto algumas tradições entendem a luz como um meio de acolher e guiar os ancestrais, outras a associam à proteção contra entidades que representam o mal.
No cristianismo, essa interpretação se relaciona às crenças acerca da luz e da escuridão: a primeira simboliza o paraíso, a salvação e o bem, enquanto a segunda é associada ao sofrimento e ao mal.
“Durante a Idade Média, por exemplo, nos cemitérios, as velas tinham que estar acesas, porque eles tinham medo de que os espíritos se levantassem das covas. [Naquela época] caixões eram só pra quem tinha dinheiro e fazia parte da elite. Daí surgiram algumas histórias, como a do *Jack Lanterna”, destaca Nathalia.
*A lenda irlandesa de Jack-o’-lantern (Jack Lanterna, na tradução livre) conta a história de um homem que conseguiu enganar o diabo, mas, após morrer, não foi aceito nem no céu nem no inferno. Condenado a vagar pela escuridão, passou a carregar uma brasa dentro de um nabo para iluminar o caminho. Com o tempo, o nabo foi substituído pela abóbora, símbolo popular do Halloween, usada tradicionalmente para afastar espíritos malignos.

A simbologia da vela nos dias atuais
Embora seja um objeto simples, a vela possui um forte significado para diversas religiões, que assume diferentes objetivos conforme a crença de quem a acende. Enquanto práticas ligadas ao cristianismo simbolizam a vela como uma oração ou lembrança a quem já partiu, religiões ligadas à matriz africana e ao paganismo utilizam o símbolo em rituais de proteção ou práticas de conexão espiritual.
Cristianismo: fé, oração e memória dos mortos
No catolicismo, a vela simboliza a luz de Cristo, associada à expressão “Luz do mundo”. Os cristãos acendem uma vela para realizar orações, promessas, fazer pedidos ou em sinal de devoção. No Dia de Finados, mais especificamente, o costume de acender velas nos cemitérios está ligado à memória dos falecidos e à crença na vida eterna.
Segundo a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), a chama também simboliza a continuidade da oração por quem morreu. A vela não substitui a oração, mas materializa a intenção de quem a acende.
Umbanda: pedidos, proteção e conexão espiritual
Na Umbanda, a vela pode fazer parte de rituais de oração, homenagens e pedidos direcionados aos orixás, às entidades espirituais e aos guias. Conforme explica a historiadora Nathalia Esteves, as cores também podem ter significados específicos, relacionados à tradição seguida pelo terreiro e à finalidade do ritual.
A vela funciona, na perspectiva religiosa da Umbanda, como um elemento de conexão com o sagrado. As cores, os locais em que são acesas e os procedimentos variam de acordo com a casa e suas orientações.
Bruxaria e paganismo: intenção, simbolismo e rituais
Em tradições pagãs contemporâneas, como a Wicca, e em determinadas práticas de bruxaria, a vela pode representar a presença do sagrado, elementos da natureza ou a intenção direcionada a um ritual. As cores podem ser escolhidas de acordo com o objetivo simbólico da prática, como proteção, amor, prosperidade ou purificação.
A chama também pode ser utilizada em momentos de meditação, concentração e invocação de divindades. Na Wicca, por exemplo, velas podem compor altares e círculos ritualísticos. Vale destacar que a bruxaria e o paganismo não são uma religião única, portanto possuem crenças e práticas que variam entre tradições e praticantes.

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(Revisão: Dáfini Lisboa)








